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Questão de Português — Frase, Oração e Período — CESPE / CEBRASPE 2023

PortuguêsFrase, Oração e Período
Código
ce396280
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
UnB
Ano
2023
Cargo
Vest ( )

A descoberta da surdez


A lembrança é clara, mesmo que tenham se passado 25 anos. No apartamento em que morávamos, havia um corredor em formato de “S”, pelo qual eu adorava correr. Numa tarde, lembro-me de encostar a cabeça na parede e chamar a minha mãe, gritando: “Mãe, tem um apito no meu ouvido”. É a memória mais antiga da minha surdez. Convivo com o tinnitus aureum desde criancinha — naquela época, jamais imaginávamos que era um sintoma de perda auditiva.


Não lembro minha idade exata quando comecei a frequentar otorrinolaringologistas. Tive muitas otites. Passei inúmeras tardes ensolaradas da minha infância deitada em cima da cama esperando que algum remédio fizesse efeito, com os ouvidos tampados com algodão. Toda ida à piscina acabava, invariavelmente, em dor de ouvido. Lembro-me de uma tia-avó que às vezes comentava com minha mãe e minha avó que desconfiava que eu não ouvia bem. As duas sempre retrucavam: “Imagina, que bobagem!”. Quando penso nessa tia, lembro-me do seu olhar intrigado toda vez que eu repetia a palavrinha mágica daqueles que não escutam direito: “Hã?”. Para ela, eu falava “Hã?” demais, mas, como eu tinha uma voz perfeita, ouvia muita coisa e conversava normalmente, era mais fácil pensar que eu era distraída.


Paula Pfeifer. Crônicas da surdez.
2.ª ed. São Paulo: Plexus Editora, 2020 (com adaptações).

Texto

   

Julgue o item seguinte, relativo às ideias e aos aspectos linguísticos do texto precedente.


A exclusão da vírgula empregada em ‘Imagina, que bobagem!’ (antepenúltimo período do segundo parágrafo) alteraria o sentido desse trecho e as relações sintáticas entre seus termos.

  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Certo

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A vírgula em “Imagina, que bobagem!” — sentido e sintaxe

Gabarito: CERTO. A exclusão da vírgula em “Imagina, que bobagem!” alteraria o sentido e as relações sintáticas do trecho, pois a vírgula marca a interjeição “Imagina” como um vocábulo-frase independente, separando-a da oração seguinte. Sem ela, “Imagina” passaria a funcionar como verbo transitivo direto, e “que bobagem” deixaria de ser uma exclamação autônoma para se tornar seu objeto direto — uma mudança estrutural e semântica completa.

O comando

A questão pede um julgamento sobre o efeito da remoção de uma vírgula em um trecho específico. Isso é uma questão de pontuação com efeito sintático-semântico: não se trata de decorar regra, mas de observar o que a vírgula está fazendo ali — que relação ela instaura entre os termos — e o que aconteceria se ela sumisse. O verbo “alteraria” indica que devemos comparar a estrutura original com a versão sem a vírgula.

O texto e o trecho

No segundo parágrafo, a autora relata que sua tia-avó desconfiava de sua surdez, mas sua mãe e avó retrucavam: “Imagina, que bobagem!”. A fala é uma interjeição (“Imagina!”) seguida de uma exclamação (“que bobagem!”). A vírgula separa esses dois blocos, cada um com sua força expressiva própria.

“As duas sempre retrucavam: ‘Imagina, que bobagem!’.”

A vírgula aqui é obrigatória para isolar a interjeição, que é um vocábulo-frase — um enunciado com sentido completo, mesmo sem verbo. Sem a vírgula, a estrutura se reorganiza: “Imagina” deixa de ser interjeição e vira verbo (imperativo de “imaginar”), e “que bobagem” passa a ser seu objeto direto. A frase deixa de ser uma negação enfática (“Imagina! Que bobagem!”) e vira uma ordem para que alguém imagine algo (“Imagina que bobagem!”).

A técnica que decide

A pegadinha central é a troca de classe gramatical e de função sintática provocada pela vírgula. Veja a comparação:

Estrutura

“Imagina”

“que bobagem”

Sentido

Com vírgula

Interjeição (vocábulo-frase)

Oração exclamativa autônoma

“Não acredito! Que absurdo!”

Sem vírgula

Verbo transitivo (imperativo)

Objeto direto

“Imagine que bobagem!”

A vírgula não é um mero detalhe gráfico: ela marca a fronteira entre dois enunciados independentes. Retirá-la funde os dois blocos em uma única oração, alterando tanto o sentido (de negação para ordem) quanto a sintaxe (de dois períodos para um período composto).

Análise do item

Vírgula em "Imagina, que bobagem!"
  • 1Com vírgula
    • "Imagina" = interjeição
    • "que bobagem" = oração exclamativa
    • Sentido: negação enfática
  • 2Sem vírgula
    • "Imagina" = verbo (imperativo)
    • "que bobagem" = objeto direto
    • Sentido: ordem
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Item — ✅ CERTO

A afirmação está correta. A vírgula em “Imagina, que bobagem!” é obrigatória para isolar a interjeição “Imagina”, que funciona como um vocábulo-frase. Sem ela, “Imagina” seria interpretado como verbo transitivo direto no imperativo, e “que bobagem” passaria a ser seu objeto direto. Isso muda o sentido — de uma negação enfática para uma ordem — e as relações sintáticas — de dois enunciados independentes para uma única oração com verbo e complemento.

PEGA ESSA DICA!

Ao julgar itens sobre vírgula, pergunte-se: “o que essa vírgula está separando?”. Se ela isola uma interjeição, um vocativo ou uma oração explicativa, sua retirada funde os termos e altera a estrutura. Teste mentalmente a frase sem a vírgula e veja se o sentido muda.

Conclusão: a vírgula é um sinal de pontuação com função sintática e semântica. Sua exclusão em “Imagina, que bobagem!” transformaria a interjeição em verbo e a exclamação em objeto direto, alterando o sentido e a sintaxe. Portanto, o item está CERTO.

Gabarito: CERTO.

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