O verbo "deixar" no poema: sentido de abandonar
Gabarito: letra C (CERTO). A afirmação está correta: no verso "os gabões deixei grosseiros", o verbo "deixar" tem o sentido de abandonar, pois o eu lírico trocou a vida simples do campo (os "gabões grosseiros") pelo traje da Corte, e agora, ao retornar, relembra essa mudança. A passagem que sustenta essa leitura é a primeira estrofe, em que o eu lírico diz que o destino o trouxe de volta aos montes, onde antes deixou os "gabões grosseiros" pelo "traje da Corte, rico e fino".
O comando da questão
A questão pede que se julgue uma afirmação interpretativa sobre o sentido de um verbo no texto. Não se trata de uma pergunta de gramática pura (como conjugar o verbo), mas de compreensão textual: entender o que o autor quis dizer com "deixar" naquele contexto específico. O comando "Entende-se da leitura..." indica que a resposta deve ser buscada na interpretação do poema, não em um dicionário isolado.
O texto e o movimento argumentativo
O poema de Cláudio Manoel da Costa é um soneto árcade em que o eu lírico retorna ao campo ("Torno a ver-vos, ó montes") e relembra que, em algum momento, trocou a vida simples do campo pela vida da Corte. Os versos-chave são:
"Onde um tempo os gabões deixei grosseiros / Pelo traje da Corte, rico e fino."
Aqui, "deixar" não significa simplesmente "colocar em algum lugar" ou "permitir". O contexto mostra uma troca: o eu lírico abandonou os "gabões grosseiros" (símbolo da vida campestre) para adotar o "traje da Corte" (símbolo da vida urbana e sofisticada). O verbo "deixar" carrega, portanto, o sentido de abandonar, renunciar, pôr de lado.
A técnica: sentido contextual × sentido literal
A pegadinha da banca está em tentar fazer o candidato pensar no sentido mais comum de "deixar" (como "sair de um lugar" ou "permitir"). No entanto, a semântica contextual mostra que o verbo, no poema, tem o sentido de abandonar. Veja a diferença:
Sentido de "deixar" | Exemplo | Contexto do poema |
|---|
Sair de um lugar | "Deixei a casa" | Não se aplica: o eu lírico não está falando de sair de um lugar, mas de trocar um estilo de vida |
Permitir | "Deixei ele entrar" | Não se aplica: não há permissão envolvida |
Abandonar, renunciar | "Deixei o cigarro" | Aplica-se: o eu lírico abandonou os "gabões grosseiros" (a vida simples) |
A chave é perceber que "deixar" está ligado a uma oposição entre dois mundos: o campo (gabões grosseiros) e a Corte (traje rico e fino). Ao trocar um pelo outro, o eu lírico abandonou o primeiro.
Análise da alternativa
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A afirmação está correta. O verbo "deixar" em "os gabões deixei grosseiros" tem o sentido de abandonar, pois o eu lírico renunciou à vida simples do campo para adotar a vida da Corte. A passagem que comprova é:
"Onde um tempo os gabões deixei grosseiros / Pelo traje da Corte, rico e fino."
A preposição "por" (em "Pelo traje") indica troca: deixou-se um elemento (gabões) em favor de outro (traje). Isso reforça o sentido de abandono.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A afirmação de que o verbo "deixar" não tem o sentido de abandonar é incorreta. O texto, ao mostrar a troca dos "gabões grosseiros" pelo "traje da Corte", evidencia que o eu lírico abandonou a vida simples. Quem afirma o contrário contradiz o texto, pois ignora a relação de oposição e troca presente nos versos.
Conclusão
A questão ensina uma lição importante: o sentido das palavras é determinado pelo contexto. "Deixar" pode ter vários significados, mas, no poema, o contexto de troca e oposição entre campo e Corte impõe o sentido de abandonar. Ao julgar itens como este, pergunte-se: "o texto autoriza essa leitura?" — e a resposta, aqui, é sim.
Gabarito: letra C (CERTO).