Questão de Português — Conjunção — CESPE / CEBRASPE 2023
Português›Conjunção
Código
ce396297
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
UnB
Ano
2023
Cargo
Vest ( )
No princípio, antes de ir para bordo, foi-lhe difícil esquecer o passado, a “mãe Sabina”, os costumes que aprendera nos cafezais... Muita vez chegava a sentir um vago desejo de abraçar os seus antigos companheiros do eito, mas logo essa lembrança esvaía-se como a fumaça longínqua e tênue das queimadas, e ele voltava à realidade, abrindo os olhos, num gozo infinito para o mar crivado de embarcações...
A disciplina militar, com todos os seus excessos, não se comparava ao penoso trabalho da fazenda, ao regímen terrível do tronco e do chicote. Havia muita diferença... Ali ao menos, na fortaleza, ele tinha sua maca, seu travesseiro, sua roupa limpa, e comia bem, a fartar, como qualquer pessoa, hoje boa carne cozida, amanhã suculenta feijoada, e, às sextas-feiras, um bacalhauzinho com pimenta e “sangue de Cristo”...
Para que vida melhor? Depois, a liberdade, minha gente, só a liberdade valia por tudo! Ali não se olhava a cor ou a raça do marinheiro: todos eram iguais, tinham as mesmas regalias — o mesmo serviço, a mesma folga. — “E quando a gente se faz estimar pelos superiores, quando não se tem inimigos, então é um viver abençoado esse: ninguém pensa no dia d’amanhã!”
Adolfo Caminha. O bom-crioulo.
Considerando os sentidos e aspectos linguísticos e textuais do fragmento precedente, extraído da obra O Bom-Crioulo, de Adolfo Caminha, julgue o item a seguir. O vocábulo “mas” (segundo período do primeiro parágrafo) poderia ser suprimido do texto sem prejuízo do sentido adversativo da oração que ele introduz.
CCerto
EErrado
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GabaritoE — Errado
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O papel do “mas” na coesão do texto
Gabarito: ❌ ERRADO (letra E). O vocábulo “mas” não poderia ser suprimido sem prejuízo do sentido adversativo, porque é ele o único marcador explícito da oposição entre a lembrança do passado e a volta à realidade. Sem o conectivo, a relação de contraste deixa de estar sinalizada, e o leitor perde a pista de que há uma quebra de expectativa — exatamente o que a banca quer que você perceba.
O comando: o que a questão pede
A questão é de reescritura sem alteração de sentido: o enunciado afirma que a supressão do “mas” seria inócua. Para julgar, você precisa verificar se a relação semântica entre as orações continua explícita sem o conectivo. Não se trata de saber se a frase fica gramatical — ela fica —, mas se o sentido adversativo se mantém. E aqui está o pulo do gato: o sentido adversativo depende do conectivo para ser percebido.
O texto: onde mora a oposição
No primeiro parágrafo, o narrador descreve o conflito interno do personagem: ele sente desejo de abraçar os companheiros do eito, mas logo essa lembrança se esvai e ele volta à realidade. O trecho decisivo é:
“Muita vez chegava a sentir um vago desejo de abraçar os seus antigos companheiros do eito, mas logo essa lembrança esvaía-se como a fumaça longínqua e tênue das queimadas, e ele voltava à realidade...”
O “mas” introduz a quebra de expectativa: o desejo de reencontro é imediatamente anulado pela lembrança que se dissipa. Sem o conectivo, as duas orações ficariam justapostas, e o leitor teria de inferir a oposição — o que não é o mesmo que tê-la explícita. A banca cobra exatamente essa distinção: o conectivo é o operador argumentativo que materializa a relação de contraste.
A técnica: conectivo como marcador de relação
Conjunções adversativas como “mas”, “porém”, “contudo” não são meros enfeites: elas sinalizam a relação lógica entre as orações. Suprimir o “mas” não elimina a oposição semântica (as ideias continuam contrastantes), mas elimina a marcação explícita dessa oposição. Em provas, a banca considera que há prejuízo de sentido quando a relação deixa de estar sinalizada — e é isso que ocorre aqui.
Compare:
Com “mas”
Sem “mas”
“...desejo de abraçar..., mas logo essa lembrança esvaía-se...”
“...desejo de abraçar..., logo essa lembrança esvaía-se...”
Oposição explícita (marcada pelo conectivo)
Oposição implícita (depende de inferência)
No segundo caso, o “logo” até sugere uma sequência temporal, mas a contraposição entre o desejo e o seu desaparecimento perde a força. O leitor ainda entende, mas o texto fica menos coeso e o sentido adversativo deixa de ser garantido pelo conectivo.
Análise da assertiva
A afirmativa diz que o “mas” “poderia ser suprimido do texto sem prejuízo do sentido adversativo”. Isso é falso: o sentido adversativo depende do conectivo para ser explicitado. A supressão prejudica a clareza da relação de oposição, ainda que a frase continue gramatical. Portanto, a assertiva está errada.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre gramaticalidade e sentido. A frase sem “mas” é gramatical, mas perde a marcação explícita da oposição — e é isso que a questão chama de “prejuízo do sentido adversativo”.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de supressão/substituição de conectivo, pergunte: “a relação semântica continua explícita sem ele?”. Se o conectivo é o único marcador da relação, a supressão sempre prejudica o sentido.
Conclusão
O “mas” é o operador argumentativo que materializa a oposição entre o desejo de reencontro e o seu desaparecimento. Suprimi-lo elimina a marcação explícita do contraste, o que configura prejuízo de sentido. Gabarito: ❌ ERRADO (letra E).