Questão de Português — Conjunção — CESPE / CEBRASPE 2023
Português›Conjunção
Código
ce396303
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
UnB
Ano
2023
Cargo
Vest ( )
Lá — estava o Morro da Garça: solitário, escaleno e escuro, feito uma pirâmide. O Gorgulho mais olhava-o, de arrevirar bogalhos; parecia que aqueles olhos seus dele iam sair, se esticar para fora, com pedúnculos, como tentáculos.
— “Possível ter havido alguma coisa?” — frei Sinfrão perguntava. — “Essas serras gemem, roncam, às vezes, com retumbo de longe trovão, o chão treme, se sacode. Serão descarregamentos subterrâneos, o desabar profundo de camadas calcáreas, como nos terremotos de Bom-Sucesso… Dizem que isso acontece mais é por volta da lua-cheia…”
Mas, não, ali ilapso nenhum não ocorrera, os morros continuavam tranquilos, que é a maneira de como entre si eles conversam, se conversa alguma se transmitem. O Gorgulho padeceria de qualquer alucinação; ele que até era meio surdo. E Pedro Orósio, que semelhava ainda mais alteado, ao lado assim daquele criaturo ananho, mostrava grande vontade de rir. O Gorgulho ainda afirmava a vista, enquanto engulia em seco, seu gogó sobe-descia.
João Guimarães Rosa. O recado do morro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2007.
Tendo como referência inicial o fragmento precedente da novela O recado do morro, de João Guimarães Rosa, publicado em Corpo de baile (1956), julgue o item e assinale a opção correta. No primeiro período do primeiro parágrafo, o vocábulo “feito” transmite ideia de
Aexplicação.
Bcomparação.
Cconformidade.
Dproporcionalidade.
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GabaritoB — comparação.
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O valor semântico de “feito” em “feito uma pirâmide”
Gabarito: letra B (comparação). No trecho “solitário, escaleno e escuro, feito uma pirâmide”, o vocábulo “feito” estabelece uma comparação entre o Morro da Garça e uma pirâmide, aproximando as formas dos dois elementos. A pista decisiva está na própria estrutura do período: o morro é descrito como “escaleno” (de lados desiguais) e “escuro”, e a expressão “feito uma pirâmide” funciona como um termo comparativo que aproxima a imagem do morro à de uma pirâmide, como se lê no primeiro parágrafo do fragmento.
O comando da questão
O enunciado pede que se identifique a ideia transmitida pelo vocábulo “feito” no primeiro período do primeiro parágrafo. Trata-se de uma questão de semântica contextual: não se pergunta a classe gramatical da palavra, mas o valor semântico que ela assume naquele contexto específico. A banca quer que o candidato perceba que “feito”, ali, não tem sentido de “concluído” ou “realizado”, mas sim de comparação, equivalendo a “como”, “qual”, “tal qual”.
O texto e a localização da resposta
No fragmento de Guimarães Rosa, o narrador descreve o Morro da Garça:
“Lá — estava o Morro da Garça: solitário, escaleno e escuro, feito uma pirâmide.”
A expressão “feito uma pirâmide” é uma comparação explícita: o morro é comparado a uma pirâmide, destacando-se a semelhança de forma. O vocábulo “feito”, nesse contexto, é uma preposição acidental (ou conjunção comparativa, conforme a nomenclatura adotada), que introduz o termo comparado. A ideia é de analogia, não de explicação, conformidade ou proporcionalidade.
A técnica que decide
Para resolver questões de valor semântico de conectivos, o caminho é sempre o mesmo: substitua o vocábulo por outro de sentido equivalente e veja se a frase mantém o sentido. No caso, “feito” pode ser substituído por “como”, “qual”, “tal qual”, “semelhante a”, sem prejuízo de sentido:
“solitário, escaleno e escuro, como uma pirâmide” — comparação.
“solitário, escaleno e escuro, qual uma pirâmide” — comparação.
Essa substituição é a prova de que a ideia é de comparação. As demais alternativas não resistem ao teste:
Explicação: exigiria um conectivo como “porque”, “pois”, “já que”. Não há relação de causa/justificativa.
Conformidade: exigiria “conforme”, “segundo”, “de acordo com”. Não há ideia de acordo ou regra.
Proporcionalidade: exigiria “à medida que”, “quanto mais... mais”. Não há relação de proporção ou simultaneidade.
Análise das alternativas
Valor semântico de conectivos: Técnica de resolução (Substituir por sinônimo, Manter o sentido); Comparação ("como", "qual", "tal qual", "feito uma pirâmide"); Explicação ("porque", "pois", "já que", Não há causa); Conformidade ("conforme", "segundo", Não há acordo); Proporcionalidade ("à medida que", "quanto mais", Não há proporção)
Alternativa A — ❌ Incorreta
Explicação. A ideia de explicação é introduzida por conectivos como “porque”, “pois”, “já que”, “visto que”. No trecho, “feito uma pirâmide” não explica por que o morro é solitário, escaleno e escuro; apenas compara a forma do morro à de uma pirâmide. A alternativa extrapola o sentido do vocábulo, atribuindo-lhe uma relação de causa que o texto não estabelece.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Comparação. O vocábulo “feito” equivale a “como”, “qual”, “tal qual”, introduzindo um termo que se compara ao Morro da Garça. A passagem “solitário, escaleno e escuro, feito uma pirâmide” aproxima a imagem do morro à de uma pirâmide, destacando a semelhança de forma. A substituição por “como” mantém o sentido: “solitário, escaleno e escuro, como uma pirâmide”. É a única alternativa que o texto autoriza.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Conformidade. A conformidade é expressa por “conforme”, “segundo”, “de acordo com”, “consoante”. No trecho, não há ideia de que o morro esteja de acordo com uma pirâmide, mas sim de que ele se assemelha a uma pirâmide. A alternativa troca o conceito: confunde comparação (semelhança) com conformidade (acordo/regra).
Alternativa D — ❌ Incorreta
Proporcionalidade. A proporcionalidade é expressa por “à medida que”, “ao passo que”, “quanto mais... mais”. No trecho, não há relação de proporção ou simultaneidade entre o morro e a pirâmide; há apenas uma comparação de formas. A alternativa extrapola o sentido do vocábulo, atribuindo-lhe uma relação que o texto não sustenta.
Conclusão
A questão cobra o valor semântico contextual de um vocábulo. A técnica da substituição por sinônimo é a mais eficaz: se “feito” pode ser trocado por “como” sem alterar o sentido, a ideia é de comparação. As demais alternativas falham porque atribuem ao vocábulo relações (causa, acordo, proporção) que o texto não estabelece.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de valor semântico de conectivos, substitua o vocábulo por outro de sentido equivalente e veja se a frase mantém o sentido. Se a troca por “como” funciona, é comparação; se por “porque”, é explicação; se por “conforme”, é conformidade; se por “à medida que”, é proporcionalidade.