Questão de Português — Regência Nominal e Verbal (Casos Gerais) — CESPE / CEBRASPE 2023
Português›Regência Nominal e Verbal (Casos Gerais)
Código
ce396308
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
UnB
Ano
2023
Cargo
Vest ( )
Poemas aos homens do nosso tempo
VI
Tudo vive em mim. Tudo se entranha
Na minha tumultuada vida. E por isso
Não te enganas, homem, meu irmão,
Quando dizes na noite, que só a mim me vejo.
Vendo-me a mim, a ti. E a esses que passam
Nas manhãs, carregados de medo, de pobreza,
O olhar aguado, todos eles em mim,
Porque o poeta é irmão do escondido das gentes
Descobre além da aparência, é antes de tudo
Livre, e por isso conhece. Quando o poeta fala
Fala do seu quarto, não fala do palanque,
Não está no comício, não deseja riqueza
Não barganha, sabe que o ouro é sangue
Tem os olhos no espírito do homem
No possível infinito. Sabe de cada um
A própria fome. E porque é assim, eu te peço:
Escuta-me. Olha-me. Enquanto vive um poeta
O homem está vivo.
Hilda Hilst. Da poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.
Com base nesse poema, de Poemas aos homens do nosso tempo, publicados por Hilda Hilst em Memória, júbilo e noviciado da paixão (1974), julgue o item e assinale a opção correta No trecho “Quando dizes na noite, que só a mim me vejo. / Vendo-me a mim, a ti”, o verbo ver, nas duas formas em que ocorre, está empregado como transitivo direto.
CCerto
EErrado
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GabaritoC — Certo
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Transitividade do verbo "ver" no poema de Hilda Hilst
Gabarito: CERTO (C). No trecho “Quando dizes na noite, que só a mim me vejo. / Vendo-me a mim, a ti”, o verbo ver é transitivo direto nas duas ocorrências: em “me vejo”, o pronome me é objeto direto; em “Vendo-me”, o me também é objeto direto. A presença de “a mim” e “a ti” não torna o verbo transitivo indireto, pois essas expressões são reforços enfáticos do objeto direto, e não complementos regidos por preposição. A passagem que comprova:
“que só a mim me vejo. / Vendo-me a mim, a ti”
Aqui, “a mim” repete o pronome “me” (objeto direto) para dar ênfase; “a ti” é um reforço do mesmo objeto, mas o verbo ver continua pedindo complemento sem preposição.
O comando da questão
A questão pede que você julgue se o verbo ver é transitivo direto nas duas formas em que ocorre. Isso é uma questão de análise sintática e regência verbal: você precisa identificar o objeto de cada ocorrência e verificar se ele é introduzido por preposição (objeto indireto) ou não (objeto direto). Não há interpretação de sentido aqui — é pura gramática aplicada ao texto.
O texto e o trecho analisado
O poema de Hilda Hilst fala da identificação do poeta com o outro: “Vendo-me a mim, a ti”. O eu lírico diz que, ao ver a si mesmo, vê também o outro. O trecho relevante é:
“que só a mim me vejo. / Vendo-me a mim, a ti”
Observe as duas formas verbais:
“me vejo” — o verbo ver está conjugado na 1ª pessoa do singular, e o pronome me é o objeto direto (quem vê, vê alguém). O “a mim” que aparece antes é um reforço do objeto, mas não é regido por preposição — é uma redundância enfática.
“Vendo-me” — o verbo ver está no gerúndio, e o pronome me é novamente objeto direto. O “a mim” e “a ti” são aposições ou reforços do objeto, não complementos preposicionados.
A regra que decide
Verbo transitivo direto é aquele cujo complemento (objeto direto) não é introduzido por preposição. Ex.: “Ele viu o filme” — “o filme” é objeto direto. Verbo transitivo indireto exige preposição: “Ele gosta de música” — “de música” é objeto indireto.
No trecho, o verbo ver pede complemento sem preposição: “ver alguém”. O pronome me cumpre esse papel. As expressões “a mim” e “a ti” são reforços enfáticos — um recurso estilístico comum na poesia para dar ênfase ao objeto. Elas não indicam que o verbo passou a ser transitivo indireto, pois a preposição “a” aqui é expletiva (de realce), não exigida pela regência.
A pegadinha da banca
A banca tenta fazer você acreditar que, por haver “a mim” e “a ti”, o verbo seria transitivo indireto. Isso é uma armadilha clássica: confundir o reforço enfático com objeto indireto. Lembre-se: a presença de uma preposição nem sempre indica objeto indireto — pode ser adjunto adverbial, complemento nominal ou, como aqui, um reforço do objeto direto.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre pronome oblíquo átono (me) e a preposição “a” que antecede “mim”, levando o candidato a achar que o verbo é transitivo indireto.
Verbo "ver" no trecho: "me vejo" (Objeto direto: "me", "a mim" = reforço enfático); "Vendo-me" (Objeto direto: "me", "a mim, a ti" = reforço enfático); Regra (Transitivo direto: sem preposição, Preposição "a" expletiva (realce))
Análise das alternativas
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A afirmação está correta. O verbo ver é transitivo direto nas duas ocorrências:
“me vejo” → objeto direto: me (reforçado por “a mim”)
“Vendo-me” → objeto direto: me (reforçado por “a mim, a ti”)
O texto comprova:
“que só a mim me vejo. / Vendo-me a mim, a ti”
Aqui, “me” é o objeto direto; “a mim” e “a ti” são reforços enfáticos, não complementos preposicionados. Portanto, a classificação como transitivo direto está correta.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A afirmação de que o verbo não é transitivo direto está errada. O verbo ver é transitivo direto, como demonstrado acima. A banca tenta confundir com a presença de “a mim” e “a ti”, mas essas expressões são reforços, não objetos indiretos. O erro aqui é de troca de conceito: confundir reforço enfático com objeto indireto.
Conclusão
A questão é resolvida pela análise sintática do verbo ver: ele pede objeto direto (sem preposição), e os pronomes “me” cumprem esse papel. As expressões “a mim” e “a ti” são meros reforços. Portanto, o item está CERTO.
PEGA ESSA DICA!
Ao analisar transitividade, pergunte: “o complemento é introduzido por preposição?”. Se não, é objeto direto. Cuidado com preposições que são apenas reforço enfático — elas não mudam a regência.