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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce396325
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
POLC AL
Ano
2023
Cargo
Aux Per ( )

Em 2007, o Brasil recebeu a exposição de anatomia intitulada Bodies revealed: fascinating + real, traduzida como Corpo humano: real e fascinante. Cerca de 670 mil pessoas de diversas cidades brasileiras puderam visitar a exposição na qual os objetos expostos eram nada menos do que 16 cadáveres e 225 órgãos humanos. Adentrar em um salão repleto de cadáveres estripados e mutilados deveria suscitar a mesma sensação de uma câmara dos horrores, já que os mortos são notoriamente objetos de tabu, fontes de mana, considerados impuros, perigosos e, não raramente, repugnantes. Entretanto, os corpos dissecados da exposição, apresentados esfolados ou fatiados, inteiros ou em partes, eviscerados ou não, e tematicamente organizados em sistemas — esquelético, muscular, nervoso, respiratório, digestório, excretor, reprodutor, circulatório — eram tratados como objetos de “arte”. Ao contrário daqueles grandes vidros de formol que distorcem a imagem do seu conteúdo desbotado, largamente usados em laboratórios e museus para conservar restos biológicos, Bodies revealed é um espetáculo cadavérico no qual corpos dissecados e partes corporais — reduzidos a formas, cores e texturas — são espetacularmente exibidos em pedestais, displays e caixas transparentes, distribuídos meticulosamente em espaços organizados e iluminados para realçar suas formas e cores.


Há um evidente sensacionalismo mórbido nas exposições de corpos humanos, visto que não haveria o mesmo impacto se os corpos expostos fossem sintéticos ou de animais. Isto evidencia o fato de que a relação que se estabelece entre nós, espectadores, e os cadáveres expostos tem uma dimensão social, distinta da que teríamos se fossem apenas modelos de plástico ou cera, ainda que reproduções perfeitas, ou de um cadáver animal, qualquer que seja a técnica de conservação. As exposições de corpos humanos até podem oferecer motivações mais nobres do que o simples entretenimento mórbido, mas sem abrirem mão da morbidez como peça fundamental do espetáculo. Com efeito, o tom geral daqueles que defendem essas exposições apela para a utilidade educativa de se usarem corpos humanos reais, dissecados e modelados, em posições didáticas, pois essa técnica possibilita o acesso a “espécimes” cuja riqueza de detalhes e de informações era antes acessível apenas aos anatomistas.


Internet: <www.scielo.br> (com adaptações).

Texto CB3A1

 

No que se refere aos sentidos do texto CB3A1, julgue o item a seguir.


Infere-se do segundo parágrafo do texto que o autor argumenta a favor do uso de cadáveres em exposições voltadas ao público, dado seu caráter educativo.

  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Inferência sobre a posição do autor no segundo parágrafo

Gabarito: ERRADO (E). A afirmação de que o autor argumenta a favor do uso de cadáveres em exposições, dado seu caráter educativo, não se sustenta no texto: o autor apenas relata o argumento dos defensores, sem adotá-lo como posição própria. A passagem decisiva é:

"o tom geral daqueles que defendem essas exposições apela para a utilidade educativa de se usarem corpos humanos reais"

O trecho atribui o apelo educativo a "aqueles que defendem", não ao autor. Inferir que o autor concorda com esse argumento é extrapolar — acrescentar uma posição que o texto não autoriza.

O comando: "infere-se" pede inferência com pista

O verbo "infere-se" indica que a resposta não está literal, mas deve ser uma dedução ancorada em pistas do texto. A inferência legítima exige que o texto obrigue àquela conclusão. Aqui, a conclusão proposta (autor a favor) não é obrigatória — o texto mantém uma distância crítica, descrevendo o fenômeno e os argumentos alheios, sem se posicionar.

O texto: tema, tese e movimento argumentativo

O texto descreve a exposição Bodies revealed e discute a relação social e mórbida que estabelecemos com cadáveres expostos. No segundo parágrafo, o autor:

  • Afirma que há "evidente sensacionalismo mórbido" nas exposições;

  • Explica que o impacto depende de serem corpos humanos reais;

  • Reconhece que "podem oferecer motivações mais nobres do que o simples entretenimento mórbido", mas sem abrir mão da morbidez;

  • Por fim, relata o argumento dos defensores: a utilidade educativa.

O conectivo "mas" é crucial: o autor concede que há motivações nobres, mas não adere a elas — ele apenas registra o que os defensores dizem. A expressão "o tom geral daqueles que defendem" marca claramente que se trata de voz alheia, não da voz do autor.

A técnica: distinguir relato de posição

A armadilha central é confundir o argumento relatado com a tese do autor. Quando o texto diz "os defensores apelam para a utilidade educativa", isso não significa que o autor concorda. Para inferir adesão, seria necessário um verbo como "concordo", "defendo" ou uma avaliação positiva explícita. O texto, ao contrário, mantém tom crítico ao chamar o fenômeno de "sensacionalismo mórbido" e "espetáculo cadavérico".

Análise da assertiva

Inferência de posição do autor
  • 1O que o texto faz
    • Descreve o fenômeno
    • Critica ("sensacionalismo mórbido")
    • Relata voz alheia ("aqueles que defendem")
  • 2O que o texto NÃO faz
    • Não adere ao argumento educativo
    • Não defende as exposições
  • 3Técnica de leitura
    • Distinguir relato de posição
    • Verbo de adesão ("concordo", "defendo")
    • Conectivo "mas" marca distância
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Assertiva — ❌ Errada

A assertiva afirma que o autor "argumenta a favor do uso de cadáveres em exposições voltadas ao público, dado seu caráter educativo". O texto não sustenta isso:

  • O autor não defende as exposições; ele as descreve e as critica ("sensacionalismo mórbido", "espetáculo cadavérico").

  • O argumento educativo é atribuído a terceiros: "aqueles que defendem essas exposições".

  • A inferência de que o autor concorda é uma extrapolação — vai além do que o texto permite.

PEGA ESSA DICA!

Ao ler "infere-se", pergunte: o texto me obriga a concluir isso, ou estou completando com minha opinião? Se a conclusão depende de algo que o texto não diz, é extrapolação.

Conclusão

A assertiva está errada porque atribui ao autor uma posição que ele não assume. O texto apenas relata o argumento dos defensores, sem aderir a ele. Gabarito: letra E (ERRADO).

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