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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce396342
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
CBM TO
Ano
2023
Cargo
Sold ( )

As cidades são como os seres humanos: têm um corpo e têm uma alma. Talvez muitas almas, porque o corpo é um albergue onde moram muitas almas, todas diferentes em ideias e sentimentos, todas com a mesma cara. O corpo das cidades são as ruas, as praças, os carros, as lojas, os bancos, os escritórios, as fábricas, as coisas materiais. A alma, ao contrário, são os pensamentos e os sentimentos dos que nela moram. Há corpos perfeitos com almas feias e são como um violino Stradivarius em mãos de quem não gosta de música e não sabe tocar. Mas pode acontecer o contrário: um corpo tosco com alma bonita. Aí é como acontecia com as rabecas do querido Gramanni. Rabecas são violinos rústicos fabricados por artesãos desconhecidos. Mas o Gramanni era capaz de tocar Bach nas suas rabecas... O mesmo vale para as cidades: cidades bonitas por fora e com almas feias, cidades rústicas por fora com almas bonitas. Onde se podem encontrar as almas das cidades? Eu as encontro bonitas nas feiras, nas bancas de legumes e frutas, no mercadão, no sacolão. Esses são lugares onde acontecem reencontros felizes. Também na feira de artesanato, nos jardins onde há crianças, nos concertos... Mas elas aparecem assustadoras nas torcidas de futebol e no tráfego... Ah, o tráfego! É nele que a alma da cidade aparece mais nua. Pensei nisso na semana que passei em Portugal. Lembrei-me que há lugares onde os motoristas sabem que o pedestre tem sempre a preferência. Eles param para que o pedestre passe. Um amigo me contou de sua experiência em Munique: desceu da calçada, pôs os pés no asfalto e, para seu espanto, viu que todos os carros pararam para que ele atravessasse a rua. Sempre que paro meu carro para que o pedestre passe, percebo a surpresa no seu rosto. Não acredita. É preciso que eu faça um gesto com a mão para que ele se atreva.

 

Não é incomum ver um motorista acelerar o carro ao ver um pedestre atravessando a rua. Disseram-me que existe mesmo um video game cuja sensação está em atropelar os pedestres. As cidades voltarão a ser bonitas quando os motoristas compreenderem que o natural é andar a pé. Os pedestres devem ter sempre a preferência.

 

Rubem Alves. Cidades. In: Ostra feliz não faz pérola. São Paulo:

Editora Planeta do Brasil, 2008 (com adaptações).

Texto 2A1-I

   

Assinale a opção correta de acordo com as ideias do texto 2A1-I.

  1. AO corpo da cidade constitui-se dos pensamentos e dos sentimentos das pessoas que nela vivem.
  2. BA alma da cidade constitui-se das ruas, das casas e do tráfego de carros e de pedestres.
  3. CMuitos motoristas aceleram o carro ao verem um pedestre atravessar a rua.
  4. DAs cidades ficarão mais bonitas quando os pedestres perceberem que é preciso respeitar os motoristas.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Muitos motoristas aceleram o carro ao verem um pedestre atravessar a rua.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Compreensão literal: o que o texto afirma sobre motoristas e pedestres

Gabarito: letra C. A alternativa C é a única inteiramente sustentada pelo texto, pois reproduz, em paráfrase, uma afirmação explícita do autor: "Não é incomum ver um motorista acelerar o carro ao ver um pedestre atravessando a rua." As demais alternativas ou invertem os conceitos de corpo e alma (A e B) ou invertem a relação de respeito defendida pelo autor (D).

O comando pede a opção "de acordo com as ideias do texto" — ou seja, trata-se de uma questão de compreensão literal: a resposta deve ser uma paráfrase fiel de algo que está escrito, sem deduções ou acréscimos. Não se trata de inferir, mas de localizar a informação. Por isso, o método é simples: para cada alternativa, pergunte "onde o texto diz exatamente isso?" e confronte com o trecho correspondente.

O texto de Rubem Alves estabelece uma metáfora: as cidades têm corpo (elementos materiais: ruas, praças, carros, lojas) e alma (pensamentos e sentimentos dos moradores). Depois, o autor discute o comportamento de motoristas e pedestres, defendendo que "Os pedestres devem ter sempre a preferência" e criticando motoristas que não respeitam essa regra. A alternativa C está ancorada no segundo parágrafo, onde o autor afirma textualmente que não é raro um motorista acelerar ao ver um pedestre atravessando.

A armadilha central desta questão é a troca de conceitos: as alternativas A e B invertem deliberadamente as definições de corpo e alma, e a alternativa D inverte a relação de respeito (coloca o pedestre como quem deve respeitar o motorista, quando o texto defende o contrário). A banca testa se o candidato lê com atenção e não se deixa levar por associações apressadas.

Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que o corpo da cidade se constitui dos pensamentos e sentimentos das pessoas. Isso contradiz o texto, que define o corpo como o conjunto de elementos materiais:

"O corpo das cidades são as ruas, as praças, os carros, as lojas, os bancos, os escritórios, as fábricas, as coisas materiais."

O texto é explícito: corpo = coisas materiais; alma = pensamentos e sentimentos. A alternativa inverte os conceitos, trocando corpo por alma. Erro de troca de conceito.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que a alma da cidade se constitui das ruas, casas e tráfego. Novamente, inverte a definição: o texto diz que a alma são os pensamentos e sentimentos dos moradores:

"A alma, ao contrário, são os pensamentos e os sentimentos dos que nela moram."

Ruas, casas e tráfego são elementos materiais, portanto pertencem ao corpo, não à alma. Erro de troca de conceito.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa afirma que muitos motoristas aceleram o carro ao verem um pedestre atravessar a rua. Isso está literalmente no texto:

"Não é incomum ver um motorista acelerar o carro ao ver um pedestre atravessando a rua."

A alternativa é uma paráfrase fiel do trecho: "não é incomum" = "muitos"; "acelerar o carro" = "aceleram o carro"; "ao ver um pedestre atravessando" = "ao verem um pedestre atravessar". Não há acréscimo nem supressão de sentido. É a única alternativa que se limita a repetir o que o texto diz, sem inverter ou extrapolar.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que as cidades ficarão mais bonitas quando os pedestres perceberem que é preciso respeitar os motoristas. Isso contradiz o texto, que defende exatamente o contrário: os motoristas devem respeitar os pedestres.

"As cidades voltarão a ser bonitas quando os motoristas compreenderem que o natural é andar a pé. Os pedestres devem ter sempre a preferência."

O texto coloca a responsabilidade sobre os motoristas, não sobre os pedestres. A alternativa inverte a relação de respeito, atribuindo aos pedestres o dever de respeitar os motoristas. Erro de contradição com o texto.

NÃO CAIA NESSA!

A banca inverte os polos da metáfora (corpo/alma) e da relação de respeito (motorista/pedestre). Leia com atenção e confira sempre quem é o sujeito da ação no texto.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de compreensão literal, sublinhe no texto a passagem que corresponde a cada alternativa. Se não encontrar, a alternativa está errada.

Gabarito: letra C — a única que o texto autoriza integralmente, sem inversões nem acréscimos.

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