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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce396347
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
TJ ES
Ano
2023
Cargo
AJ 02 ( )

A apropriação colonial das terras indígenas muitas vezes se iniciava com alguma alegação genérica de que os povos forrageadores viviam em um estado de natureza — o que significava que eram considerados parte da terra, mas sem nenhum direito a sua propriedade. A base para o desalojamento, por sua vez, tinha como premissa a ideia de que os habitantes daquelas terras não trabalhavam. Esse argumento remonta ao Segundo tratado sobre o governo (1690), de John Locke, em que o autor defendia que os direitos de propriedade decorrem necessariamente do trabalho. Ao trabalhar a terra, o indivíduo “mistura seu trabalho” a ela; nesse sentido, a terra se torna, de certo modo, uma extensão do indivíduo. Os nativos preguiçosos, segundo os discípulos de Locke, não faziam isso. Não eram, segundo os lockianos, “proprietários de terras que faziam melhorias”; apenas as usavam para atender às suas necessidades básicas com o mínimo de esforço.


James Tully, uma autoridade em direitos indígenas, aponta as implicações históricas desse pensamento: considera-se vaga a terra usada para a caça e a coleta e, “se os povos aborígenes tentam submeter os europeus a suas leis e costumes ou defender os territórios que durante milhares de anos tinham erroneamente pensado serem seus, então são eles que violam o direito natural e podem ser punidos ou ‘destruídos’ como animais selvagens”. Da mesma forma, o estereótipo do nativo indolente e despreocupado, levando uma vida sem ambições materiais, foi utilizado por milhares de conquistadores, administradores de latifúndios e funcionários coloniais europeus na Ásia, na África, na América Latina e na Oceania como pretexto para obrigar os povos nativos ao trabalho, com meios que iam desde a escravização pura e simples ao pagamento de taxas punitivas, corveias e servidão por dívida.


David Graeber e David Wengrow.

O despertar de tudo: uma nova história da humanidade. São Paulo: Cia das Letras, 2022, p. 169-170 (com adaptações).

Texto CG1A1-I

 

Com base nas ideias veiculadas no texto CG1A1-I, julgue o item a seguir.

 

O emprego do adjetivo “preguiçosos” (penúltimo período do primeiro parágrafo) revela uma opinião preconceituosa dos autores do texto a respeito das populações nativas colonizadas.

  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Atribuição de opinião e vozes do texto

Gabarito: letra E (Errado). O adjetivo “preguiçosos” não revela opinião preconceituosa dos autores do texto; ele reproduz a visão dos discípulos de Locke (os “lockianos”), como se lê no trecho: “Os nativos preguiçosos, segundo os discípulos de Locke, não faziam isso.” A banca tenta fazer o candidato confundir a voz do autor com a voz citada — erro clássico de atribuição de autoria.

O comando

A questão pede que se julgue (certo/errado) uma afirmação sobre o texto. O verbo “revela” indica que se trata de compreensão (localizar uma informação explícita) e, ao mesmo tempo, de interpretação (perceber de quem é a opinião). O candidato precisa distinguir: o que o autor diz de si mesmo e o que ele reporta como pensamento de outros.

O texto

O texto é um trecho de livro de história que analisa criticamente o discurso colonial. No primeiro parágrafo, os autores explicam a base ideológica da apropriação de terras: a alegação de que os nativos viviam em “estado de natureza” e a premissa de que “não trabalhavam”. Essa premissa é atribuída a John Locke e, em seguida, aos seus seguidores:

“Os nativos preguiçosos, segundo os discípulos de Locke, não faziam isso.”

A expressão “segundo os discípulos de Locke” é a chave: o adjetivo “preguiçosos” está dentro do discurso citado, não na voz do autor. Os autores estão descrevendo o estereótipo colonial, não endossando-o. Pelo contrário, o tom do texto é de denúncia: fala em “pretexto para obrigar os povos nativos ao trabalho”, “escravização pura e simples”, “taxas punitivas”.

A técnica que decide

Em questões de interpretação, nunca atribua ao autor uma opinião que ele apenas reporta. O texto pode citar uma fala preconceituosa sem concordar com ela. Para identificar a voz, procure marcadores de discurso indireto: “segundo”, “para”, “na visão de”, “de acordo com”. Aqui, o marcador é explícito: “segundo os discípulos de Locke”.

Além disso, o adjetivo “preguiçosos” está entre aspas? Não, mas o contexto de citação indireta é claro. Se o autor quisesse expressar sua própria opinião, não usaria “segundo os discípulos de Locke” — diria algo como “os nativos eram preguiçosos”.

Análise da assertiva

1Autor (analisa criticamente)
Denuncia o estereótipo
Não endossa a opinião
2Discípulos de Locke (citados)
"Nativos preguiçosos"
"Não trabalhavam"
3Marcadores de discurso citado
"segundo"
"para"
"na visão de"
"de acordo com"
Vozes no texto
LEVELsoulevel.com.br
Vozes no texto: Autor (analisa criticamente) (Denuncia o estereótipo, Não endossa a opinião); Discípulos de Locke (citados) ("Nativos preguiçosos", "Não trabalhavam"); Marcadores de discurso citado ("segundo", "para", "na visão de", "de acordo com")

Assertiva — ❌ Errada ⟵ GABARITO

A afirmação de que o emprego de “preguiçosos” revela opinião preconceituosa dos autores é falsa. O texto deixa claro que essa é a visão dos lockianos:

“Os nativos preguiçosos, segundo os discípulos de Locke, não faziam isso.”

O erro é de atribuição de autoria: a banca troca o sujeito da opinião. Os autores do texto estão criticando esse estereótipo, não o compartilhando. Isso fica evidente no segundo parágrafo, quando falam em “estereótipo do nativo indolente” utilizado como “pretexto” para a exploração.

NÃO CAIA NESSA!

A banca aposta na pressa do candidato: ele vê a palavra “preguiçosos”, associa a preconceito e marca “certo”, sem perceber que a opinião é de terceiros citados no texto. Sempre pergunte: de quem é essa voz?

Conclusão

A assertiva está errada porque atribui aos autores uma opinião que o texto atribui aos discípulos de Locke. A regra de ouro: opinião citada ≠ opinião do autor. Quando o texto usa “segundo”, “para”, “na visão de”, a opinião é de quem está sendo citado, não de quem escreve.

Gabarito: letra E (Errado).

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