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Questão de Português — Coerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc) — CESPE / CEBRASPE 2023

PortuguêsCoerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc)
Código
ce396352
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
TJ ES
Ano
2023
Cargo
AJ 02 ( )

A apropriação colonial das terras indígenas muitas vezes se iniciava com alguma alegação genérica de que os povos forrageadores viviam em um estado de natureza — o que significava que eram considerados parte da terra, mas sem nenhum direito a sua propriedade. A base para o desalojamento, por sua vez, tinha como premissa a ideia de que os habitantes daquelas terras não trabalhavam. Esse argumento remonta ao Segundo tratado sobre o governo (1690), de John Locke, em que o autor defendia que os direitos de propriedade decorrem necessariamente do trabalho. Ao trabalhar a terra, o indivíduo “mistura seu trabalho” a ela; nesse sentido, a terra se torna, de certo modo, uma extensão do indivíduo. Os nativos preguiçosos, segundo os discípulos de Locke, não faziam isso. Não eram, segundo os lockianos, “proprietários de terras que faziam melhorias”; apenas as usavam para atender às suas necessidades básicas com o mínimo de esforço.


James Tully, uma autoridade em direitos indígenas, aponta as implicações históricas desse pensamento: considera-se vaga a terra usada para a caça e a coleta e, “se os povos aborígenes tentam submeter os europeus a suas leis e costumes ou defender os territórios que durante milhares de anos tinham erroneamente pensado serem seus, então são eles que violam o direito natural e podem ser punidos ou ‘destruídos’ como animais selvagens”. Da mesma forma, o estereótipo do nativo indolente e despreocupado, levando uma vida sem ambições materiais, foi utilizado por milhares de conquistadores, administradores de latifúndios e funcionários coloniais europeus na Ásia, na África, na América Latina e na Oceania como pretexto para obrigar os povos nativos ao trabalho, com meios que iam desde a escravização pura e simples ao pagamento de taxas punitivas, corveias e servidão por dívida.


David Graeber e David Wengrow.

O despertar de tudo: uma nova história da humanidade. São Paulo: Cia das Letras, 2022, p. 169-170 (com adaptações).

Texto CG1A1-I

 

Acerca dos sentidos e dos mecanismos de coesão empregados no texto CG1A1-I, julgue o próximo item.

 

A expressão “Da mesma forma”, no último período do segundo parágrafo, reforça a continuidade da argumentação do período anterior.

  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Certo

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Coesão sequencial: o papel de “Da mesma forma”

Gabarito: CERTO. A expressão “Da mesma forma” reforça a continuidade da argumentação porque estabelece uma relação de comparação/conformidade entre o período em que aparece e o período anterior, indicando que o que será dito segue a mesma linha de raciocínio já apresentada. Como se lê no segundo parágrafo, o autor primeiro expõe a visão de James Tully sobre a justificativa para punir os povos indígenas e, em seguida, afirma que “Da mesma forma, o estereótipo do nativo indolente... foi utilizado... como pretexto para obrigar os povos nativos ao trabalho”. O conectivo sinaliza que essa segunda informação é um desdobramento paralelo da primeira, mantendo a progressão temática.

O comando

A questão pede que se julgue (certo/errado) uma afirmação sobre o mecanismo de coesão empregado pela expressão “Da mesma forma”. Trata-se de uma questão de interpretação de texto focada em coesão sequencial: o candidato deve identificar a relação lógica que o conectivo estabelece entre os períodos. Não se exige conhecimento de regra gramatical isolada, mas sim a capacidade de ler o efeito de sentido do conectivo no contexto.

O texto

O texto discute a apropriação colonial de terras indígenas, mostrando como argumentos filosóficos (Locke) e estereótipos foram usados para justificar o desalojamento e a exploração. No segundo parágrafo, o autor apresenta duas consequências desse pensamento: (1) a visão de Tully de que os povos indígenas poderiam ser punidos por defenderem suas terras; (2) o uso do estereótipo do nativo indolente para obrigá-los ao trabalho. A expressão “Da mesma forma” conecta essas duas ideias, indicando que a segunda é análoga à primeira — ambas são implicações históricas do mesmo pensamento colonial.

A técnica

Coesão sequencial é o mecanismo que garante a continuidade lógica do texto, principalmente por meio de conectivos. O conectivo “da mesma forma” é um operador argumentativo de comparação/conformidade: ele introduz uma informação que se assemelha à anterior, reforçando a linha de raciocínio. Veja o trecho:

“Da mesma forma, o estereótipo do nativo indolente e despreocupado... foi utilizado... como pretexto para obrigar os povos nativos ao trabalho”

Aqui, “da mesma forma” retoma a ideia de que o pensamento colonial justificava a violência contra os nativos (Tully) e a estende ao uso do estereótipo para explorá-los. Sem o conectivo, a relação de paralelismo ficaria implícita; com ele, o autor amarra os dois argumentos, garantindo a progressão temática.

Pegadinha: a banca pode tentar confundir o candidato fazendo-o pensar que “da mesma forma” é apenas um marcador de adição (como “além disso”). Mas o conectivo tem valor comparativo: ele não apenas soma, mas equipara as duas situações. Perceba que o período anterior fala de “povos aborígenes” que “violam o direito natural” e podem ser punidos; o período seguinte fala do “estereótipo do nativo indolente” usado para obrigá-los ao trabalho. A relação é de semelhança de propósito: ambos servem para justificar a dominação.

Análise do item

Item — ✅ CERTO

A afirmação está correta. O conectivo “Da mesma forma” reforça a continuidade da argumentação porque estabelece uma relação de comparação entre o período anterior e o posterior, indicando que a nova informação segue a mesma linha de raciocínio. Isso é coesão sequencial: o conectivo amarra as ideias, garantindo a progressão lógica do texto.

PEGA ESSA DICA!

Ao analisar conectivos, pergunte: “que relação ele estabelece?”. “Da mesma forma” = comparação/conformidade; “além disso” = adição; “portanto” = conclusão. O contexto decide.

Conclusão: a expressão “Da mesma forma” não apenas conecta, mas reforça a continuidade argumentativa, pois introduz um argumento paralelo ao anterior. Portanto, o item está CERTO.

Gabarito: CERTO

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