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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce396378
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
TJ ES
Ano
2023
Cargo
AJ 02 ( )

Um contraste não menos nítido que o da oposição dos sexos é o fornecido pela oposição das classes em determinada sociedade, a qual tende a se revelar por meio de certos sinais exteriores como a vestimenta, as maneiras, a linguagem, chegando mesmo a refletir-se no modo pelo qual as pessoas se distribuem no espaço geográfico.


É assim que podemos, por assim dizer, visualizar as sutis diferenças que separam os seres entre si, pois elas aqui e ali se petrificam, as diversas áreas residenciais urbanas simbolizando as diversas classes sociais, os indivíduos espalhando-se pelos bairros de uma cidade de acordo com os grupos a que pertencem, como se procurassem, através de uma unidade local, reforçar a identidade de usos e costumes, de hábitos e mentalidade. Como se, numa existência de aproximação constante e frequente confusão de seres de estratos diversos a que a vida urbana nos obriga, fosse necessário, para preservar uma demarcação social existente, mas ameaçada, reforçar a todo momento uma realidade imponderável, cuja exteriorização conferisse a cada um uma segurança maior.


No entanto, à maneira de uma radiografia que nos revela, na sua nitidez, detalhes imperceptíveis ao olho nu, mas que, sendo estática, não retém a vida, o palpitar do coração, o fluir constante do sangue nas artérias, enfim, os fenômenos fisiológicos que se produzem no interior do nosso corpo, os esquemas da sociedade também não nos fazem suspeitar a luta surda e subterrânea dos grupos, a ininterrupta substituição dos indivíduos num arcabouço mais ou menos fixo.


Pois a separação de classes não é rígida como a que existe entre as castas. A classe é aberta e percorrida por um movimento contínuo de ascensão e descida, o qual afeta constantemente a sua estrutura, colocando os indivíduos de maneira diversa, uns em relação aos outros. A sociedade do século XIX, ao contrário daquela que a precedeu, não opõe mais, nem mesmo entre a burguesia e a nobreza, barreiras intransponíveis, preservadas pelo próprio Estado por meio das leis suntuárias ou das questões de precedência e de nível.


Essa possibilidade nova de comunicação entre os grupos substitui a antiga fixidez, ou melhor, a fixidez relativa da estrutura social, por uma constante mobilidade, fazendo com que a sociedade se assemelhe, na admirável comparação de Proust, “aos caleidoscópios que giram de tempos em tempos, colocando sucessivamente de maneira diversa elementos que acreditávamos imóveis, e compondo uma outra figura”.


Gilda de Melo e Sousa. O espírito das roupas: a

moda no século XIX. São Paulo/Rio de Janeiro: Cia das Letras/Ouro Sobre Azul, 2019, p. 111-112. (com adaptações).

Texto 20A1-I

 

Considerando aspectos de conteúdo do texto 20A1-I, especialmente os propósitos da autora e informações implícitas, julgue o item a seguir.

 

Segundo o texto, a demarcação social dos grupos não elide a confusão entre estratos sociais, típica da vida urbana.

  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoC — Certo

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A demarcação social e a confusão entre estratos na vida urbana

Gabarito: CERTO. A afirmação está correta porque o texto, ao mesmo tempo que mostra a demarcação social dos grupos, não nega a existência de confusão entre estratos — pelo contrário, ele a pressupõe como algo típico da vida urbana. A passagem decisiva está no segundo parágrafo, quando a autora fala em “frequente confusão de seres de estratos diversos a que a vida urbana nos obriga”.

“Como se, numa existência de aproximação constante e frequente confusão de seres de estratos diversos a que a vida urbana nos obriga, fosse necessário, para preservar uma demarcação social existente, mas ameaçada, reforçar a todo momento uma realidade imponderável”

Aqui está a chave: a demarcação social existe, mas está ameaçada justamente porque a vida urbana impõe uma aproximação constante e uma frequente confusão entre pessoas de estratos diferentes. Ou seja, a demarcação não elimina (não elide) essa confusão — ela apenas tenta reforçar uma separação que a convivência urbana tende a borrar. O item, portanto, é uma inferência legítima, ancorada em pistas explícitas do texto.

O comando: inferência, não recorrência

O enunciado pede que você considere “aspectos de conteúdo do texto, especialmente os propósitos da autora e informações implícitas”. Isso muda tudo: você não deve procurar uma frase que diga literalmente “a demarcação não elide a confusão”. Você deve deduzir isso a partir do que está escrito. A banca quer saber se você consegue ler nas entrelinhas, captando o que está pressuposto — e não apenas o que está na superfície.

O texto: tese e movimento argumentativo

O texto de Gilda de Melo e Sousa discute como as classes sociais se revelam por sinais exteriores (vestimenta, maneiras, linguagem, distribuição no espaço urbano). No segundo parágrafo, a autora desenvolve a ideia de que os indivíduos se agrupam por bairros “como se procurassem, através de uma unidade local, reforçar a identidade de usos e costumes”. O trecho-chave é o que vem em seguida:

“Como se, numa existência de aproximação constante e frequente confusão de seres de estratos diversos a que a vida urbana nos obriga, fosse necessário, para preservar uma demarcação social existente, mas ameaçada, reforçar a todo momento uma realidade imponderável”

Repare na estrutura: a autora diz que a demarcação é “existente, mas ameaçada”. Ameaçada por quê? Pela “aproximação constante e frequente confusão de seres de estratos diversos” que a vida urbana impõe. Ou seja, a confusão entre estratos é um dado da vida urbana — e a demarcação social existe justamente para tentar preservar uma separação que essa confusão põe em risco. Não há, em nenhum momento, a ideia de que a demarcação elimine a confusão. Pelo contrário: ela é uma reação a ela.

A técnica: inferência com pista textual

A afirmação do item é uma inferência válida porque se apoia em um pressuposto deixado pelo texto. O verbo “obriga” em “a que a vida urbana nos obriga” indica que a confusão é inevitável na vida urbana — não é algo que a demarcação possa apagar. A demarcação apenas reforça uma separação simbólica, mas a confusão permanece como característica estrutural da cidade. Portanto, dizer que a demarcação “não elide” (não elimina) a confusão é exatamente o que o texto autoriza.

Por que não é ERRADO

Se a banca pedisse uma recorrência (informação explícita), você poderia argumentar que a frase exata “não elide” não aparece. Mas o comando pede inferência — e a inferência está perfeitamente ancorada. O erro clássico aqui seria extrapolar e dizer que a demarcação impede a confusão, ou que a confusão não existe. O texto diz o oposto: a confusão existe, é frequente, e a demarcação é uma tentativa de lidar com ela, não de eliminá-la.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a sutileza entre “não elide” (não elimina) e “não impede” (não impede que exista). O candidato apressado pode achar que, se há demarcação, não há confusão — mas o texto diz que a demarcação é “ameaçada” justamente pela confusão.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de inferência, procure a pista que sustenta a dedução. Aqui, a pista é o trecho “frequente confusão de seres de estratos diversos a que a vida urbana nos obriga”. Se a confusão é algo a que a vida urbana obriga, ela não pode ser eliminada pela demarcação.

Conclusão

O item está CERTO porque a demarcação social, no texto, não elimina a confusão entre estratos — ela apenas tenta reforçar uma separação ameaçada pela própria dinâmica urbana. A inferência é legítima, pois se apoia em pistas explícitas. Gabarito: CERTO.

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