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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce396380
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
TJ ES
Ano
2023
Cargo
AJ 02 ( )

Um contraste não menos nítido que o da oposição dos sexos é o fornecido pela oposição das classes em determinada sociedade, a qual tende a se revelar por meio de certos sinais exteriores como a vestimenta, as maneiras, a linguagem, chegando mesmo a refletir-se no modo pelo qual as pessoas se distribuem no espaço geográfico.


É assim que podemos, por assim dizer, visualizar as sutis diferenças que separam os seres entre si, pois elas aqui e ali se petrificam, as diversas áreas residenciais urbanas simbolizando as diversas classes sociais, os indivíduos espalhando-se pelos bairros de uma cidade de acordo com os grupos a que pertencem, como se procurassem, através de uma unidade local, reforçar a identidade de usos e costumes, de hábitos e mentalidade. Como se, numa existência de aproximação constante e frequente confusão de seres de estratos diversos a que a vida urbana nos obriga, fosse necessário, para preservar uma demarcação social existente, mas ameaçada, reforçar a todo momento uma realidade imponderável, cuja exteriorização conferisse a cada um uma segurança maior.


No entanto, à maneira de uma radiografia que nos revela, na sua nitidez, detalhes imperceptíveis ao olho nu, mas que, sendo estática, não retém a vida, o palpitar do coração, o fluir constante do sangue nas artérias, enfim, os fenômenos fisiológicos que se produzem no interior do nosso corpo, os esquemas da sociedade também não nos fazem suspeitar a luta surda e subterrânea dos grupos, a ininterrupta substituição dos indivíduos num arcabouço mais ou menos fixo.


Pois a separação de classes não é rígida como a que existe entre as castas. A classe é aberta e percorrida por um movimento contínuo de ascensão e descida, o qual afeta constantemente a sua estrutura, colocando os indivíduos de maneira diversa, uns em relação aos outros. A sociedade do século XIX, ao contrário daquela que a precedeu, não opõe mais, nem mesmo entre a burguesia e a nobreza, barreiras intransponíveis, preservadas pelo próprio Estado por meio das leis suntuárias ou das questões de precedência e de nível.


Essa possibilidade nova de comunicação entre os grupos substitui a antiga fixidez, ou melhor, a fixidez relativa da estrutura social, por uma constante mobilidade, fazendo com que a sociedade se assemelhe, na admirável comparação de Proust, “aos caleidoscópios que giram de tempos em tempos, colocando sucessivamente de maneira diversa elementos que acreditávamos imóveis, e compondo uma outra figura”.


Gilda de Melo e Sousa. O espírito das roupas: a

moda no século XIX. São Paulo/Rio de Janeiro: Cia das Letras/Ouro Sobre Azul, 2019, p. 111-112. (com adaptações).

Texto 20A1-I

 

Considerando aspectos de conteúdo do texto 20A1-I, especialmente os propósitos da autora e informações implícitas, julgue o item a seguir.

 

A separação dos grupos sociais em castas é menos rigorosa que as distinções oferecidas pela oposição de classes.

  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Comparação entre castas e classes sociais

Gabarito: letra E (Errado). A assertiva inverte a relação de rigidez estabelecida no texto: a autora afirma que a separação de classes é menos rígida que a de castas, e não o contrário. Como se lê no 4º parágrafo: "Pois a separação de classes não é rígida como a que existe entre as castas." Portanto, a afirmação de que "a separação dos grupos sociais em castas é menos rigorosa que as distinções oferecidas pela oposição de classes" contradiz frontalmente o texto.

O comando

O enunciado pede que se julgue o item considerando "aspectos de conteúdo do texto, especialmente os propósitos da autora e informações implícitas". Isso significa que a resposta deve ser ancorada no que o texto afirma (compreensão) e no que ele permite deduzir (inferência). Aqui, porém, a assertiva não exige inferência alguma: ela é uma paráfrase invertida de uma informação explícita. O erro está em trocar o sujeito da comparação.

O texto

O texto de Gilda de Melo e Sousa discute como as classes sociais se manifestam por sinais exteriores (vestimenta, maneiras, linguagem, distribuição espacial) e como, apesar de haver demarcações, a sociedade moderna é marcada por mobilidade entre classes. O ponto-chave está no 4º parágrafo, em que a autora contrasta classes e castas:

"Pois a separação de classes não é rígida como a que existe entre as castas."

Aqui está a tese da comparação: as castas são rígidas; as classes são abertas, percorridas por "movimento contínuo de ascensão e descida". A autora reforça isso ao dizer que a sociedade do século XIX "não opõe mais, nem mesmo entre a burguesia e a nobreza, barreiras intransponíveis". Ou seja, a rigidez é atribuída às castas, não às classes.

A técnica que decide

Em questões de compreensão, a alternativa correta é uma paráfrase fiel do texto. A assertiva do item diz:

"A separação dos grupos sociais em castas é menos rigorosa que as distinções oferecidas pela oposição de classes."

Compare com o texto: o texto diz que a separação de classes não é rígida como a das castas. Isso significa que as castas são mais rígidas que as classes. A assertiva afirma exatamente o oposto: que as castas são menos rigorosas. Trata-se de uma inversão da relação de comparação — um erro clássico de troca de vocábulo ("menos" no lugar de "mais") que contradiz o texto.

Análise da assertiva

Critério

Castas

Classes

Rigidez da separação

Rígida (fechada)

Menos rígida (aberta)

Mobilidade social

Ausente (fixidez)

Presente (ascensão e descida)

Barreiras entre grupos

Intransponíveis

Transponíveis

Assertiva — ❌ Errada

A afirmação está errada porque inverte a comparação. O texto é explícito:

"Pois a separação de classes não é rígida como a que existe entre as castas."

Se a separação de classes não é rígida como a de castas, então a de castas é mais rígida (ou mais rigorosa) que a de classes. A assertiva diz o contrário: que as castas são "menos rigorosas". Isso é uma contradição com o texto.

Além disso, o texto caracteriza as classes como "abertas" e percorridas por "movimento contínuo de ascensão e descida", enquanto as castas são apresentadas como um sistema fechado e rígido. A autora usa a comparação para destacar a mobilidade das classes em contraste com a fixidez das castas.

Conclusão

A assertiva está errada porque inverte a relação de rigidez: o texto afirma que as classes são menos rígidas que as castas, e não o contrário. A banca tentou confundir o candidato trocando o termo comparativo. Gabarito: letra E (Errado).

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