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Questão de Português — Coerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc) — CESPE / CEBRASPE 2023

PortuguêsCoerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc)
Código
ce396387
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
TJ ES
Ano
2023
Cargo
AJ 02 ( )

Um contraste não menos nítido que o da oposição dos sexos é o fornecido pela oposição das classes em determinada sociedade, a qual tende a se revelar por meio de certos sinais exteriores como a vestimenta, as maneiras, a linguagem, chegando mesmo a refletir-se no modo pelo qual as pessoas se distribuem no espaço geográfico.


É assim que podemos, por assim dizer, visualizar as sutis diferenças que separam os seres entre si, pois elas aqui e ali se petrificam, as diversas áreas residenciais urbanas simbolizando as diversas classes sociais, os indivíduos espalhando-se pelos bairros de uma cidade de acordo com os grupos a que pertencem, como se procurassem, através de uma unidade local, reforçar a identidade de usos e costumes, de hábitos e mentalidade. Como se, numa existência de aproximação constante e frequente confusão de seres de estratos diversos a que a vida urbana nos obriga, fosse necessário, para preservar uma demarcação social existente, mas ameaçada, reforçar a todo momento uma realidade imponderável, cuja exteriorização conferisse a cada um uma segurança maior.


No entanto, à maneira de uma radiografia que nos revela, na sua nitidez, detalhes imperceptíveis ao olho nu, mas que, sendo estática, não retém a vida, o palpitar do coração, o fluir constante do sangue nas artérias, enfim, os fenômenos fisiológicos que se produzem no interior do nosso corpo, os esquemas da sociedade também não nos fazem suspeitar a luta surda e subterrânea dos grupos, a ininterrupta substituição dos indivíduos num arcabouço mais ou menos fixo.


Pois a separação de classes não é rígida como a que existe entre as castas. A classe é aberta e percorrida por um movimento contínuo de ascensão e descida, o qual afeta constantemente a sua estrutura, colocando os indivíduos de maneira diversa, uns em relação aos outros. A sociedade do século XIX, ao contrário daquela que a precedeu, não opõe mais, nem mesmo entre a burguesia e a nobreza, barreiras intransponíveis, preservadas pelo próprio Estado por meio das leis suntuárias ou das questões de precedência e de nível.


Essa possibilidade nova de comunicação entre os grupos substitui a antiga fixidez, ou melhor, a fixidez relativa da estrutura social, por uma constante mobilidade, fazendo com que a sociedade se assemelhe, na admirável comparação de Proust, “aos caleidoscópios que giram de tempos em tempos, colocando sucessivamente de maneira diversa elementos que acreditávamos imóveis, e compondo uma outra figura”.


Gilda de Melo e Sousa. O espírito das roupas: a

moda no século XIX. São Paulo/Rio de Janeiro: Cia das Letras/Ouro Sobre Azul, 2019, p. 111-112. (com adaptações).

Texto 20A1-I

 

Considerando as relações coesivas e de sentido entre termos empregados no texto 20A1-I, julgue o item a seguir.

 

No último parágrafo, a palavra “nova” qualifica uma novidade empreendida em tempo passado ao da produção do texto.

  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoC — Certo

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Coesão referencial: o sentido de “nova” no último parágrafo

Gabarito: CERTO. A palavra “nova” qualifica uma novidade empreendida em tempo passado ao da produção do texto, pois o texto, ao afirmar que “a sociedade do século XIX, ao contrário daquela que a precedeu, não opõe mais, nem mesmo entre a burguesia e a nobreza, barreiras intransponíveis”, apresenta a “possibilidade nova de comunicação entre os grupos” como algo que já ocorreu no século XIX, em contraste com a sociedade anterior. A prova está na própria estrutura do texto: o autor fala do século XIX como um período passado e, ao usar “nova”, refere-se a uma característica desse período, não a algo do tempo da escrita.

O comando pede uma análise de relações coesivas e de sentido entre termos, especificamente sobre o valor da palavra “nova” no último parágrafo. Não se trata de compreensão literal, mas de interpretação do valor semântico-temporal do adjetivo, ancorada no contexto histórico que o texto estabelece. A questão testa se o candidato percebe que “nova” não é um adjetivo neutro, mas carrega uma referência temporal relativa ao século XIX, e não ao momento da produção do texto.

O texto, de Gilda de Melo e Sousa, discute a oposição de classes na sociedade do século XIX, contrastando-a com a rigidez das castas. O autor argumenta que a classe é aberta e percorrida por um movimento contínuo de ascensão e descida, e que a sociedade do século XIX, diferentemente da que a precedeu, não opõe barreiras intransponíveis entre burguesia e nobreza. É nesse contexto que surge a “possibilidade nova de comunicação entre os grupos”.

A técnica para resolver é identificar o referente temporal do adjetivo. O texto situa a ação no século XIX: “A sociedade do século XIX, ao contrário daquela que a precedeu...”. Quando o autor diz “Essa possibilidade nova de comunicação entre os grupos substitui a antiga fixidez”, o “nova” se opõe a “antiga”, mas ambos os termos se referem a características do século XIX em relação ao período anterior. O texto foi escrito no século XXI (a obra é de 2019), mas a “novidade” descrita é uma novidade do século XIX, portanto, passada em relação à produção do texto. A banca testa exatamente essa distinção: o candidato pode achar que “nova” se refere ao tempo da escrita, mas o texto a situa no passado.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a literalidade do adjetivo “nova”, tentando fazer o candidato interpretá-lo como algo atual, do tempo da produção do texto. A armadilha está em não perceber que o texto fala do século XIX como um período histórico passado, e que a “novidade” é relativa a esse período, não ao presente.

PEGA ESSA DICA!

Ao analisar o sentido de uma palavra, verifique sempre o contexto temporal do texto. Pergunte: “essa novidade é nova em relação a quê e a quando?”. A resposta está no texto, não no mundo real.

Item — ✅ CERTO

A afirmação está correta. O texto, ao descrever a sociedade do século XIX, usa “nova” para caracterizar uma possibilidade que surgiu naquele período, em contraste com a sociedade anterior. Veja o trecho:

“A sociedade do século XIX, ao contrário daquela que a precedeu, não opõe mais, nem mesmo entre a burguesia e a nobreza, barreiras intransponíveis”

E, no último parágrafo:

“Essa possibilidade nova de comunicação entre os grupos substitui a antiga fixidez”

A palavra “nova” aqui se opõe a “antiga”, mas ambas se referem a características do século XIX em relação ao período anterior. A “novidade” é uma novidade do século XIX, não do tempo da produção do texto (2019). O texto fala do século XIX como um período passado, e a “possibilidade nova” é uma característica desse período. Portanto, a palavra “nova” qualifica uma novidade empreendida em tempo passado ao da produção do texto.

Conclusão: a análise coesiva e de sentido mostra que “nova” tem valor temporal relativo ao século XIX, não ao presente da escrita. O item está CERTO.

Gabarito: CERTO

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