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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce396390
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
TJ ES
Ano
2023
Cargo
AJ 02 ( )

Um contraste não menos nítido que o da oposição dos sexos é o fornecido pela oposição das classes em determinada sociedade, a qual tende a se revelar por meio de certos sinais exteriores como a vestimenta, as maneiras, a linguagem, chegando mesmo a refletir-se no modo pelo qual as pessoas se distribuem no espaço geográfico.


É assim que podemos, por assim dizer, visualizar as sutis diferenças que separam os seres entre si, pois elas aqui e ali se petrificam, as diversas áreas residenciais urbanas simbolizando as diversas classes sociais, os indivíduos espalhando-se pelos bairros de uma cidade de acordo com os grupos a que pertencem, como se procurassem, através de uma unidade local, reforçar a identidade de usos e costumes, de hábitos e mentalidade. Como se, numa existência de aproximação constante e frequente confusão de seres de estratos diversos a que a vida urbana nos obriga, fosse necessário, para preservar uma demarcação social existente, mas ameaçada, reforçar a todo momento uma realidade imponderável, cuja exteriorização conferisse a cada um uma segurança maior.


No entanto, à maneira de uma radiografia que nos revela, na sua nitidez, detalhes imperceptíveis ao olho nu, mas que, sendo estática, não retém a vida, o palpitar do coração, o fluir constante do sangue nas artérias, enfim, os fenômenos fisiológicos que se produzem no interior do nosso corpo, os esquemas da sociedade também não nos fazem suspeitar a luta surda e subterrânea dos grupos, a ininterrupta substituição dos indivíduos num arcabouço mais ou menos fixo.


Pois a separação de classes não é rígida como a que existe entre as castas. A classe é aberta e percorrida por um movimento contínuo de ascensão e descida, o qual afeta constantemente a sua estrutura, colocando os indivíduos de maneira diversa, uns em relação aos outros. A sociedade do século XIX, ao contrário daquela que a precedeu, não opõe mais, nem mesmo entre a burguesia e a nobreza, barreiras intransponíveis, preservadas pelo próprio Estado por meio das leis suntuárias ou das questões de precedência e de nível.


Essa possibilidade nova de comunicação entre os grupos substitui a antiga fixidez, ou melhor, a fixidez relativa da estrutura social, por uma constante mobilidade, fazendo com que a sociedade se assemelhe, na admirável comparação de Proust, “aos caleidoscópios que giram de tempos em tempos, colocando sucessivamente de maneira diversa elementos que acreditávamos imóveis, e compondo uma outra figura”.


Gilda de Melo e Sousa. O espírito das roupas: a

moda no século XIX. São Paulo/Rio de Janeiro: Cia das Letras/Ouro Sobre Azul, 2019, p. 111-112. (com adaptações).

Texto 20A1-I

 

A partir de uma compreensão crítica e interpretativa do texto 20A1-I, julgue o próximo item.


Infere-se do texto que a opinião da autora não é aderente ao modelo de distinção de classes característico do momento histórico anterior ao século XIX.

  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Certo

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A opinião da autora sobre o modelo de classes anterior ao século XIX

Gabarito: CERTO. A afirmação está correta porque o texto, ao descrever a sociedade do século XIX como aberta e marcada por mobilidade, contrapõe-se ao modelo anterior, que era rígido e fixo — e essa contraposição revela que a autora não adere ao modelo antigo. A passagem decisiva está no 4º parágrafo: "Pois a separação de classes não é rígida como a que existe entre as castas. A classe é aberta e percorrida por um movimento contínuo de ascensão e descida".

O comando pede uma inferência ("Infere-se do texto"), ou seja, uma dedução ancorada em pistas textuais, não uma informação literal. A tarefa é perceber que a autora valoriza a mobilidade da classe aberta e, portanto, não adere ao modelo anterior, que era fechado e estático. Essa adesão se revela pelo tom positivo com que descreve a "possibilidade nova de comunicação entre os grupos" e pela comparação com o caleidoscópio, que sugere dinamismo.

O texto desenvolve um contraste: de um lado, a fixidez das sociedades anteriores (marcada por barreiras intransponíveis, como as castas); de outro, a mobilidade da sociedade do século XIX. A autora não apenas descreve essa mudança, mas a avalia positivamente, ao chamar a mobilidade de "admirável comparação de Proust" e ao associar a rigidez a algo "ameaçado" e "imponderável". Essa avaliação é a pista para a inferência: quem elogia o novo modelo não adere ao antigo.

A técnica para resolver: toda inferência legítima precisa de uma pista no texto. Aqui, a pista é a oposição entre "rígida" e "aberta" — se a autora afirma que a classe "não é rígida" e que a sociedade do século XIX "não opõe mais barreiras intransponíveis", ela está se distanciando do modelo anterior. Não há nenhuma passagem que sugira adesão ou simpatia pela rigidez; pelo contrário, a rigidez é descrita como algo que precisava ser "reforçada" para preservar uma demarcação "ameaçada".

"Pois a separação de classes não é rígida como a que existe entre as castas. A classe é aberta e percorrida por um movimento contínuo de ascensão e descida"

Essa passagem autoriza a inferência: a autora não adere ao modelo rígido anterior, pois o apresenta como superado e inferior ao modelo aberto. A palavra "não" é crucial — ela nega a rigidez, e a negação é uma pista de que a autora rejeita o modelo antigo.

Item — ✅ CERTO

A afirmação "a opinião da autora não é aderente ao modelo de distinção de classes característico do momento histórico anterior ao século XIX" é verdadeira frente ao texto. A autora descreve o modelo anterior como rígido e fixo, e o modelo do século XIX como aberto e móvel, com um tom claramente favorável a este último. A inferência é legítima porque se apoia em pistas textuais: a oposição entre os dois modelos e a avaliação positiva da mobilidade. Não há nenhuma passagem que sugira adesão ao modelo antigo; pelo contrário, a rigidez é apresentada como algo que "precisava ser reforçada" para preservar uma demarcação "ameaçada", o que indica uma visão crítica.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de inferência, procure a pista que autoriza a dedução. Aqui, a pista é a oposição entre "rígida" e "aberta" — se a autora nega a rigidez e elogia a mobilidade, ela não adere ao modelo antigo.

Conclusão: A inferência é válida porque o texto obriga a essa conclusão: a autora não adere ao modelo rígido anterior, pois o descreve como superado e valoriza a mobilidade do século XIX. Gabarito: CERTO.

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