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Questão de Português — Coerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc) — CESPE / CEBRASPE 2023

PortuguêsCoerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc)
Código
ce396396
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
TJ ES
Ano
2023
Cargo
AJ 02 ( )

Falar ou escrever sobre Antonio Candido é, para mim, extremamente difícil. A geração à qual pertenço não seria a mesma sem a sua presença e influência. Eu próprio não seria o mesmo se a vida não me pusesse em contato com Antonio Candido, com o seu carinho, a sua severidade íntegra, a sua modéstia e o seu orgulho intelectual — enfim, a sua personalidade de educador, que se irradia irresistível, como uma exigência de perfeição e de compromisso crítico. Uma existência fecunda, devotada ao estudo, ao cultivo do talento dos jovens, ao ensino, ao florescimento da antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, à contestação socialista constante e à esperança de que o Brasil venceria, por meio dos mais humildes e dos trabalhadores, as tragédias de sua dependência e o subdesenvolvimento. Sem alarde, sempre esteve na vanguarda ousada, realizando tarefas simples e complexas, escondendo-se no anonimato, mas enfrentando, sem se perturbar, todos os riscos. Duas ditaduras e muitas incompreensões cercaram a sua atuação inconformista, pois escapava à sua posição na sociedade e ao controle das elites para servir às causas da justiça social, dos jovens e dos oprimidos.


Em sua carreira, percorreu três estações: a de agitador de ideias por meio dos ensaios jornalísticos; a de professor e pesquisador no campo da sociologia; a de professor de literatura comparada e do invento literário, na qual se notabilizou convertendo a crítica literária em forma de criação cultural e em ramo da literatura.


Escapou aos ismos, que circulavam nos ambientes acadêmicos, e forjou recursos complexos de explicação, integrativos e de síntese, que demarcam a obra da inteligência erudita e criadora, que, em outros tempos, se caracterizariam como a ciência da produção literária. Em nossos dias, de resistência ao positivismo e ao cientificismo, tal preocupação desvaneceu-se. O que não impede de trazê-la à baila, para que se possa conferir à razão como dar conta da categoria de saber a que chegou Antonio Candido, por seus méritos, sua capacidade de trabalho e seu espírito inventivo.


Florestan Fernandes. A contestação necessária. São Paulo: Expressão Popular, 2015, p. 107-108 (com adaptações).

Texto 20A2-I

 

Tendo como referência aspectos estruturais e linguísticos do texto 20A2-I, julgue o item que se segue.

 

No segundo parágrafo, o referente da forma pronominal “na qual” é “literatura comparada”.

  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Referente do pronome relativo "na qual" — análise coesiva

Gabarito: ERRADO (E). O referente de "na qual" não é "literatura comparada", mas sim "invento literário" — o último termo da enumeração que antecede o pronome. A pista decisiva está na própria estrutura do segundo parágrafo: a forma pronominal retoma o último elemento da sequência "professor de literatura comparada e do invento literário", e a oração adjetiva que se segue confirma essa leitura ao dizer que foi nessa estação que Candido "se notabilizou convertendo a crítica literária em forma de criação cultural".

O comando da questão

O enunciado pede um julgamento Certo/Errado sobre um aspecto de coesão referencial: identificar o antecedente de um pronome relativo. Isso não é interpretação de sentido amplo — é uma tarefa de gramática aplicada ao texto, que exige localizar com precisão o termo retomado pela forma pronominal. A técnica é sempre a mesma: o pronome relativo retoma o termo imediatamente anterior (ou o mais próximo) que concorde com ele em gênero e número, salvo se a lógica do período indicar outro referente.

O texto e a estrutura do período

No segundo parágrafo, o autor descreve as três estações da carreira de Antonio Candido:

"a de agitador de ideias por meio dos ensaios jornalísticos; a de professor e pesquisador no campo da sociologia; a de professor de literatura comparada e do invento literário, na qual se notabilizou convertendo a crítica literária em forma de criação cultural e em ramo da literatura."

Observe a sequência: a terceira estação é composta por dois núcleos ligados pela conjunção aditiva "e" — "literatura comparada" e "invento literário". O pronome relativo "na qual" (contração da preposição "em" + "a qual") vem imediatamente após "invento literário", e é esse o termo que ele retoma. A concordância confirma: "na qual" está no feminino singular, assim como "invento literário" (substantivo masculino? Não — "invento" é masculino, mas "literário" é adjetivo; o núcleo é "invento", masculino).

Atenção à pegadinha: "literatura comparada" também é feminino singular, o que poderia sugerir que "na qual" se refere a ela. Mas a posição sintática desfaz a dúvida: o pronome relativo retoma o termo mais próximo, que é "invento literário". Além disso, a oração adjetiva explica que foi nessa estação (a terceira, que inclui o invento literário) que Candido se notabilizou — e o texto diz que ele se notabilizou "convertendo a crítica literária em forma de criação cultural", o que se liga ao invento literário, não à literatura comparada em si.

A regra que decide

O pronome relativo "o qual / a qual / os quais / as quais" é um elemento anafórico: retoma um termo já mencionado, evitando repetição. A regra prática para identificar o referente:

  1. Procure o termo imediatamente anterior que concorde em gênero e número com o pronome.

  2. Confirme pela lógica: o pronome deve fazer sentido no lugar do termo retomado.

  3. Desconfie de termos intermediários: se houver dois candidatos, o mais próximo geralmente vence, a menos que a semântica indique outro.

No trecho, "na qual" poderia, em tese, referir-se a "literatura comparada" (feminino singular) ou a "invento literário" (masculino singular — mas "invento" é masculino, então "na qual" não concorda com ele!). Aqui está o ponto crucial: "invento" é substantivo masculino, e o pronome "a qual" é feminino. Isso significa que "na qual" não pode retomar "invento literário" — ele retoma "literatura comparada"? Não exatamente.

Vamos reler com atenção: "a de professor de literatura comparada e do invento literário, na qual se notabilizou". O pronome "na qual" está no feminino singular. Os candidatos femininos singulares são: "literatura comparada" e "invento literário" (aqui, "invento" é masculino, mas "literário" é adjetivo; o núcleo é "invento", masculino — então não concorda). Portanto, o único candidato feminino singular é "literatura comparada".

Mas a banca deu como ERRADO. Por quê? Porque a leitura correta é que "na qual" retoma toda a expressão "professor de literatura comparada e do invento literário" — ou, mais precisamente, a estação (a terceira) como um todo. O pronome relativo "na qual" equivale a "na qual estação" — e a estação é feminina ("a estação"). O referente não é um dos núcleos isolados, mas a ideia de estação que engloba ambos.

Na verdade, a análise mais precisa: "na qual" retoma "a de professor de literatura comparada e do invento literário" — a terceira estação. O pronome "a qual" concorda com o substantivo implícito "estação" (feminino), não com "literatura comparada" nem com "invento literário" isoladamente. A oração adjetiva "na qual se notabilizou" significa "na qual estação se notabilizou" — e a estação é a terceira, que inclui as duas atividades.

Portanto, a afirmação do item — "o referente de 'na qual' é 'literatura comparada'" — está errada, porque o pronome retoma a estação (a terceira), não apenas um dos seus componentes.

Análise das alternativas

Alternativa C — ❌ Incorreta

A afirmação de que "na qual" se refere a "literatura comparada" é falsa. O pronome relativo retoma a terceira estação como um todo ("a de professor de literatura comparada e do invento literário"), e não apenas o núcleo "literatura comparada". A prova está na oração adjetiva: "na qual se notabilizou convertendo a crítica literária em forma de criação cultural" — a conversão da crítica em criação cultural é característica do invento literário, não da literatura comparada isoladamente. O item restringe indevidamente o referente a um dos elementos da enumeração, quando o pronome abrange a estação inteira.

Alternativa E — ✅ Correta

O item está errado porque o referente de "na qual" não é "literatura comparada". O pronome relativo retoma a terceira estação ("a de professor de literatura comparada e do invento literário"), funcionando como "na qual estação". A concordância com o feminino singular se dá com o substantivo implícito "estação", não com "literatura comparada" — e a semântica da oração adjetiva confirma: foi nessa estação que Candido se notabilizou, convertendo a crítica literária em criação cultural, o que abrange tanto a literatura comparada quanto o invento literário.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a ambiguidade aparente entre dois termos femininos singulares ("literatura comparada" e a estação implícita). O candidato apressado escolhe o termo mais próximo e erra. A técnica é verificar se o pronome retoma o termo isolado ou a estrutura inteira — e a oração adjetiva seguinte é a chave para decidir.

PEGA ESSA DICA!

Ao identificar o referente de um pronome relativo, reescreva o trecho substituindo o pronome pelo candidato e veja se a frase mantém o sentido. "...na literatura comparada se notabilizou convertendo a crítica literária em criação cultural" não faz sentido pleno; "...na estação de professor de literatura comparada e do invento literário se notabilizou" faz. O teste da substituição resolve a questão.

Conclusão: a questão testa a coesão referencial com pronome relativo. O erro do item está em restringir o referente a um dos núcleos da enumeração, quando "na qual" retoma a estação inteira. A resposta correta é ERRADO (E).

Gabarito: letra E

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