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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce396405
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
TJ ES
Ano
2023
Cargo
AJ 02 ( )

Estou prestes a sair de casa. Abro o armário. Urge escolher a máscara, das muitas que eu tenho, para ir à rua. Com ela enfrentarei os dissabores e as aventuras do meu cotidiano. Afinal, ela é a ponte que cruzo para alcançar os demais seres.


Minhas máscaras acomodam-se na prateleira, em meio às bolsas. Todas parecidas, elas diferenciam-se entre si apenas em detalhes imperceptíveis aos olhos alheios. São raros aqueles que surpreendem a natureza da minha máscara. Reconhecem que rio, choro ou encontro-me na iminência de velejar para um hemisfério longínquo, de onde, quem sabe, não regresso tão cedo.


Enquanto muitos confessam, em consonância, com triste adágio, que suas vidas são um livro aberto, nada tenho a esconder dos homens, sou justo o contrário, não sei viver sem as máscaras, que me protegem, são a salvaguarda da minha liberdade. E ainda que se provem elas em muitos momentos incapazes de me proteger, não importa. Afinal, a vida não permite previsões, lances antecipados. Para enfrentar certos conflitos, seria necessário revestir-se da máscara de ferro, que traz consigo o sopro da morte.


Duvido que alguém prescinda do uso da máscara. Ande inadvertido pelo mundo, oferecendo o rosto cru dos seus sentimentos. Desajeitado e pobre, quando poderia dispor, a qualquer hora, de mais de mil máscaras, capazes todas de impulsionar o espetáculo humano, de corresponder à natureza do seu dono, de encharcar de vinagre e esperança qualquer coração.


As máscaras, sem dúvida, ajudam-me a viver. Levam-me às cerimônias solenes, onde confirmo educação recebida. Acompanham-me nos momentos em que sangro, a despeito da minha aparente indiferença. E são elas ainda que me perguntam qual das máscaras usar em determinada festa. Acaso a máscara que engendrei ao longo dos anos, e que me serve como um chinelo velho? Aquela que é dissimulada, cujo desassombro assusta-me, pois revela aos vizinhos o que eu mantinha sob resguardo? Ou a outra, que aspira sobrepor-se à tirania das convenções, quer rasgar o véu da hipocrisia, emitir as palavras acomodadas no baú dos enigmas? Será a máscara que alardeia arrogância, ansiosa por deixar consignada nas paredes do mundo uma única mensagem que justifique sua existência?


Olho-me ao espelho. Estarei usando máscara mesmo quando estou sozinha? Acaso já não vivo sem ela, só respiro por meio de artifícios? É ela que me deixa ser alada e terrestre, me permite voar e contornar seres e objetos de cristal? É a máscara que pousa desajeitada no meu próprio rosto, onde há de ficar para sempre, até derreter um dia como se fora feita de cera?


Nélida Piñon. A máscara do meu rosto. In: O Estado de São Paulo, Suplemento Feminino, 29/9/1997.

Texto 20A2-II

 

Julgue o próximo item, referente a aspectos gramaticais e de estilo do texto 20A2-II.

 

As subsequentes sentenças interrogativas a partir do quinto período do penúltimo parágrafo ressaltam, estilisticamente, a assertividade da autora quanto ao tema do relacionamento de si com os outros mediado pelas máscaras.

  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Assertividade da autora nas perguntas sobre as máscaras

Gabarito: ERRADO (E). As sentenças interrogativas do penúltimo parágrafo não ressaltam a assertividade da autora; pelo contrário, elas expressam dúvida e questionamento sobre a própria relação com as máscaras. A pista decisiva está no verbo "Acaso" e na estrutura das perguntas, que indicam incerteza, não afirmação categórica.

O comando

A questão pede um julgamento sobre o efeito estilístico das perguntas: se elas "ressaltam a assertividade" da autora. Assertividade é a qualidade de quem afirma com segurança, sem hesitação. Para resolver, é preciso observar o que as perguntas fazem no texto: se confirmam uma posição firme ou se revelam dúvida.

O texto

O penúltimo parágrafo é o momento em que a autora, diante do espelho, questiona a própria identidade e a necessidade das máscaras. As perguntas não são retóricas no sentido de reafirmar uma convicção; elas são indagações genuínas sobre a possibilidade de viver sem as máscaras.

A técnica que decide

A palavra "Acaso" é o sinal mais forte: ela introduz uma pergunta que expressa dúvida, possibilidade, não certeza. Além disso, as perguntas são formuladas com alternativas ("Será a máscara que...? Ou a outra...?"), o que reforça a hesitação entre opções, e não uma posição assertiva. O efeito estilístico é de introspecção e incerteza, não de afirmação categórica.

"Acaso já não vivo sem ela, só respiro por meio de artifícios?"

A pergunta com "Acaso" não afirma "vivo sem ela"; ela indaga se isso é possível. O mesmo ocorre em "Estarei usando máscara mesmo quando estou sozinha?" — a autora não afirma, ela duvida. Portanto, o item está errado.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A afirmativa de que as perguntas "ressaltam a assertividade" é falsa. O texto não apresenta a autora como assertiva; ao contrário, as perguntas revelam dúvida e questionamento sobre a própria relação com as máscaras. A palavra "Acaso" e a estrutura de alternativas indicam hesitação, não afirmação categórica. O item contradiz o efeito estilístico real do trecho.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

O item está errado porque as perguntas do penúltimo parágrafo expressam dúvida, não assertividade. A autora questiona se vive sem as máscaras, se as usa mesmo sozinha, qual máscara usar — todas indagações que revelam incerteza e introspecção, não uma posição firme e segura. O efeito estilístico é de questionamento, não de afirmação.

PEGA ESSA DICA!

Desconfie de palavras como "assertividade" em questões de estilo. Perguntas com "Acaso", "Será que" ou alternativas ("ou... ou...") indicam dúvida, não afirmação. Grife os verbos e os marcadores de modalização antes de julgar o efeito.

Gabarito: letra E (ERRADO).

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