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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce396483
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
Pref Fortaleza
Ano
2023
Cargo
ATM ( )

Responsabilidade fiscal combina com responsabilidade social?


Quando analistas do mercado financeiro e economistas ditos “ortodoxos” referem-se à necessidade de haver responsabilidade fiscal, parece, à primeira vista, que estão se referindo à necessidade de o Estado não realizar gastos (ou abrir mão de receitas públicas) de modo descontrolado, eleitoreiro e ineficiente, aumentando aceleradamente a dívida pública (em proporção do PIB) sem um planejamento econômico- orçamentário de médio e longo prazo. Se fosse somente isso, se fossem somente essas as suas preocupações, não haveria muita polêmica, visto que os políticos e os economistas que questionam a visão do mercado financeiro também concordam com esses parâmetros para qualificar a responsabilidade fiscal.


O problema está em alguns diagnósticos e causalidades evocados pelos economistas porta-vozes do mercado financeiro, que podemos sintetizar em duas ideias centrais.


A primeira ideia central é a de que a economia brasileira apresentaria historicamente um sério “risco fiscal”, suficiente para tirar o sono daqueles que compram títulos da dívida pública. Exatamente por esse grave risco fiscal, argumenta o economista ortodoxo, é que haveria a necessidade de o Banco Central manter a taxa de juros reais nas alturas, colocando o Brasil quase sempre na posição de país com a maior taxa de juros reais no mundo. Os maiores juros reais do mundo seriam uma espécie de prêmio exigido de modo justo e justificado pelos “investidores” que emprestam seus recursos ao governo: maior risco, maior incerteza, maior prêmio — uma simples e sadia “lei do mercado”.


A segunda ideia central é a de que a inflação decorreria de um excesso de demanda na economia. Não adianta apresentar dados objetivos indicando que, em muitos casos, a inflação é gerada por choques de oferta que nada têm a ver com excesso de demanda. A partir desse diagnóstico imutável (e imune aos fatos) de que a inflação — ou o risco de inflação — seria sempre um problema de excesso de demanda, os porta-vozes do mercado estão sempre cobrando do governo que colabore para a redução da demanda e modere seus gastos (exceto o gasto com os juros da dívida pública), e estão sempre cobrando do Banco Central que aumente a taxa básica de juros diante de qualquer tipo de sinal de pressão inflacionária, pois o aumento dos juros causa refluxo da demanda — demissões, queda nos investimentos — e esse refluxo da demanda combateria eficazmente a inflação.


Podemos agora formular com precisão: o mercado financeiro não vê antagonismo entre responsabilidade fiscal e responsabilidade social porque, em sua visão, a primeira é sempre uma pré- condição para a segunda. Como o mercado financeiro sempre vê um risco fiscal significativo na economia brasileira, nunca estará satisfeito com o nível de responsabilidade fiscal demonstrado pelo governo, nunca achará que já estamos em condições de avançar com segurança nas tarefas sociais e sempre tachará de “populista” ou “demagógica” qualquer alternativa que signifique abandonar esse beco sem saída ao qual o país foi condenado nas últimas décadas.


Internet: <anima.pucminas.br> (com adaptações).

Texto CG1A1-I

 

Considerando as informações veiculadas no texto CG1A1-I e a argumentação desenvolvida por seu autor, julgue o item a seguir.

 

De acordo com os sentidos suscitados pelo texto, os “economistas ‘ortodoxos’” e os “economistas porta-vozes do mercado financeiro” possuem perspectivas semelhantes a respeito da economia brasileira.

  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Certo

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Interpretação de Texto: a identificação das vozes do discurso

Gabarito: CERTO (C). A afirmação está correta porque o texto trata "economistas 'ortodoxos'" e "economistas porta-vozes do mercado financeiro" como a mesma voz discursiva — o autor os apresenta como sinônimos ao longo de toda a argumentação. A passagem que ancora essa leitura está no 2º parágrafo, quando o autor diz que "o problema está em alguns diagnósticos e causalidades evocados pelos economistas porta-vozes do mercado financeiro", referindo-se exatamente aos "economistas ditos 'ortodoxos'" mencionados no 1º parágrafo. Não há, em nenhum momento, uma distinção ou oposição entre esses dois grupos: eles compartilham as mesmas duas ideias centrais (o risco fiscal e a inflação por excesso de demanda) e a mesma conclusão de que a responsabilidade fiscal é pré-condição para a social.

O comando: compreensão, não inferência

O enunciado pede que se julgue o item "de acordo com os sentidos suscitados pelo texto" — ou seja, trata-se de uma questão de compreensão (localizar e reconhecer uma informação que está explícita na argumentação), não de inferência. Isso significa que a resposta deve ser encontrada diretamente no que o autor escreveu, sem deduções ou acréscimos de conhecimento de mundo. A tarefa é verificar se o texto sustenta a equivalência entre as duas expressões.

O texto: uma única voz, dois rótulos

O texto é dissertativo-argumentativo e tem como tese a crítica à visão do mercado financeiro sobre responsabilidade fiscal. O autor constrói sua argumentação apresentando, primeiro, a definição comum de responsabilidade fiscal (1º parágrafo) e, depois, as duas ideias centrais defendidas pelos economistas que ele critica (2º ao 4º parágrafo).

O ponto-chave para esta questão está na coesão referencial: o autor usa expressões diferentes para se referir ao mesmo grupo. Veja a progressão:

  • 1º parágrafo: "analistas do mercado financeiro e economistas ditos 'ortodoxos'"

  • 2º parágrafo: "economistas porta-vozes do mercado financeiro"

  • 3º parágrafo: "o economista ortodoxo"

  • 4º parágrafo: "os porta-vozes do mercado"

Todas essas expressões retomam o mesmo referente. O autor não estabelece nenhuma distinção entre "ortodoxos" e "porta-vozes do mercado" — pelo contrário, ele os trata como um grupo único que compartilha os mesmos diagnósticos e as mesmas conclusões.

A técnica: rastrear o referente

A técnica para resolver esta questão é rastrear o referente das expressões nominais. Quando o texto usa "economistas porta-vozes do mercado financeiro" no 2º parágrafo, a que grupo ele se refere? A resposta está na retomada anafórica: o autor acabou de falar dos "economistas ditos 'ortodoxos'" no parágrafo anterior. A expressão "porta-vozes do mercado financeiro" é uma reformulação (sinonímia textual) daquela primeira expressão, não a introdução de um novo grupo.

A prova textual mais forte está no 5º parágrafo, quando o autor sintetiza a posição do grupo:

"o mercado financeiro não vê antagonismo entre responsabilidade fiscal e responsabilidade social porque, em sua visão, a primeira é sempre uma pré-condição para a segunda"

Aqui, "o mercado financeiro" é usado como sujeito coletivo que engloba tanto os "ortodoxos" quanto os "porta-vozes" — todos defendem a mesma tese. Se houvesse perspectivas diferentes entre os dois grupos, o autor teria que marcar essa distinção com conectivos de oposição ("porém", "contudo", "enquanto"), o que não ocorre em nenhum trecho.

  1. 11º §: analistas e ortodoxos
  2. 22º §: porta-vozes do mercado
  3. 33º §: economista ortodoxo
  4. 44º §: porta-vozes do mercado
  5. 55º §: o mercado financeiro
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Alternativa C — ✅ CERTOGABARITO

A afirmação está correta. O texto apresenta os "economistas 'ortodoxos'" e os "economistas porta-vozes do mercado financeiro" como a mesma categoria de agentes, que compartilham as mesmas duas ideias centrais:

"O problema está em alguns diagnósticos e causalidades evocados pelos economistas porta-vozes do mercado financeiro, que podemos sintetizar em duas ideias centrais."

Essas duas ideias (o risco fiscal e a inflação por excesso de demanda) são atribuídas ao mesmo grupo que, no 1º parágrafo, foi chamado de "economistas ditos 'ortodoxos'". A equivalência é reforçada no 3º parágrafo, quando o autor usa "argumenta o economista ortodoxo" para se referir à primeira ideia, e no 4º parágrafo, quando usa "os porta-vozes do mercado" para a segunda. Não há nenhuma passagem que os distinga ou os oponha.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa E afirma que os dois grupos possuem perspectivas diferentes a respeito da economia brasileira. Isso contradiz o texto: o autor os trata como sinônimos, atribuindo-lhes exatamente as mesmas posições. Se houvesse diferença, o texto precisaria marcá-la — por exemplo, dizendo que os "ortodoxos" defendem X enquanto os "porta-vozes" defendem Y. Em vez disso, o autor usa as expressões de forma intercambiável, sem qualquer ressalva. A alternativa E, portanto, contradiz o texto ao introduzir uma distinção que não existe na argumentação.

NÃO CAIA NESSA!

A banca tenta fazer o candidato acreditar que "ortodoxos" e "porta-vozes do mercado" são grupos distintos, quando o texto os apresenta como a mesma voz. A armadilha é trocar o referente: o candidato que não rastreia a cadeia coesiva pode achar que são dois grupos diferentes e marcar E.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de compreensão, grife as expressões que se referem ao mesmo agente. Se o texto usa rótulos diferentes para o mesmo grupo, a resposta que os separa está errada.

Conclusão: a questão se resolve pelo rastreamento da cadeia referencial: "economistas 'ortodoxos'" e "economistas porta-vozes do mercado financeiro" são a mesma voz no texto, com as mesmas ideias. Como a banca pediu para julgar a afirmação, e ela está correta, o gabarito é C (CERTO).

Gabarito: letra C (CERTO).

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