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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce396497
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
Pref Recife
Ano
2023
Cargo
Prof II( )

O AMOR BATE NA AORTA


Cantiga do amor sem eira
nem beira,
vira o mundo de cabeça
para baixo,
suspende a saia das mulheres,
tira os óculos dos homens,
o amor, seja como for,
é o amor.


Meu bem, não chores,
hoje tem filme de Carlito!


O amor bate na porta,
o amor bate na aorta,
fui abrir e me constipei.
Cardíaco e melancólico,
o amor ronca na horta
entre pés de laranjeira
entre uvas meio verdes
e desejos já maduros.


Entre uvas meio verdes,
meu amor, não te atormentes.
Certos ácidos adoçam
a boca murcha dos velhos
e quando os dentes não mordem
e quando os braços não prendem
o amor faz uma cócega
o amor desenha uma curva
propõe uma geometria.


Amor é bicho instruído.


Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que escorre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.


Daqui estou vendo o amor
irritado, desapontado,
mas também vejo outras coisas:
vejo corpos, vejo almas
vejo beijos que se beijam
ouço mãos que se conversam
e que viajam sem mapa.
Vejo muitas outras coisas
que não ouso compreender…


Carlos Drummond de Andrade,

Poesia Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2006, p. 46-48 (com adaptações).

Texto 8A3

 

Considerando as ideias e os sentidos do texto 8A3, julgue o item a seguir.

 

A expressão “sem eira, nem beira” (primeira estrofe), que geralmente faz referência à ausência de recursos materiais, tem seu sentido ampliado para contemplar o sentimento de desamparo vinculado à desordem provocada pelo amor.

  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Certo

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

O sentido ampliado de “sem eira, nem beira” no poema de Drummond

Gabarito: CERTO (C). A expressão “sem eira, nem beira” tem seu sentido ampliado no texto: deixa de referir-se apenas à ausência de recursos materiais e passa a contemplar o sentimento de desamparo ligado à desordem provocada pelo amor. Isso se prova na primeira estrofe, quando o eu lírico associa a expressão ao amor que “vira o mundo de cabeça para baixo”, e se confirma ao longo do poema com imagens de descontrole e vulnerabilidade, como “o amor pulou o muro / o amor subiu na árvore / em tempo de se estrepar”.

O comando pede que se julgue uma afirmação sobre as ideias e os sentidos do texto — tarefa típica de compreensão/interpretação. Não se trata de localizar uma informação literal, mas de verificar se a leitura proposta pela assertiva é sustentada pelo texto. A banca afirma que a expressão, embora costumeiramente ligada à falta de recursos materiais, ganha no poema um sentido mais amplo, relacionado ao desamparo causado pela desordem amorosa. Para julgar, é preciso observar como a expressão é usada no contexto e que imagens a cercam.

O poema de Drummond constrói uma visão do amor como força desordenadora e desestabilizadora. Na primeira estrofe, o amor é descrito como algo que “vira o mundo de cabeça para baixo”, “suspende a saia das mulheres” e “tira os óculos dos homens” — ações que subvertem a ordem e o equilíbrio. É exatamente nesse contexto que surge a expressão “Cantiga do amor sem eira nem beira”. A expressão, que originalmente designa algo sem base, sem sustentação (como uma casa sem eira e sem beira, ou seja, sem recursos), aqui se conecta à ideia de um amor que desampara, que deixa o sujeito sem chão, sem apoio. Essa leitura é reforçada por versos como “o amor bate na porta, / o amor bate na aorta, / fui abrir e me constipei” — o amor invade e desorganiza — e pela imagem do amor que “pulou o muro”, “subiu na árvore” e “se estrepou”, evidenciando a vulnerabilidade e o desamparo.

A técnica que decide a questão é a análise do contexto imediato da expressão. Não se pode interpretar “sem eira, nem beira” isoladamente, com seu sentido dicionarizado; é preciso ver como o poeta a emprega. Drummond a coloca em um contexto de desordem e desamparo amoroso, o que autoriza a ampliação de sentido proposta pela assertiva. A banca não extrapola: ela apenas explicita o que o texto já sugere pela vizinhança das imagens.

NÃO CAIA NESSA!

A banca poderia tentar induzir o candidato a marcar ERRADO, argumentando que “sem eira, nem beira” significa apenas “sem recursos materiais”. Mas o texto amplia esse sentido ao colocá-la em um contexto de desordem amorosa. Quem fica preso ao sentido literal da expressão erra a questão.

PEGA ESSA DICA!

Ao julgar itens sobre “sentido de expressões”, volte sempre ao contexto imediato — as palavras e imagens que cercam a expressão. O sentido literal é o ponto de partida, mas o contexto pode ampliá-lo, restringi-lo ou mesmo invertê-lo.

Item — ✅ CERTO

A afirmação está correta e é plenamente sustentada pelo texto. Vejamos a prova:

“Cantiga do amor sem eira nem beira, / vira o mundo de cabeça para baixo, / suspende a saia das mulheres, / tira os óculos dos homens”

A expressão “sem eira, nem beira” aparece imediatamente associada a um amor que “vira o mundo de cabeça para baixo” — ou seja, que desorganiza, que tira o chão, que desampara. Essa associação é a chave: o sentido de “sem eira, nem beira” (sem base, sem sustentação) é transferido do plano material para o plano afetivo. O amor descrito não é apenas pobre de recursos; é um amor que desestabiliza, que deixa o sujeito sem apoio, sem rumo.

Essa leitura é reforçada ao longo do poema por outras imagens de desamparo e desordem:

“o amor bate na porta, / o amor bate na aorta, / fui abrir e me constipei.”

O amor invade o corpo e causa um “resfriado” — uma perturbação física e emocional. E mais adiante:

“Olha: o amor pulou o muro / o amor subiu na árvore / em tempo de se estrepar. / Pronto, o amor se estrepou.”

O amor que “pula o muro” e “sobe na árvore” para “se estrepar” é um amor imprudente, vulnerável, que se machuca — imagem clara de desamparo. A ferida que “às vezes não sara nunca” reforça a dimensão do sofrimento e da falta de proteção.

Portanto, a assertiva está correta: a expressão “sem eira, nem beira”, que usualmente remete à ausência de recursos materiais, tem seu sentido ampliado no poema para contemplar o sentimento de desamparo vinculado à desordem provocada pelo amor. O texto autoriza integralmente essa leitura.

Conclusão: a questão se resolve pela análise do contexto imediato da expressão. O sentido literal (“sem recursos”) é o ponto de partida, mas o poeta o amplia ao associá-lo a um amor que “vira o mundo de cabeça para baixo” e que “se estrepa”. A banca não extrapolou; apenas explicitou o que o texto sugere. Gabarito: CERTO (C).

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