Questão de Português — Figuras de Linguagem — CESPE / CEBRASPE 2023
Português›Figuras de Linguagem
Código
ce396503
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
Pref Recife
Ano
2023
Cargo
Prof II( )
O AMOR BATE NA AORTA
Cantiga do amor sem eira
nem beira,
vira o mundo de cabeça
para baixo,
suspende a saia das mulheres,
tira os óculos dos homens,
o amor, seja como for,
é o amor.
Meu bem, não chores,
hoje tem filme de Carlito!
O amor bate na porta,
o amor bate na aorta,
fui abrir e me constipei.
Cardíaco e melancólico,
o amor ronca na horta
entre pés de laranjeira
entre uvas meio verdes
e desejos já maduros.
Entre uvas meio verdes,
meu amor, não te atormentes.
Certos ácidos adoçam
a boca murcha dos velhos
e quando os dentes não mordem
e quando os braços não prendem
o amor faz uma cócega
o amor desenha uma curva
propõe uma geometria.
Amor é bicho instruído.
Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que escorre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.
Daqui estou vendo o amor
irritado, desapontado,
mas também vejo outras coisas:
vejo corpos, vejo almas
vejo beijos que se beijam
ouço mãos que se conversam
e que viajam sem mapa.
Vejo muitas outras coisas
que não ouso compreender…
Carlos Drummond de Andrade,
Poesia Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2006, p. 46-48 (com adaptações).
Texto 8A3
Julgue o seguinte item, relativo a figuras de linguagem no texto 8A3.
A expressão “desejos já maduros” (terceira estrofe) é exemplo de comparação, figura de linguagem que traça um paralelo entre o termo denotado e o termo conotado, nesse caso, entre desejos e frutos.
CCerto
EErrado
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GabaritoE — Errado
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A expressão “desejos já maduros” e a figura de linguagem
Gabarito: ERRADO (E). A expressão “desejos já maduros” não é exemplo de comparação, mas de metáfora. A comparação (ou símile) exige um conectivo comparativo explícito (como, tal qual, assim como, que nem), que não aparece no trecho. O que ocorre é uma transferência de sentido — atribui-se aos desejos a qualidade de “maduros”, própria dos frutos, sem qualquer termo de comparação. Como se lê na terceira estrofe:
“entre uvas meio verdes / e desejos já maduros.”
Aqui, “desejos” são apresentados como se fossem frutos — maduros, prontos para serem colhidos —, numa comparação implícita, característica da metáfora, e não da comparação.
O comando da questão
O item pede que se julgue a afirmação sobre a figura de linguagem presente em “desejos já maduros”. Trata-se de uma questão de conceito (figuras de linguagem) aplicado ao texto. O verbo “julgar” indica que devemos verificar se a classificação apresentada está correta ou não, com base na definição técnica de cada figura.
O texto e a passagem relevante
O poema de Drummond explora o amor em suas múltiplas facetas, usando uma linguagem conotativa (figurada). Na terceira estrofe, o eu lírico aproxima o amor e os desejos do universo dos frutos:
“o amor ronca na horta / entre pés de laranjeira / entre uvas meio verdes / e desejos já maduros.”
A expressão “desejos já maduros” está em paralelismo com “uvas meio verdes”. As uvas são frutos; os desejos, não. Ao dizer que os desejos estão “maduros”, o poeta transfere para eles uma propriedade dos frutos. Essa transferência é o cerne da metáfora.
A técnica que decide: comparação × metáfora
A comparação (ou símile) é uma figura de linguagem que estabelece um paralelo explícito entre dois elementos, usando conectivos comparativos como “como”, “tal qual”, “assim como”, “que nem”. Exemplo: “Seus olhos brilham como estrelas.”
A metáfora, por sua vez, é uma comparação implícita, sem conectivo. Ela ocorre quando um termo é empregado fora do seu sentido básico, recebendo nova significação por uma associação entre seres de universos distintos. Exemplo: “Seus olhos são estrelas.”
No trecho do poema, não há conectivo comparativo. “Desejos” e “frutos” não são ligados por “como” ou “tal qual”. A aproximação é feita diretamente, pela atribuição da qualidade “maduros” aos desejos. Portanto, temos uma metáfora, e não uma comparação.
Critério
Comparação (Símile)
Metáfora
Conectivo
Presente (como, tal qual, assim como)
Ausente
Relação
Explícita
Implícita
Exemplo
“Olhos como estrelas”
“Olhos são estrelas”
No texto
Não há conectivo
“desejos já maduros”
Análise do item
Item — ❌ Errado ⟵ GABARITO
A afirmação de que “desejos já maduros” é exemplo de comparação está incorreta. A definição dada no item — “figura de linguagem que traça um paralelo entre o termo denotado e o termo conotado” — é vaga e poderia se aplicar a várias figuras, mas a ausência de conectivo comparativo é decisiva. O que ocorre é uma metáfora: os desejos são apresentados como frutos maduros, numa transferência de sentido sem termo de comparação explícito.
NÃO CAIA NESSA!
A banca tenta confundir o candidato ao rotular de “comparação” o que é, na verdade, uma metáfora. A ausência do conectivo “como” é a pista que desfaz a armadilha.
PEGA ESSA DICA!
Ao identificar figuras de linguagem, pergunte-se: há conectivo comparativo (como, tal qual)? Se sim, é comparação; se não, é metáfora (ou outra figura). Essa distinção é clássica em provas.
Conclusão: a expressão “desejos já maduros” é metáfora, pois estabelece uma comparação implícita entre desejos e frutos, sem o uso de conectivo. A afirmação do item está errada.