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Questão de Português — Vocábulo "Que" — CESPE / CEBRASPE 2023

PortuguêsVocábulo "Que"
Código
ce396518
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
PM SC
Ano
2023
Cargo
Of ( )

Texto 1A9-I

A situação carcerária é uma das questões mais complexas da realidade social brasileira. O retrato das prisões no Brasil desafia o sistema de justiça penal, a política criminal e a política de segurança pública. O equacionamento de seus problemas exige, necessariamente, o envolvimento dos três Poderes da República, em todos os níveis da Federação, além de se relacionar diretamente com o que a sociedade espera do Estado como agente de pacificação social.

Diante dessa complexidade, parece acertado descartar qualquer solução que se apresente como uma panaceia, seja no âmbito legislativo, seja no administrativo, seja no judicial. No entanto, isso não significa que nada possa ser feito. Ao contrário, a magnitude do problema exige que os operadores jurídicos, os gestores públicos e os legisladores intensifiquem seus esforços na busca conjunta de soluções e estratégias inteligentes, e não reducionistas, aptas a nos conduzir à construção de horizontes mais alentadores.

Os problemas do sistema penitenciário que se concretizam em nosso país devem nos conduzir a profundas reflexões, sobretudo em uma conjuntura em que o perfil das pessoas presas é majoritariamente de jovens negros, de baixa escolaridade e de baixa renda. Além da necessidade de construção de vagas para o sistema prisional, é preciso analisar a “qualidade” das prisões efetuadas e o perfil das pessoas que têm sido encarceradas, para que seja possível problematizar a “porta de entrada” e as práticas de gestão dos serviços penais, desde a baixa aplicação de medidas cautelares e de alternativas penais até a organização das diversas rotinas do cotidiano das unidades prisionais.

A necessária busca por alternativas penais tão ou mais eficazes que o encarceramento é um desafio de alta complexidade que depende de estreita articulação entre os órgãos do sistema de justiça criminal. Nesse sentido, têm sido extremamente interessantes os resultados da implantação das audiências de custódia, objeto de acordo de cooperação entre o Ministério da Justiça e o Conselho Nacional de Justiça, que consistem na garantia da rápida apresentação da pessoa presa a um juiz no caso de prisão em flagrante. Na audiência, são ouvidas as manifestações do Ministério Público, da Defensoria Pública ou do advogado da pessoa presa. Além de analisar a legalidade e a necessidade da prisão, o juiz pode verificar eventuais ocorrências de tortura ou de maus-tratos.

A humanização das condições carcerárias depende da promoção de um modelo intersetorial de políticas públicas de saúde, de educação, de trabalho, de cultura, de esporte, de assistência social e de acesso à justiça. Para que esses serviços alcancem as pessoas que se encontram nos presídios brasileiros, as políticas devem ser implementadas pelos gestores estaduais especializados nas diferentes temáticas sociais governamentais. Já se sabe que é inadequado o modelo de “instituição total”, que desafia unicamente o gestor prisional a improvisar arranjos de serviços para o ambiente intramuros, de forma frágil e desconectada das políticas sociais do Estado. Esse passo parece ser decisivo para reconhecermos, de fato, a pessoa privada de liberdade e o egresso como sujeitos de direitos.

Tatiana W. de Moura e Natália C. T. Ribeiro. Levantamento nacional de informações penitenciárias (INFOPEN). Ministério da Justiça, 2014 (com adaptações).

 

A respeito do trecho “Diante dessa complexidade, parece acertado descartar qualquer solução que se apresente como uma panaceia”, no início do segundo parágrafo do texto 1A9-I, é correto afirmar que

  1. Ao vocábulo “que” faz referência ao termo “complexidade”.
  2. Ba oração introduzida pelo vocábulo “que” explica o termo “solução”.
  3. Ca oração introduzida pelo vocábulo “que” restringe o sentido da expressão “qualquer solução”.
  4. Da oração introduzida pelo vocábulo “que” poderia ser substituída por apresentada por uma panaceia, sem prejuízo da correção gramatical e do sentido original do texto.
  5. Eo vocábulo “que” introduz uma oração que funciona como complemento de “parece”.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — a oração introduzida pelo vocábulo “que” restringe o sentido da expressão “qualquer solução”.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Função do "que" em "qualquer solução que se apresente como uma panaceia"

Gabarito: letra C. O vocábulo "que" é pronome relativo e introduz uma oração adjetiva restritiva, que restringe o sentido da expressão "qualquer solução": não se trata de descartar toda e qualquer solução, mas apenas aquelas que se apresentam como panaceia. A prova está no próprio trecho: "descartar qualquer solução que se apresente como uma panaceia" — a oração delimita o conjunto de soluções a serem descartadas.

O comando

A questão pede que você analise a função sintática e semântica do vocábulo "que" em um trecho específico. Não é uma questão de compreensão global do texto, mas de gramática aplicada ao contexto: identificar se o "que" é pronome relativo, conjunção integrante, etc., e qual efeito de sentido a oração que ele introduz produz. O comando "é correto afirmar que" indica que apenas uma alternativa está plenamente correta.

O texto e o trecho

O texto discute a complexidade do sistema carcerário brasileiro. No segundo parágrafo, o autor afirma que, diante dessa complexidade, é acertado descartar soluções que se apresentem como panaceia — ou seja, soluções milagrosas e simplistas. O trecho em análise é:

"Diante dessa complexidade, parece acertado descartar qualquer solução que se apresente como uma panaceia"

Aqui, "que" retoma "solução" e introduz uma informação que restringe o alcance do termo "qualquer solução". Sem a oração, "qualquer solução" teria sentido genérico e absoluto; com ela, o autor delimita: não se descarta qualquer solução, mas apenas as que se apresentam como panaceia. Essa é a essência da oração adjetiva restritiva.

A técnica que decide

Para resolver, siga dois passos:

  1. Identifique a classe do "que": se ele retoma um termo anterior (antecedente) e pode ser substituído por "o qual/a qual", é pronome relativo. Aqui, "que" retoma "solução" e equivale a "a qual".

  2. Verifique o efeito de sentido: se a oração delimita o antecedente, é restritiva; se apenas explica algo já conhecido, é explicativa (e viria entre vírgulas). No trecho, não há vírgula antes do "que", e a oração é indispensável para saber quais soluções devem ser descartadas — logo, restritiva.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre oração restritiva e explicativa. A restritiva restringe o sentido do antecedente; a explicativa apenas acrescenta uma informação, geralmente entre vírgulas. Aqui, sem a oração, o sentido de "qualquer solução" mudaria completamente — por isso é restritiva.

PEGA ESSA DICA!

Ao encontrar um "que" após um substantivo, teste: dá para trocar por "o qual/a qual"? Se sim, é pronome relativo. Depois, pergunte: a oração é essencial para identificar o termo? Se sim, é restritiva.

Alternativa A — ❌ Incorreta

O vocábulo "que" não faz referência ao termo "complexidade". Ele retoma "solução", como se vê na substituição: "qualquer solução a qual se apresente como uma panaceia". A alternativa troca o referente — erro clássico de troca de conceito.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A oração introduzida pelo "que" não explica o termo "solução"; ela o restringe. Explicar seria dizer algo como "a solução, que é complexa, deve ser analisada" — com vírgula e sentido de acréscimo. Aqui, a oração delimita quais soluções descartar. A alternativa confunde restrição com explicação.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A oração introduzida pelo "que" restringe o sentido da expressão "qualquer solução". O trecho "que se apresente como uma panaceia" delimita o conjunto: não se descarta toda solução, mas apenas as que se apresentam como panaceia. Sem a oração, "qualquer solução" teria sentido absoluto e genérico. A restrição é a função típica da oração adjetiva restritiva.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A substituição por "apresentada por uma panaceia" altera o sentido e a estrutura. "Que se apresente como uma panaceia" significa "que se mostre como uma panaceia" (a solução é comparada a uma panaceia). "Apresentada por uma panaceia" daria a entender que a panaceia apresenta a solução — relação agente/paciente invertida. Além disso, a troca quebra a correção gramatical, pois "apresentada" exigiria reestruturação da frase. A alternativa extrapola ao propor uma reescritura que não preserva o sentido.

Alternativa E — ❌ Incorreta

O vocábulo "que" não introduz oração que funcione como complemento de "parece". O complemento de "parece" é a oração "acertado descartar qualquer solução..." (sujeito oracional). O "que" inicia uma oração adjetiva que modifica "solução". A alternativa confunde a função sintática do "que" com a da oração principal.

Conclusão: a única alternativa inteiramente sustentada pelo texto é a letra C, pois o "que" é pronome relativo e a oração que ele introduz restringe o sentido de "qualquer solução". As demais ou trocam o referente, ou confundem restrição com explicação, ou propõem reescritura que altera o sentido.

Gabarito: letra C

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