Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2023
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce396525
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
EMPREL
Ano
2023
Cargo
Ana Sist ( )
É perigoso nos distrairmos com uma fantasia utópica ou apocalíptica possibilitada pela inteligência artificial (IA), que promete ou um futuro “florescente” ou um futuro “potencialmente catastrófico”. Essa ilusão, que infla as capacidades dos sistemas automatizados e os antropomorfiza, induz as pessoas a pensar que existe um ser senciente por trás das mídias sintéticas. Isso seduz as pessoas a não apenas confiarem acriticamente em sistemas como o ChatGPT, mas também a lhes atribuírem erroneamente a capacidade de agir. A responsabilização propriamente dita não cabe aos artefatos tecnológicos, mas a seus construtores.
O que precisamos é de regulamentação que imponha transparência a essa tecnologia digital. Isso deve ficar sempre claro quando nos deparamos com mídias sintéticas, e as organizações que constroem esses sistemas também deveriam ser obrigadas a documentar e a divulgar os dados de treinamento e as arquiteturas de modelo. Além disso, o ônus de criar instrumentos seguros de uso dessas tecnologias deveria recair sobre as empresas que constroem e implantam sistemas generativos, o que significa que os construtores desses sistemas deveriam ser responsabilizados pelos resultados produzidos por seus produtos.
A corrida atual rumo a “experimentos de IA” cada vez maiores não é um caminho predeterminado no qual a nossa única escolha é o quão rápido devemos correr, mas uma série de decisões impulsionadas pelo lucro. As ações e as escolhas das corporações devem ser moldadas por regulamentação que proteja os direitos e os interesses das pessoas. O foco da nossa preocupação não deveriam ser as “poderosas mentes digitais” imaginárias. Em vez disso, deveríamos focar nas práticas de exploração muito reais e muito presentes das empresas que afirmam construí-las.
Timnit Gebru et al. Papagaios estocásticos: o pedido de moratória para a IA e os riscos em jogo. Internet: <ihu.unisinos.br> (com adaptações).
Texto
Com base nos sentidos do texto, julgue os itens a seguir.
I Entende-se do texto que a ilusão que antropomorfiza a IA e transforma a corrida rumo a seu desenvolvimento em um destino inescapável beneficia as corporações que lucram com a IA.
II No segundo parágrafo, a afirmação de que a garantia de segurança no uso da tecnologia digital deveria recair sobre as empresas é uma proposta que responde à demanda por transparência.
III No terceiro parágrafo, identifica-se uma contraposição entre os interesses das corporações e os das pessoas comuns.
Assinale a opção correta.
ANenhum item está certo.
BApenas os itens I e II estão certos.
CApenas os itens I e III estão certos.
DApenas os itens II e III estão certos.
ETodos os itens estão certos.
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GabaritoC — Apenas os itens I e III estão certos.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Compreensão e inferência no texto sobre inteligência artificial
Gabarito: letra C. Os itens I e III estão corretos; o item II está incorreto. O item I é uma inferência legítima: o texto afirma que a ilusão que antropomorfiza a IA "induz as pessoas a... confiarem acriticamente" e que a corrida rumo a experimentos de IA é "uma série de decisões impulsionadas pelo lucro", o que permite concluir que essa ilusão beneficia as corporações. O item III é uma contraposição explícita: o texto opõe "os direitos e os interesses das pessoas" às "práticas de exploração... das empresas". O item II falha porque inverte a relação: o texto apresenta a segurança como uma exigência adicional, não como resposta à demanda por transparência.
O comando: julgar itens com base nos sentidos do texto
A questão pede que se julgue cada item de acordo com os sentidos do texto. Isso significa que cada afirmação deve ser ancorada no texto, seja por estar explícita (compreensão) ou por ser uma inferência legítima (dedução com pista textual). Não se pode aceitar uma afirmação que extrapole o que o texto autoriza, nem rejeitar uma que seja uma paráfrase fiel. O comando "entende-se do texto" no item I já sinaliza que ali se espera uma inferência — algo que não está literal, mas que o texto obriga a concluir.
O texto: tese e movimento argumentativo
O texto defende que a responsabilização pelos sistemas de IA deve recair sobre seus construtores, não sobre os artefatos. No primeiro parágrafo, o autor critica a ilusão que antropomorfiza a IA e mostra como ela leva as pessoas a confiarem acriticamente. No segundo, propõe regulamentação com transparência e responsabilização das empresas. No terceiro, opõe a corrida por "experimentos de IA" — movida pelo lucro — aos interesses das pessoas, que devem ser protegidos por regulamentação. A tese central é que o foco deve estar nas práticas reais das empresas, não em "poderosas mentes digitais" imaginárias.
A técnica: inferência legítima × extrapolação
A linha que separa o certo do errado aqui é a inferência legítima versus a extrapolação. Inferência legítima é aquela que se apoia em pistas deixadas pelo próprio texto — o leitor conclui algo que não está escrito, mas que o texto obriga a concluir. Extrapolação é quando se acrescenta informação de fora, mesmo que soe verdadeira no mundo real. No item I, a pista é a combinação de duas ideias: a ilusão que "induz as pessoas a... confiarem acriticamente" e a corrida que é "uma série de decisões impulsionadas pelo lucro". Se a ilusão faz as pessoas confiarem acriticamente e a corrida é movida pelo lucro, então essa ilusão beneficia quem lucra — é uma conclusão que o texto autoriza. Já no item II, a banca tenta fazer o candidato trocar o termo: o texto não diz que a segurança é uma resposta à transparência; diz que a transparência é uma exigência e, além disso, a segurança deve recair sobre as empresas. São duas propostas distintas, não uma respondendo à outra.
Item I — ✅ Correto
O item afirma que a ilusão que antropomorfiza a IA e transforma a corrida em destino inescapável beneficia as corporações que lucram com a IA. O texto fornece as duas premissas:
"Essa ilusão, que infla as capacidades dos sistemas automatizados e os antropomorfiza, induz as pessoas a não apenas confiarem acriticamente em sistemas como o ChatGPT, mas também a lhes atribuírem erroneamente a capacidade de agir."
"A corrida atual rumo a 'experimentos de IA' cada vez maiores não é um caminho predeterminado... mas uma série de decisões impulsionadas pelo lucro."
A primeira passagem mostra que a ilusão induz confiança acrítica; a segunda mostra que a corrida é movida pelo lucro. Juntando as duas, conclui-se que a ilusão favorece quem lucra com a IA — é uma inferência com pista textual, não uma opinião de fora. O item está correto.
Item II — ❌ Incorreto
O item afirma que a garantia de segurança no uso da tecnologia digital é uma proposta que responde à demanda por transparência. O texto, porém, apresenta as duas como exigências separadas:
"O que precisamos é de regulamentação que imponha transparência a essa tecnologia digital... Além disso, o ônus de criar instrumentos seguros de uso dessas tecnologias deveria recair sobre as empresas..."
O conectivo "Além disso" indica adição, não relação de causa e consequência. A segurança não é uma resposta à transparência; é uma exigência adicional. O item inverte a relação entre as ideias — erro típico de troca de conectivo/relação. Portanto, está incorreto.
Item III — ✅ Correto
O item afirma que há uma contraposição entre os interesses das corporações e os das pessoas comuns. O texto é explícito:
"As ações e as escolhas das corporações devem ser moldadas por regulamentação que proteja os direitos e os interesses das pessoas."
"Em vez disso, deveríamos focar nas práticas de exploração muito reais e muito presentes das empresas que afirmam construí-las."
A expressão "Em vez disso" marca oposição: de um lado, os interesses das pessoas; de outro, as práticas de exploração das empresas. A contraposição está explícita no texto. O item está correto.
Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que nenhum item está certo. Como os itens I e III estão corretos, a alternativa contradiz o texto — erra ao negar o que o texto sustenta.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Afirma que apenas os itens I e II estão certos. O item II está incorreto (inverte a relação de adição em causa), então a alternativa inclui um item falso — erro de inclusão indevida.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Afirma que apenas os itens I e III estão certos. É exatamente o que a análise mostra: I e III corretos, II incorreto. A alternativa é a única inteiramente sustentada pelo texto.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Afirma que apenas os itens II e III estão certos. O item II está incorreto, então a alternativa inclui um item falso — mesmo erro da B, com combinação diferente.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Afirma que todos os itens estão certos. Como o item II está incorreto, a alternativa generaliza indevidamente, atribuindo validade a uma afirmação que o texto não sustenta.
NÃO CAIA NESSA!
A banca tenta fazer você confundir adição ("Além disso") com causa e consequência. No item II, a segurança não é resposta à transparência; é uma exigência a mais. Fique atento aos conectivos: eles mudam o sentido.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de "julgue os itens", teste cada um perguntando: o texto autoriza isto, ou exige acrescentar algo de fora? Se a afirmação depende de uma relação que o texto não estabelece, ela está errada.
Conclusão: a resposta é a letra C — apenas os itens I e III estão certos. O item I é uma inferência legítima (ilusão + lucro = benefício às corporações); o item III é uma oposição explícita (interesses das pessoas × práticas das empresas); o item II troca a relação de adição por causa. Gabarito: letra C.