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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce396535
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
MPE RO
Ano
2023
Cargo
Ana ( )

No Brasil os nomes das línguas correspondem, na maioria dos casos, aos nomes atribuídos aos respectivos povos: por exemplo, o povo xavante fala a língua xavante. São raros os casos em que se fixou, na literatura especializada ou no uso geral, um nome distinto para a língua. Há o povo fulniô, cuja língua é o iatê.

 

Existem, nestes primeiros anos do século XXI, vários povos bilíngues que convivem com a língua indígena e a portuguesa, mas em outros o português predomina como língua materna das crianças. Ainda se tem muito pouco conhecimento de situações específicas de bilinguismo com o português, e será muito difícil para o recenseador obter informação fidedigna: a informação será mais confiável se obtida dos pais; menos confiável quando for proveniente de líderes ou de administradores; e menos segura ainda no caso de ser obtida por amostragem.

 

Há relatos de povos com população considerável distribuída por diversas aldeias. Por outro lado, a situação de uso da língua portuguesa pode variar consideravelmente de uma aldeia para outra, como no caso dos bororos, em Mato Grosso, ou dos baniuas, no Amazonas.

 

Existem casos de bilinguismo ou de multilinguismo com duas ou mais línguas indígenas faladas pelas mesmas pessoas, como acontece entre os vários povos da família linguística (e cultural) tucano, a noroeste do Amazonas: atualmente estão presentes o português e(ou) o espanhol, além da língua geral amazônica. Por outro lado, conhece-se pouco acerca do grau de presença dessas diversas línguas nas respectivas comunidades.

 

Uma situação única, característica hoje da região do alto rio Negro e seus afluentes, é a persistência do uso da língua geral amazônica (também conhecida como nheengatu), que se concebe hoje como língua franca de comunicação entre grande parte dos indígenas dessa comunidade com os de outra etnia. Contudo, converteu-se na língua materna do grande povo baré (com cerca de 10.300 pessoas), nos municípios de São Gabriel da Cachoeira e de Santa Isabel do Rio Negro; também o é de grande parte do povo baniua, situado no baixo rio Içana e no médio rio Negro (município de São Gabriel da Cachoeira).

 

Aryon Dall’Igna Rodrigues. Línguas indígenas brasileiras. Brasília: Laboratório de Línguas Indígenas da UnB, 2013 (com adaptações).

Texto CG1A1-I

   

Conforme as ideias veiculadas no texto CG1A1-I, em relação às referidas comunidades indígenas do Brasil e às línguas faladas por elas, é correto afirmar que

  1. Aatualmente a língua portuguesa é a língua materna da maioria das comunidades indígenas brasileiras.
  2. Ba persistência do uso da língua geral amazônica como língua franca de comunicação consiste em uma árdua conquista dos povos que a utilizam.
  3. Ca língua geral amazônica é a língua predominante das comunidades indígenas da região Norte do país.
  4. Dé controversa a existência de comunidades indígenas multilíngues no Brasil.
  5. Epoucos são os casos em que a nomenclatura adotada para se referir a um povo diverge daquela que nomeia sua língua.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — poucos são os casos em que a nomenclatura adotada para se referir a um povo diverge daquela que nomeia sua língua.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Nomenclatura das línguas indígenas: a informação explícita que decide a questão

Gabarito: letra E. A alternativa correta é a que afirma que poucos são os casos em que a nomenclatura adotada para se referir a um povo diverge daquela que nomeia sua língua — exatamente o que o primeiro parágrafo do texto sustenta ao dizer que são "raros os casos" em que se fixou um nome distinto para a língua. As demais alternativas ou generalizam indevidamente (A, C), ou acrescentam opinião que o autor não emitiu (B), ou contradizem o texto (D).

O comando pede que você identifique o que é correto afirmar conforme as ideias veiculadas no texto — ou seja, é uma questão de compreensão, não de inferência. Você não precisa deduzir nada além do que está escrito: basta localizar a passagem que corresponde, por paráfrase, à alternativa. A técnica aqui é ancorar cada alternativa em um trecho literal e desconfiar de qualquer afirmação que amplie o alcance do que o autor disse.

O texto, de Aryon Rodrigues, trata das línguas indígenas brasileiras e sua relação com os povos que as falam. O primeiro parágrafo é a chave da questão: ele afirma que, na maioria dos casos, o nome da língua coincide com o nome do povo, e que são raros os casos de divergência. O exemplo do povo fulniô, cuja língua é o iatê, ilustra justamente essa exceção. É essa ideia de raridade que a alternativa E captura com a palavra "poucos".

A armadilha central da banca é a generalização indevida: o texto menciona situações específicas (bilinguismo, multilinguismo, predomínio do português em alguns povos) e o candidato tende a transformá-las em regras gerais. A alternativa A, por exemplo, diz que o português é a língua materna da maioria das comunidades — mas o texto apenas diz que "em outros o português predomina como língua materna das crianças", sem quantificar. A alternativa C faz o mesmo com a língua geral amazônica, restringindo-a à região Norte e chamando-a de "predominante", quando o texto a descreve como língua franca em uma região específica. A alternativa B embute um juízo de valor ("árdua conquista") que o autor não expressa. A alternativa D inverte o texto, que afirma a existência de comunidades multilíngues sem qualquer controvérsia.

Nomenclatura das línguas indígenas
  • 1Regra geral
    • Nome da língua = nome do povo
  • 2Exceção (raros casos)
    • Nome distinto para a língua
    • Ex.: povo fulniô → língua iatê
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Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que "atualmente a língua portuguesa é a língua materna da maioria das comunidades indígenas brasileiras". O texto não diz isso. No segundo parágrafo, lê-se:

"Existem, nestes primeiros anos do século XXI, vários povos bilíngues que convivem com a língua indígena e a portuguesa, mas em outros o português predomina como língua materna das crianças."

O texto fala em "vários povos" e "em outros", sem qualquer quantificação que autorize "maioria". A alternativa generaliza uma situação parcial, transformando-a em regra absoluta. Erro: generalização indevida.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que a persistência do uso da língua geral amazônica "consiste em uma árdua conquista dos povos que a utilizam". O texto descreve o fenômeno de forma neutra:

"Uma situação única, característica hoje da região do alto rio Negro e seus afluentes, é a persistência do uso da língua geral amazônica (também conhecida como nheengatu), que se concebe hoje como língua franca de comunicação entre grande parte dos indígenas dessa comunidade com os de outra etnia."

Não há qualquer avaliação positiva, como "árdua conquista". A alternativa acrescenta uma opinião que o autor não externou. Erro: opinião embutida.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que a língua geral amazônica é "a língua predominante das comunidades indígenas da região Norte do país". O texto restringe o fenômeno a uma região específica e a um papel específico:

"Uma situação única, característica hoje da região do alto rio Negro e seus afluentes, é a persistência do uso da língua geral amazônica... que se concebe hoje como língua franca de comunicação entre grande parte dos indígenas dessa comunidade com os de outra etnia."

A palavra "predominante" não aparece; o texto fala em "língua franca" (meio de comunicação entre etnias), não em língua materna majoritária. Além disso, a região citada é o alto rio Negro, não toda a região Norte. A alternativa restringe e amplia indevidamente o alcance do texto. Erro: generalização indevida.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que "é controversa a existência de comunidades indígenas multilíngues no Brasil". O texto, ao contrário, afirma categoricamente que elas existem:

"Existem casos de bilinguismo ou de multilinguismo com duas ou mais línguas indígenas faladas pelas mesmas pessoas, como acontece entre os vários povos da família linguística (e cultural) tucano..."

Não há qualquer controvérsia mencionada. A alternativa contradiz o texto. Erro: contradiz o texto.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa afirma que "poucos são os casos em que a nomenclatura adotada para se referir a um povo diverge daquela que nomeia sua língua". Isso é uma paráfrase fiel do primeiro parágrafo:

"No Brasil os nomes das línguas correspondem, na maioria dos casos, aos nomes atribuídos aos respectivos povos... São raros os casos em que se fixou, na literatura especializada ou no uso geral, um nome distinto para a língua."

"Poucos" equivale a "raros"; "diverge" equivale a "nome distinto". A alternativa não acrescenta nem suprime nada: apenas reescreve com outras palavras a informação explícita. Correta.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de compreensão, grife as palavras que indicam quantidade ou frequência no texto ("maioria", "raros", "vários", "alguns") e compare com as alternativas. Se a alternativa usar um termo absoluto ("todos", "sempre", "nenhum") ou um quantificador diferente do texto, ela está generalizando ou restringindo — e, portanto, errada.

Gabarito: letra E. A regra de ouro: a resposta correta é a que não ultrapassa o que o texto diz, nem fica aquém. Teste cada alternativa perguntando: "o texto autoriza isto, ou exige acrescentar algo de fora?" — a única que passa no teste é a E.

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