Questão de Português — Vozes (Voz Passiva e Voz Ativa) — CESPE / CEBRASPE 2023
Português›Vozes (Voz Passiva e Voz Ativa)
Código
ce396571
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
TC DF
Ano
2023
Cargo
ACE ( )
Hoje, como outrora, o riso tem uma multidão de significações possíveis, que vão da zombaria sarcástica que exclui à complexidade amigável que censura. Ele pode ser bom, mau ou neutro. Como fenômeno natural, o riso parece ter evoluído pouco, a não ser no sentido de ter-se adquirido maior controle do espírito. Nós rimos mais baixo e de maneira menos desenfreada que nossos ancestrais, o que não surpreende ninguém.
Contudo, além dessas alterações de forma superficial, foi o lugar do riso, na vida e na sociedade, que mudou, assim como o discurso sobre o riso, a maneira como ele é interpretado, analisado, percebido. O fato de lhe terem consagrado numerosos tratados, em todas as épocas, demonstra, ao menos, que todas as sociedades lhe conferiram um lugar importante, e a maneira como ele foi percebido é reveladora das grandes variações de mentalidade.
Ao contrário do que sempre se escuta, os motivos de hilaridade quase não mudaram. Rimos hoje quase das mesmas coisas que antigamente. As técnicas variaram, mas sempre rimos para zombar de nós, para acalmar nosso medo, para manifestar nossa simpatia, para reforçar nossos vínculos e para excluir. O simples enunciado dos motivos mostra que o riso é plural. Os risos são muito diferentes e sempre o foram.
Georges Minois. História do riso e do escárnio. Tradução de
Maria Elena Ortiz Assumpção. São Paulo: Editora UNESP, 2003, p. 629-630 (com adaptações).
Texto CB1A1-I
Considerando os aspectos linguísticos do texto CB1A1-I, julgue o item que se segue.
No primeiro período do último parágrafo, o vocábulo “se” está empregado como índice de indeterminação do sujeito, isto é, serve para indeterminar o sujeito gramatical da forma verbal “escuta”.
CCerto
EErrado
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GabaritoE — Errado
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O "se" em "sempre se escuta": partícula apassivadora, não índice de indeterminação
Gabarito: ERRADO. No primeiro período do último parágrafo, o vocábulo "se" está empregado como partícula apassivadora, e não como índice de indeterminação do sujeito. A prova está na possibilidade de transpor a oração para a voz passiva analítica: "os motivos de hilaridade quase não mudaram" → "sempre se escuta que os motivos de hilaridade quase não mudaram" equivale a "que os motivos de hilaridade quase não mudaram é sempre escutado". O "se" acompanha um verbo transitivo direto ("escutar" = escutar algo), e o termo que o segue funciona como sujeito paciente — exatamente o que caracteriza a voz passiva sintética.
O comando: análise sintática do "se" no contexto
A questão pede que se julgue a classificação do "se" na oração "Ao contrário do que sempre se escuta". Não se trata de interpretação de texto, mas de gramática aplicada ao texto: é preciso identificar a função sintática do pronome "se" com base na transitividade do verbo e na estrutura da oração. O comando afirma que o "se" é índice de indeterminação do sujeito — e é exatamente essa afirmação que precisa ser testada.
O texto: localizando a passagem e o verbo
No último parágrafo, lê-se:
"Ao contrário do que sempre se escuta, os motivos de hilaridade quase não mudaram."
O verbo é "escutar", que é transitivo direto: quem escuta, escuta algo. Na oração, o "se" está ligado a esse verbo transitivo direto, e o que seria o objeto direto na voz ativa (a oração "que os motivos de hilaridade quase não mudaram") aparece como sujeito paciente na construção com "se". Essa é a estrutura típica da voz passiva sintética.
A técnica que decide: transitividade do verbo
A regra é clara e cai em provas com frequência:
Partícula apassivadora (PA): ocorre com verbo transitivo direto (VTD) ou transitivo direto e indireto (VTDI). O termo que acompanha o verbo é o sujeito paciente, e o verbo concorda com ele. Ex.: "Vendem-se casas" (casas são vendidas).
Índice de indeterminação do sujeito (IIS): ocorre com verbo transitivo indireto (VTI), intransitivo (VI) ou de ligação (VL). Não há objeto direto, e o verbo fica sempre na 3ª pessoa do singular. Ex.: "Precisa-se de funcionários" (quem precisa, precisa de algo).
No trecho, "escutar" é VTD — logo, o "se" só pode ser partícula apassivadora. Para confirmar, basta converter para a voz passiva analítica:
"sempre se escuta que os motivos de hilaridade quase não mudaram" → "que os motivos de hilaridade quase não mudaram é sempre escutado".
A conversão funciona perfeitamente, o que prova que há sujeito paciente e, portanto, voz passiva sintética.
A pegadinha da banca
A banca tenta confundir o candidato com a aparência de indeterminação: como não há um sujeito explícito e agente, muitos imaginam que o "se" indetermina o sujeito. Mas o critério não é a ausência de agente, e sim a transitividade do verbo. Se o verbo admite objeto direto, o "se" é apassivador; se não admite, é índice de indeterminação. O verbo "escutar" admite objeto direto, então a classificação correta é partícula apassivadora.
Critério
Partícula Apassivadora (PA)
Índice de Indeterminação do Sujeito (IIS)
Verbo que acompanha
VTD ou VTDI
VTI, VI ou VL
Função do termo seguinte
Sujeito paciente
Objeto indireto, adjunto ou oração subordinada
Concordância verbal
Verbo concorda com o sujeito paciente
Verbo sempre na 3ª pessoa do singular
Conversão para voz passiva analítica
Possível (ex.: "Vendem-se casas" → "Casas são vendidas")
Impossível
Exemplo clássico
"Vendem-se casas"
"Precisa-se de funcionários"
"Se" com verbo transitivo direto
1Partícula apassivadora
Sujeito paciente
Conversão p/ voz passiva analítica
2Ex.: "Vendem-se casas"
3"Se" com VTI, VI ou VL
Índice de indeterminação do sujeito
Verbo na 3ª pessoa do singular
Ex.: "Precisa-se de funcionários"
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NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão clássica entre partícula apassivadora e índice de indeterminação do sujeito. O candidato que decora exemplos prontos ("precisa-se", "vive-se") sem entender o critério da transitividade cai na armadilha. A pergunta decisiva é sempre: o verbo admite objeto direto?
Conclusão
A afirmação do item está errada: o "se" em "sempre se escuta" é partícula apassivadora, pois o verbo "escutar" é transitivo direto e o termo seguinte funciona como sujeito paciente. O índice de indeterminação do sujeito só ocorreria com verbo transitivo indireto, intransitivo ou de ligação — o que não é o caso.
PEGA ESSA DICA!
Ao analisar o "se", teste sempre a conversão para a voz passiva analítica ("Vendem-se casas" → "Casas são vendidas"). Se a conversão for possível, o "se" é apassivador; se não for, é índice de indeterminação. Esse teste resolve a maioria das questões de prova.