Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2023
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce396611
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
SESI SP
Ano
2023
Cargo
PEB ( )
Texto 3A4-I
Rios sem discurso
Quando um rio corta, corta-se de vez
o discurso-rio de água que ele fazia;
cortado, a água se quebra em pedaços,
em poços de água, em água paralítica.
Em situação de poço, a água equivale
a uma palavra em situação dicionária:
isolada, estanque no poço dela mesma,
e porque assim estanque, estancada;
e mais: porque assim estancada, muda,
e muda porque com nenhuma comunica,
porque cortou-se a sintaxe desse rio,
o fio de água por que ele discorria.
O curso de um rio, seu discurso-rio,
chega raramente a se reatar de vez;
um rio precisa de muito fio de água
para refazer o fio antigo que o fez.
Salvo a grandiloquência de uma cheia
lhe impondo interina outra linguagem,
um rio precisa de muita água em fios
para que todos os poços se enfrasem:
se reatando, de um para outro poço,
em frases curtas, então frase e frase,
até a sentença-rio do discurso único
em que se tem voz a seca ele combate.
João Cabral de Melo Neto. A educação pela pedra. In: Obra completa: volume único. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p. 350-1.
No texto 3A4-I, o poeta João Cabral explora a plurissignificação das palavras para construir um poema metalinguístico. Considerando esse recurso, assinale a opção correta.
AO emprego de palavras e expressões do campo semântico da água — como “rio”, “poço(s)”, “fio de água”, “cheia” — e do campo semântico da comunicação humana — como “discurso”, “palavra”, “dicionária”, “sintaxe”, “grandiloquência” — busca marcar uma relação de oposição entre homem e natureza, que remete ao tema da preservação dos recursos naturais.
BNa primeira estrofe, cria-se a imagem sugestiva do riodiscurso que se desfaz por causa da seca. Na segunda estrofe, apresenta-se a dificuldade do restabelecimento do curso normal de um rio nordestino que só volta a ser o mesmo rio se contar com uma “cheia”; em contraste com a facilidade do restabelecimento do discurso que volta a sua “grandiloquência” de sempre “em frases curtas, / então frase e frase, / até a sentença-rio do discurso único”.
CAs palavras “curso” e “discurso” são aproximadas, no poema, por expressarem a ideia de continuidade: assim como o “curso” do rio é contínuo, o “discurso” da comunicação só é efetivado em fluxo.
DA expressão “água paralítica” encontra paralelo na expressão “água em situação dicionária” para representar a falta de sentido das palavras eruditas que deixaram de fazer parte da comunicação dinâmica e atual.
ENa primeira estrofe, faz-se referência a resultados de ações que geram interrupções no curso de água de um rio, como “cortado”, “isolada”, “estancada” . Esses desfechos de ações reduzem o rio a um “fio de água”, mas ele continua seu fluxo. Em contraposição, o discurso humano, que faz paralelo ao curso do rio, ao ser interrompido, deixa de existir e se torna palavra “muda” porque não existe fora das relações da sintaxe.
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GabaritoC — As palavras “curso” e “discurso” são aproximadas, no poema, por expressarem a ideia de continuidade: assim como o “curso” do rio é contínuo, o “discurso” da comunicação só é efetivado em fluxo.
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Plurissignificação e metalinguagem em "Rios sem discurso"
Gabarito: letra C. A alternativa correta é a que aproxima "curso" e "discurso" pela ideia de continuidade/fluxo, exatamente o que o poema constrói ao longo de todo o texto: o rio só "discorre" enquanto há "fio de água" contínuo, e a palavra só comunica enquanto está em fluxo sintático. A passagem que ancora essa leitura está na primeira estrofe: "porque cortou-se a sintaxe desse rio, / o fio de água por que ele discorria" — ou seja, o "discurso-rio" é o fluxo, e o corte é a interrupção da continuidade.
O comando da questão
O enunciado pede que se assinale a opção correta considerando a plurissignificação (a capacidade de uma palavra ter múltiplos sentidos) e o caráter metalinguístico do poema (a linguagem falando sobre a própria linguagem). Isso muda a resolução: não basta localizar uma informação literal; é preciso perceber como o poeta aproxima dois campos semânticos — o da água e o da comunicação — para construir uma metáfora continuada: o rio é um discurso, e o discurso é um rio.
O texto: a tese do fluxo
O poema de João Cabral não trata de preservação ambiental nem de oposição homem × natureza. A tese é metalinguística: a comunicação (o discurso) só existe em fluxo contínuo, assim como o rio só é rio enquanto a água corre. Quando o rio é cortado, a água vira "poço", "água paralítica", "estanque", "muda" — palavras isoladas, como verbetes de dicionário. O movimento argumentativo é: fluxo = vida/sentido; estagnação = morte/silêncio. A segunda estrofe reforça que o reatar é difícil e exige "muita água em fios" — isto é, muita continuidade para refazer o discurso.
A técnica que decide
A questão testa a leitura da metáfora estruturante do poema. A alternativa C acerta porque capta o paralelismo semântico entre "curso" (do rio) e "discurso" (da fala): ambos expressam a ideia de percurso contínuo. O texto autoriza isso em vários pontos: "o discurso-rio de água que ele fazia" (o rio é discurso), "o fio de água por que ele discorria" (o verbo "discorrer" liga água e fala), "a sentença-rio do discurso único" (o discurso é rio). A palavra "discurso" carrega o sentido de "curso" (percurso) + prefixo "dis-" (separação, dispersão), e o poema explora exatamente essa raiz comum.
NÃO CAIA NESSA!
A banca arma com extrapolação temática — alternativas que trazem temas verdadeiros no mundo real (preservação ambiental, seca nordestina) mas que não estão no texto. O poema é metalinguístico, não ecológico. Desconfie de qualquer opção que introduza um debate externo ao poema.
PEGA ESSA DICA!
Em poemas metalinguísticos, procure a metáfora central (aqui: rio = discurso) e teste cada alternativa perguntando: "isso está no texto ou é um conhecimento que eu trouxe de fora?". A resposta correta sempre se ancora em palavras do próprio poema.
A alternativa extrapola ao afirmar que o poema marca "oposição entre homem e natureza" e remete à "preservação dos recursos naturais". O texto não estabelece essa oposição: rio e discurso são aproximados (metáfora), não opostos. A palavra "preservação" e o tema ecológico são acréscimos de fora — o poema fala de linguagem, não de ecologia. Erro: extrapolação temática.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa contradiz o texto ao afirmar que o discurso volta com "facilidade" à sua "grandiloquência de sempre". O poema diz o oposto: "O curso de um rio, seu discurso-rio, / chega raramente a se reatar de vez" — o reatar é raro e difícil, tanto para o rio quanto para o discurso. Além disso, a "grandiloquência de uma cheia" é descrita como algo que impõe "interina outra linguagem", ou seja, uma falsa restauração, não a volta do discurso verdadeiro. Erro: contradição com o texto (inverte a dificuldade do reatar).
Alternativa C — ✅ Correta
A alternativa está correta porque capta a ideia central do poema: a continuidade. O texto aproxima "curso" e "discurso" pela raiz comum e pela metáfora do fluxo. Veja as passagens que sustentam:
"o discurso-rio de água que ele fazia" "o fio de água por que ele discorria" "a sentença-rio do discurso único"
O rio só é rio enquanto há "fio de água" contínuo; o discurso só comunica enquanto há "sintaxe" (conexão entre as palavras). A alternativa C diz exatamente isso: "o 'curso' do rio é contínuo, o 'discurso' da comunicação só é efetivado em fluxo". É uma paráfrase fiel da tese do poema.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa troca o referente e restringe o sentido. O texto compara "água paralítica" a "palavra em situação dicionária" para representar a perda da comunicação (a palavra isolada, sem sintaxe, fica "muda"). A alternativa D, porém, afirma que isso representa "a falta de sentido das palavras eruditas" — um juízo de valor que não está no texto. O poema não critica palavras eruditas; critica a palavra isolada, fora do fluxo do discurso, seja ela erudita ou não. Erro: acréscimo de opinião + restrição indevida.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa contradiz o texto na parte final. Ela afirma que o discurso humano, "ao ser interrompido, deixa de existir". Mas o poema diz que o discurso pode ser reatado: "O curso de um rio, seu discurso-rio, / chega raramente a se reatar de vez" — ou seja, ele não deixa de existir, apenas fica difícil de se refazer. Além disso, a alternativa diz que o rio "continua seu fluxo" mesmo cortado, mas o texto afirma que a água cortada vira "poço", "água paralítica", "estancada" — ou seja, o fluxo cessa. A alternativa inverte a situação dos dois elementos. Erro: contradição com o texto (inverte o que acontece com rio e discurso).
Conclusão
A questão se resolve pela metáfora central: rio e discurso são a mesma coisa — ambos dependem do fluxo contínuo para existir. A alternativa C é a única que permanece dentro do texto, sem acrescentar temas externos (ecologia), sem inverter sentidos (reatar difícil) e sem embutir opiniões (palavras eruditas). Teste cada alternativa perguntando: "o texto autoriza isto, ou exige que eu traga algo de fora?".