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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce396612
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
SESI SP
Ano
2023
Cargo
PEB ( )

Texto 3A4-I

 

Rios sem discurso

 

Quando um rio corta, corta-se de vez

o discurso-rio de água que ele fazia;

cortado, a água se quebra em pedaços,

em poços de água, em água paralítica.

Em situação de poço, a água equivale

a uma palavra em situação dicionária:

isolada, estanque no poço dela mesma,

e porque assim estanque, estancada;

e mais: porque assim estancada, muda,

e muda porque com nenhuma comunica,

porque cortou-se a sintaxe desse rio,

o fio de água por que ele discorria.

 

O curso de um rio, seu discurso-rio,

chega raramente a se reatar de vez;

um rio precisa de muito fio de água

para refazer o fio antigo que o fez.

Salvo a grandiloquência de uma cheia

lhe impondo interina outra linguagem,

um rio precisa de muita água em fios

para que todos os poços se enfrasem:

se reatando, de um para outro poço,

em frases curtas, então frase e frase,

até a sentença-rio do discurso único

em que se tem voz a seca ele combate.

 

João Cabral de Melo Neto. A educação pela pedra. In: Obra completa: volume único. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p. 350-1.

O texto 3A4-I ilustra a poesia da terceira fase do Modernismo brasileiro ou a chamada “geração de 45”. Considerando a leitura do poema e aspectos da obra do autor, assinale a opção correta.
  1. AO poema Rios sem discurso ilustra o lirismo de temática não intimista, mas participante das questões do tempo, resultado da integração entre o emocional e o reflexivo em uma linguagem poética com maior rigor formal, se comparada à linguagem dos primeiros modernistas.
  2. BO requinte formal dos versos de João Cabral está presente na regularidade métrica dos versos, que marca, ao longo dos versos do poema, um ritmo único e uniforme, casando o assunto do curso do rio ao ritmo, ambos inalteráveis.
  3. CA poesia de João Cabral sempre foi dividida em duas direções opostas e excludentes: uma primeira linha, marcada pelo cuidado formal, cuja tendência se volta para a metalinguagem, abrangendo uma temática de investigação do próprio fazer poético; e outra, desvinculada de preocupações estéticas, chamada de participante, que tem o Nordeste como sua temática principal.
  4. DAvesso às liberdades da poesia modernista, principalmente a poesia da fase heroica do Modernismo brasileiro, o poeta João Cabral resgatou características da estética parnasiana do século XIX, como o cuidado estético, o abandono dos exageros sentimentais, a objetividade e a visão crítica da realidade do seu tempo.
  5. EO poeta João Cabral absorveu as ideias renovadoras do Modernismo e trouxe para a sua obra influências óbvias do prosaísmo, da ironia e da liberdade dos versos dos seus antecessores, especialmente de Mário e Oswald de Andrade, colaborando para a evolução da poesia brasileira no século XX.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — O poema Rios sem discurso ilustra o lirismo de temática não intimista, mas participante das questões do tempo, resultado da integração entre o emocional e o reflexivo em uma linguagem poética com maior rigor formal, se comparada à linguagem dos primeiros modernistas.

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Poesia de João Cabral de Melo Neto: lirismo participante e rigor formal

Gabarito: letra A. A alternativa correta caracteriza o poema como um lirismo de temática não intimista, mas participante das questões do tempo, integrando o emocional e o reflexivo em uma linguagem de maior rigor formal em relação aos primeiros modernistas. Essa leitura se ancora na própria estrutura do poema, que transforma o curso do rio em metáfora da linguagem e da comunicação, e no contexto da obra de João Cabral, marcada pela síntese entre engajamento e construção estética.

O comando pede que se assinale a opção correta considerando a leitura do poema e aspectos da obra do autor. Isso significa que a resposta deve ser sustentada tanto por elementos internos do texto (a metáfora do rio, a reflexão sobre a linguagem) quanto por conhecimento contextual sobre a poética de João Cabral. Não se trata de uma questão de mera compreensão literal, mas de interpretação que articula texto e contexto literário.

O poema "Rios sem discurso" desenvolve uma metáfora central: o rio é comparado a um discurso, e a água, a palavras. Quando o rio é cortado, a água se fragmenta em poços, que são comparados a palavras isoladas, "em situação dicionária". Essa imagem constrói uma reflexão sobre a linguagem: a palavra isolada é "muda", não comunica, pois perdeu sua sintaxe, seu fluxo. O poema, portanto, trata da necessidade de reatar os fios da linguagem para que a comunicação se restabeleça. Essa temática é, ao mesmo tempo, social (a seca, o combate à seca) e metalinguística (a reflexão sobre o próprio fazer poético).

A técnica para resolver a questão é identificar qual alternativa melhor sintetiza essa dupla dimensão do poema e da obra de João Cabral: o rigor formal aliado a uma temática participante, que não é intimista, mas voltada para questões do tempo, como a seca no Nordeste. As demais alternativas ou restringem indevidamente o alcance da obra, ou contradizem aspectos conhecidos da poética do autor, ou extrapolam informações não presentes no texto.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora o conhecimento prévio sobre João Cabral para criar distratores que parecem plausíveis, mas que contêm erros de generalização (como a divisão da obra em "duas direções opostas e excludentes") ou de atribuição (como a influência direta de Mário e Oswald de Andrade). A correta é a única que integra corretamente os elementos do poema e da obra do autor.

1Rigor formal
Métrica regular
Linguagem precisa
2Temática participante
Não intimista
Questões do tempo (seca)
3Integração
Emocional e reflexivo
Metalinguagem (fazer poético)
4Diálogo com o Modernismo
Crítico, não prosaico
Não é Parnasianismo
Poesia de João Cabral
LEVELsoulevel.com.br
Poesia de João Cabral: Rigor formal (Métrica regular, Linguagem precisa); Temática participante (Não intimista, Questões do tempo (seca)); Integração (Emocional e reflexivo, Metalinguagem (fazer poético)); Diálogo com o Modernismo (Crítico, não prosaico, Não é Parnasianismo)

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa A está correta porque sintetiza com precisão as características do poema e da obra de João Cabral. O poema "Rios sem discurso" não é um lirismo intimista; ele trata de uma questão social (a seca) e de uma questão estética (a linguagem), integrando o emocional e o reflexivo. O rigor formal é evidente na construção dos versos, com métrica regular e linguagem precisa, contrastando com a liberdade formal dos primeiros modernistas. A passagem que sustenta a temática participante é a referência ao combate à seca:

"até a sentença-rio do discurso único / em que se tem voz a seca ele combate."

Essa passagem mostra que o poema não se limita a uma reflexão abstrata sobre a linguagem; ele se volta para uma questão concreta do tempo, a seca, o que caracteriza o lirismo participante. A integração entre o emocional e o reflexivo está na própria metáfora: o rio que precisa de "muita água em fios" para refazer seu discurso é uma imagem que une a emoção da paisagem à reflexão sobre a comunicação.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa B está incorreta porque afirma que a regularidade métrica marca "um ritmo único e uniforme" e que o assunto do curso do rio é "inalterável". O poema, ao contrário, descreve um processo de transformação: o rio é cortado, a água se fragmenta, e depois há a possibilidade de reatar os fios. O ritmo do poema, embora regular, não é "único e uniforme" no sentido de ser estático; ele acompanha a ideia de fluxo e ruptura. A palavra "inalterável" é um termo absoluto que contradiz o próprio tema do poema, que é a possibilidade de mudança e restauração. A alternativa restringe indevidamente o sentido do texto.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa C está incorreta porque afirma que a poesia de João Cabral "sempre foi dividida em duas direções opostas e excludentes". Essa é uma generalização indevida. Embora seja possível identificar diferentes tendências na obra do autor, a divisão em duas linhas "opostas e excludentes" é uma simplificação que não corresponde à complexidade de sua poética. Além disso, a alternativa afirma que uma das linhas é "desvinculada de preocupações estéticas", o que é falso, pois mesmo a poesia de temática social de João Cabral é marcada por rigor formal. O poema em questão, por exemplo, integra a temática social (a seca) com a reflexão estética (a linguagem), o que contraria a ideia de direções excludentes.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa D está incorreta porque afirma que João Cabral "resgatou características da estética parnasiana do século XIX". Embora o rigor formal seja uma característica de sua poesia, associá-lo diretamente ao Parnasianismo é uma extrapolação que desconsidera as diferenças fundamentais entre as duas estéticas. O Parnasianismo valorizava a arte pela arte, o culto à forma e a impassibilidade, enquanto a poesia de João Cabral, embora formalmente rigorosa, é engajada e reflexiva, voltada para questões sociais e existenciais. A alternativa também afirma que ele era "avesso às liberdades da poesia modernista", o que é uma simplificação, pois sua obra dialoga com o Modernismo, ainda que de forma crítica.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa E está incorreta porque afirma que João Cabral trouxe para sua obra "influências óbvias do prosaísmo, da ironia e da liberdade dos versos" de Mário e Oswald de Andrade. Embora João Cabral tenha dialogado com o Modernismo, sua poesia é marcada por um rigor formal que se distancia do prosaísmo e da liberdade formal dos primeiros modernistas. A influência de Mário e Oswald não é "óbvia" e a alternativa extrapola ao afirmar que essa influência foi determinante para a "evolução da poesia brasileira". O poema em questão, com sua metáfora precisa e construção formal, exemplifica a diferença entre a poética de João Cabral e a dos primeiros modernistas.

Conclusão: a questão exige a articulação entre a leitura do poema e o conhecimento da obra de João Cabral. A alternativa A é a única que integra corretamente a temática participante, o rigor formal e a reflexão sobre a linguagem, elementos centrais do poema e da poética do autor. As demais alternativas falham por generalizar, extrapolar ou contradizer aspectos do texto e da obra.

Gabarito: letra A

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