Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce396613
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
SESI SP
Ano
2023
Cargo
PEB ( )

Agora torna a minha pergunta: E que faria neste caso, ou que devia fazer o semeador evangélico, vendo tão mal logrados seus primeiros trabalhos? Deixaria a lavoura? Desistiria da sementeira? Ficar-se-ia ocioso no campo, só porque tinha lá ido? Parece que não. [...]

 

Dá-me grande exemplo o semeador, porque, depois de perder a primeira, a segunda e a terceira parte do trigo, aproveitou a quarta e última, e colheu dela muito fruto. Já que se perderam as três partes da vida, já que uma parte da idade a levaram os espinhos, já que outra parte a levaram as pedras, já que outra parte a levaram os caminhos, e tantos caminhos, esta quarta e última parte, este último quartel da vida, por que se perderá também? Por que não dará fruto? Por que não terão também os anos o que tem o ano? O ano tem tempo para as flores e tempo para os frutos. Por que não terá também o seu Outono a vida? As flores, umas caem, outras secam, outras murcham, outras leva o vento; aquelas poucas que se pegam ao tronco e se convertem em fruto, só essas são as venturosas, só essas são as que aproveitam, só essas são as que sustentam o Mundo.

 

Padre Antonio Vieira. Sermão da sexagésima. In: Sermões escolhidos. v.2,

São Paulo: Edameris, 1965. Internet: <www.dominiopublico.gov.br> (com adaptações).

Texto 3A4-II

   

No Sermão da sexagésima, o padre Vieira discorre a respeito da pouca eficácia das pregações religiosas sobre os fiéis em sua época.

 

Considerando o texto 3A4-II e os aspectos da obra do padre Vieira, assinale a opção correta.

  1. ANo primeiro parágrafo do fragmento, o autor metaforiza o pregador religioso como o “semeador evangélico” e a ele dirige uma sequência de interpelações a respeito de sua atuação; no entanto, fica claro, no contexto, que Vieira não espera respostas desse interlocutor.
  2. BPor meio de analogias entre os ciclos da natureza e as fases da vida humana, Vieira constrói argumentos para defender a ideia de que um religioso só é produtivo quando envelhece.
  3. CNo jogo de analogias desenvolvido no fragmento, depreendese que, assim como o bom resultado dos esforços do semeador é a colheita dos frutos da plantação, o bom resultado dos esforços do pregador religioso é a conversão dos fiéis por meio do sermão.
  4. DAs repetições são, no texto, apenas um recurso retórico de ornamento das ideias, sem função efetiva na intenção de persuasão do leitor ou do ouvinte, intenção essa que conduz um sermão.
  5. EDa analogia “Por que não terão também os anos o que tem o ano?”, depreende-se que o autor emprega “anos” para a época representada no sermão e “ano” para um período com mudanças de estações climáticas; sendo assim, dá à palavra “Outono”, estação climática de um ano, a representação metafórica da época da vida embelezada pelas flores, símbolos da beleza e da juventude na vida humana.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — No jogo de analogias desenvolvido no fragmento, depreendese que, assim como o bom resultado dos esforços do semeador é a colheita dos frutos da plantação, o bom resultado dos esforços do pregador religioso é a conversão dos fiéis por meio do sermão.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Analogia entre o semeador e o pregador no Sermão da Sexagésima

Gabarito: letra C. A alternativa correta é a que estabelece a analogia central do fragmento: assim como o semeador colhe os frutos da plantação, o pregador religioso alcança o bom resultado de seus esforços na conversão dos fiéis por meio do sermão. Essa leitura é autorizada diretamente pelo texto, que compara o trabalho do semeador ao trabalho do pregador, e a "colheita" do pregador é a adesão dos ouvintes à mensagem pregada.

O comando pede que se assinale a opção correta considerando o texto e os aspectos da obra do padre Vieira. Isso significa que a resposta deve ser uma interpretação ancorada no fragmento, não uma mera paráfrase literal nem uma extrapolação. A banca testa a capacidade de perceber a analogia estruturante do sermão: o pregador é o semeador, o sermão é a semente, e o fruto esperado é a conversão dos fiéis.

O texto desenvolve essa analogia de forma explícita. No primeiro parágrafo, o autor pergunta o que faria o "semeador evangélico" diante do fracasso de seus trabalhos, e responde com o exemplo do semeador que, após perder três partes do trigo, aproveitou a quarta e colheu muito fruto. A aplicação ao contexto religioso é imediata: as "três partes da vida" perdidas (levadas pelos espinhos, pedras e caminhos) correspondem às almas que não se converteram, e a "quarta e última parte" é a oportunidade restante de pregação. O fruto esperado, portanto, é a conversão.

A alternativa C captura exatamente essa correspondência. Ela afirma que, assim como o semeador obtém a colheita dos frutos da plantação, o pregador obtém a conversão dos fiéis por meio do sermão. Isso está diretamente implícito no texto, que usa a parábola do semeador para ilustrar a eficácia da pregação. O texto não diz literalmente "o fruto do pregador é a conversão", mas essa é a inferência legítima que o fragmento autoriza, pois a analogia entre semeadura e pregação só faz sentido se o "fruto" for a adesão dos ouvintes.

As demais alternativas falham por diferentes motivos. A alternativa A, embora correta ao descrever a metáfora e as interpelações, extrapola ao afirmar que "Vieira não espera respostas desse interlocutor" — o texto não fornece essa informação. A alternativa B restringe indevidamente o sentido da analogia ao afirmar que o religioso "só é produtivo quando envelhece", quando o texto fala em aproveitar a última parte da vida, mas não limita a produtividade à velhice. A alternativa D contradiz o texto, pois as repetições têm função persuasiva clara, como se vê na ênfase de "já que" e "por que". A alternativa E extrapola ao atribuir ao "Outono" um significado metafórico específico ("época da vida embelezada pelas flores") que não está no texto.

Analogia do Sermão da Sexagésima
  • 1Semeador
    • Semeia o trigo
    • Perde 3 partes (espinhos, pedras, caminhos)
    • Aproveita a 4ª parte
    • Colhe muitos frutos
  • 2Pregador
    • Prega o sermão
    • Perde almas (não convertidas)
    • Aproveita a última oportunidade
    • Converte os fiéis
LEVEL · soulevel.com.br

Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa A está incorreta porque, embora descreva corretamente a metáfora do semeador e as interpelações, ela extrapola ao afirmar que "Vieira não espera respostas desse interlocutor". O texto não fornece essa informação. As perguntas retóricas do primeiro parágrafo ("Deixaria a lavoura? Desistiria da sementeira?") são, de fato, interpelações, mas o texto não diz se o autor espera ou não respostas. Essa é uma suposição que o leitor faz, não uma informação presente no fragmento. A banca explora a tendência de completar o sentido com base no senso comum, mas a resposta deve se ater ao que está escrito.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa B está incorreta porque restringe indevidamente o sentido da analogia. O texto fala em aproveitar a "quarta e última parte" da vida, mas não afirma que o religioso "só é produtivo quando envelhece". A ideia de que a produtividade está ligada à velhice é uma generalização que o texto não sustenta. O fragmento apenas incentiva a aproveitar a última oportunidade, mas não estabelece uma relação exclusiva entre envelhecimento e produtividade. A palavra "só" é um sinal de alerta: ela restringe o alcance da afirmação, e o texto não autoriza essa restrição.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa C está correta porque captura a analogia central do fragmento. O texto compara o trabalho do semeador ao trabalho do pregador, e o "fruto" da pregação é a conversão dos fiéis. Isso está implícito na parábola: assim como o semeador colhe os frutos da plantação, o pregador colhe a adesão dos ouvintes. O texto não diz isso literalmente, mas a inferência é legítima, pois a analogia só faz sentido se o "fruto" for a conversão. A alternativa C é a única que permanece fiel ao texto, sem acrescentar informações externas.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa D está incorreta porque contradiz o texto. Ela afirma que as repetições são "apenas um recurso retórico de ornamento das ideias, sem função efetiva na intenção de persuasão". No entanto, as repetições no texto têm clara função persuasiva. Veja o trecho:

"Já que se perderam as três partes da vida, já que uma parte da idade a levaram os espinhos, já que outra parte a levaram as pedras, já que outra parte a levaram os caminhos, e tantos caminhos, esta quarta e última parte, este último quartel da vida, por que se perderá também?"

A repetição de "já que" e "por que" cria um ritmo argumentativo que reforça a ideia de que a última oportunidade não deve ser desperdiçada. As repetições não são mero ornamento; elas conduzem a persuasão, pois enfatizam a perda das três partes e a urgência de aproveitar a última. A alternativa D, portanto, inverte o papel das repetições, atribuindo-lhes uma função que o texto não sustenta.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa E está incorreta porque extrapola ao atribuir ao "Outono" um significado metafórico específico que não está no texto. Ela afirma que "Outono" representa "a época da vida embelezada pelas flores, símbolos da beleza e da juventude". No entanto, o texto não associa "Outono" a "flores". Veja o trecho:

"O ano tem tempo para as flores e tempo para os frutos. Por que não terá também o seu Outono a vida? As flores, umas caem, outras secam, outras murcham, outras leva o vento; aquelas poucas que se pegam ao tronco e se convertem em fruto, só essas são as venturosas, só essas são as que aproveitam, só essas são as que sustentam o Mundo."

Aqui, "Outono" é associado aos frutos, não às flores. As flores são as que caem, secam, murcham ou são levadas pelo vento; apenas as que se convertem em fruto são aproveitadas. Portanto, a alternativa E troca os termos da analogia, atribuindo ao Outono um sentido que o texto não autoriza. A banca explora a tendência de associar "Outono" a "flores" por conhecimento de mundo, mas o texto é claro: o Outono é o tempo dos frutos.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a extrapolação na alternativa E, atribuindo ao texto um significado metafórico que ele não contém. Fique atento a palavras como "símbolos" e "representação" — elas costumam sinalizar uma interpretação que vai além do que está escrito.

PEGA ESSA DICA!

Ao resolver questões de interpretação, grife as palavras que indicam restrição ("só", "apenas", "sempre") e desconfie de alternativas que acrescentam informações externas. A resposta correta é sempre a que está ancorada no texto, nem mais, nem menos.

Conclusão: a alternativa C é a única que permanece fiel ao texto, capturando a analogia central entre o semeador e o pregador. As demais alternativas falham por extrapolar, restringir ou contradizer o que está escrito. Ao resolver questões de interpretação, lembre-se: a resposta mora no texto — qualquer informação que precise ser acrescentada de fora é sinal de erro.

Gabarito: letra C

Link permanente: /questoes/ce396613