Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Variações da Linguagem: Não Verbal, Regional, Histórica, Contextual. Neologismos e Estrangeirismos — CESPE / CEBRASPE 2023

PortuguêsVariações da Linguagem: Não Verbal, Regional, Histórica, Contextual. Neologismos e Estrangeirismos
Código
ce396616
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
SESI SP
Ano
2023
Cargo
PEB ( )

— Amigo — disse-lhe pachorrentamente Aldrovando —, natural a mim me parece que erres, alarve que és. Se erram paredros, nesta época de ouro da corrupção...

 

O ferreiro pôs de lado o malho e entreabriu a boca.

 

— Mas da boa sombra do teu focinho espero — continuou o apóstolo — que ouvidos me darás. Naquela tábua um dislate existe que seriamente à língua lusa ofende. Venho pedir-te, em nome do asseio gramatical, que o expunjas.

 

— ???

 

— Que reformes a tabuleta, digo.

 

— Reformar a tabuleta? Uma tabuleta nova, com a licença paga? Estará acaso rachada?

 

— Fisicamente, não. A racha é na sintaxe. Fogem ali os dizeres à sã gramaticalidade.

 

O honesto ferreiro não entendia nada de nada.

 

Monteiro Lobato. O colocador de pronomes. In: Contos completos: Monteiro Lobato. São Paulo: Biblioteca Azul, 2014, p. 379.

Foi assim com o ferreiro da esquina, em cujo portão de tenda uma tabuleta — “Ferra-se cavalos” — escoicinhava a santa gramática.     No fragmento desse conto de Monteiro Lobato, a cena da dificuldade de comunicação entre os personagens Aldrovando e o ferreiro
  1. Aconfigura uma crítica ao uso inadequado da modalidade culta da língua, o qual expõe o personagem Aldrovando ao ridículo.
  2. Bcaracteriza, pelo uso de diferentes níveis da linguagem, as condições de vida dos personagens, sua procedência e sua classe social.
  3. Cdemonstra como o domínio da modalidade culta pôde funcionar para impor respeito ao personagem Aldrovando.
  4. Ddenuncia a falta de domínio da língua portuguesa pelos falantes das camadas menos escolarizadas da população, como é o caso do ferreiro.
  5. Econfirma a existência de inúmeras situações na vida prática em que o falante precisa saber usar a língua padrão, caso contrário, pode não haver comunicação eficaz.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — configura uma crítica ao uso inadequado da modalidade culta da língua, o qual expõe o personagem Aldrovando ao ridículo.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A crítica à modalidade culta no conto de Monteiro Lobato

Gabarito: letra A. A cena da dificuldade de comunicação entre Aldrovando e o ferreiro configura uma crítica ao uso inadequado da modalidade culta da língua, que expõe o personagem Aldrovando ao ridículo. O texto comprova isso ao mostrar que Aldrovando, apesar de usar uma linguagem rebuscada e cheia de termos eruditos, não consegue se fazer entender pelo ferreiro, que reage com perplexidade: "O honesto ferreiro não entendia nada de nada." A ironia está em que o "apóstolo" da gramática, ao tentar corrigir a tabuleta, acaba por criar um ruído de comunicação maior do que o suposto erro que queria corrigir.

O comando da questão

O enunciado pede uma interpretação da cena: "a cena da dificuldade de comunicação entre os personagens Aldrovando e o ferreiro". Não se trata de localizar uma informação explícita, mas de depreender o efeito de sentido que o autor construiu com o diálogo. A palavra-chave é "dificuldade de comunicação" — o foco está no fracasso do ato comunicativo, não na correção gramatical em si.

O texto e seu movimento argumentativo

O conto de Monteiro Lobato, "O colocador de pronomes", é uma crítica bem-humorada ao purismo gramatical. Aldrovando, o "apóstolo" da língua, aborda o ferreiro com uma linguagem extremamente formal e cheia de arcaísmos ("pachorrentamente", "alarve", "paredros", "dislate", "expunjas") para reclamar de um erro de sintaxe na tabuleta "Ferra-se cavalos". O ferreiro, um homem simples, não compreende nada do que ele diz:

"O honesto ferreiro não entendia nada de nada."

A ironia é dupla: primeiro, Aldrovando, que se apresenta como defensor da "sã gramaticalidade", usa uma linguagem tão artificial que impede a comunicação; segundo, o erro que ele aponta ("Ferra-se cavalos") é, na verdade, uma construção gramaticalmente correta — o pronome "se" é partícula apassivadora, e o verbo deveria concordar com o sujeito paciente "cavalos" ("Ferram-se cavalos"). Ou seja, o "defensor da língua" erra ao corrigir, e ainda por cima não consegue explicar seu pedido de forma compreensível.

A técnica que decide a questão

A alternativa correta é a que capta essa ironia: Aldrovando, ao usar a modalidade culta de forma inadequada ao contexto (falar com um ferreiro simples, sobre um assunto prático), acaba exposto ao ridículo. Ele não impõe respeito (alternativa C), não demonstra domínio que facilite a comunicação (alternativa E) — ele simplesmente não é compreendido e sua erudição soa pedante e cômica.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a tendência de romantizar a norma culta. As alternativas C e E apresentam a língua padrão como algo que "impõe respeito" ou que é "necessária para a comunicação eficaz" — mas o texto mostra exatamente o contrário: o uso da norma culta, naquele contexto, impediu a comunicação. A pegadinha é a generalização indevida: o texto critica o uso inadequado, não a norma culta em si.

Análise das alternativas

Crítica ao purismo gramatical
  • 1Uso inadequado da norma culta
    • Aldrovando não se faz entender
    • Erudição vazia vira ridículo
  • 2Linguagem do ferreiro
    • Adequada ao contexto
    • Comunicação eficaz
  • 3Ironia do texto
    • "Defensor da língua" erra ao corrigir
    • Norma culta fora de contexto impede a comunicação
LEVEL · soulevel.com.br

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa afirma que a cena "configura uma crítica ao uso inadequado da modalidade culta da língua, o qual expõe o personagem Aldrovando ao ridículo". Isso é exatamente o que o texto mostra. Aldrovando usa uma linguagem excessivamente formal e arcaica ("pachorrentamente", "alarve", "paredros", "dislate", "expunjas") para falar com um ferreiro simples, e o resultado é o fracasso comunicativo:

"O honesto ferreiro não entendia nada de nada."

O ridículo está em que o "defensor da gramática" não consegue nem explicar o que quer, e ainda comete um erro ao corrigir a tabuleta ("Ferra-se cavalos" é uma construção com voz passiva sintética, e o verbo deveria concordar com "cavalos": "Ferram-se cavalos"). A crítica é ao pedantismo e ao uso da norma culta fora de contexto, não à norma culta em si.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa diz que a cena "caracteriza, pelo uso de diferentes níveis da linguagem, as condições de vida dos personagens, sua procedência e sua classe social". Embora haja, de fato, dois níveis de linguagem (o formal de Aldrovando e o coloquial do ferreiro), o texto não tem como foco caracterizar condições de vida, procedência ou classe social. O foco é a dificuldade de comunicação e a crítica ao purismo. A alternativa tangencia o tema: fala de variação linguística, mas não do que o texto realmente aborda.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que a cena "demonstra como o domínio da modalidade culta pôde funcionar para impor respeito ao personagem Aldrovando". Isso contradiz o texto. Aldrovando não impõe respeito; ele é recebido com incompreensão e o ferreiro "não entendia nada de nada". O domínio da norma culta, naquele contexto, não funcionou para impor respeito — funcionou para criar distanciamento e ridículo. A alternativa inverte o efeito mostrado no texto.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa diz que a cena "denuncia a falta de domínio da língua portuguesa pelos falantes das camadas menos escolarizadas da população, como é o caso do ferreiro". Isso é uma extrapolação com viés de preconceito linguístico. O texto não denuncia a falta de domínio do ferreiro; pelo contrário, o ferreiro é descrito como "honesto" e sua linguagem é perfeitamente adequada ao seu contexto. Quem erra é Aldrovando, que usa a norma culta de forma inadequada e ainda comete um erro gramatical. A alternativa inverte os papéis e atribui ao texto uma crítica que ele não faz.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que a cena "confirma a existência de inúmeras situações na vida prática em que o falante precisa saber usar a língua padrão, caso contrário, pode não haver comunicação eficaz". Isso contradiz o texto. A cena mostra o oposto: foi o uso da língua padrão (de forma inadequada) que impediu a comunicação eficaz. O ferreiro, com sua linguagem simples, entendia tudo; quem não se fez entender foi Aldrovando, com sua erudição. A alternativa generaliza uma ideia (a importância da norma culta) que o texto critica.

Conclusão

A questão testa a capacidade de captar a ironia do texto. A resposta correta é a que reconhece a crítica ao uso inadequado da norma culta, que expõe Aldrovando ao ridículo. As demais alternativas ou contradizem o texto (C e E), ou extrapolam (D), ou tangenciam o tema (B).

PEGA ESSA DICA!

Em questões de interpretação, desconfie de alternativas que romantizam a norma culta ou que culpam o falante menos escolarizado. O texto de Lobato é uma sátira ao purismo — a erudição vazia é o alvo da crítica, não a simplicidade do ferreiro.

Gabarito: letra A

Link permanente: /questoes/ce396616