Questão de Português — Tipos de Discurso (Direto, Indireto e Indireto Livre) — CESPE / CEBRASPE 2023
Português›Tipos de Discurso (Direto, Indireto e Indireto Livre)
Código
ce396622
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
SESI SP
Ano
2023
Cargo
PEB ( )
Deu-se aquilo porque sinhá Vitória não conversou um instante com o menino mais velho. Ele nunca tinha ouvido falar em inferno. Estranhando a linguagem de sinhá Terta, pediu informações. Sinhá Vitória, distraída, aludiu vagamente a certo lugar ruim demais, e como o filho exigisse uma descrição, encolheu os ombros.
O menino foi à sala interrogar o pai, encontrou-o sentado no chão, com as pernas abertas, desenrolando um meio de sola.
— Bota o pé aqui.
A ordem se cumpriu e Fabiano tomou medida da alpercata: deu um traço com a ponta da faca atrás do calcanhar, outro adiante do dedo grande. Riscou em seguida a forma do calçado e bateu palmas:
— Arreda.
O pequeno afastou-se um pouco, mas ficou por ali rondando e timidamente arriscou a pergunta. Não obteve resposta, voltou à cozinha, foi pendurar-se à saia da mãe:
— Como é?
Sinhá Vitória falou em espetos quentes e fogueiras.
— A senhora viu?
Aí sinhá Vitória se zangou, achou-o insolente e aplicou-lhe um cocorote. O menino saiu indignado com a injustiça, atravessou o terreiro, escondeu-se debaixo das catingueiras murchas, à beira da lagoa vazia. (...)
— Inferno, inferno.
Não acreditava que um nome tão bonito servisse para designar coisa ruim. E resolvera discutir com sinhá Vitória. Se ela houvesse dito que tinha ido ao inferno, bem. Sinhá Vitória impunha-se, autoridade visível e poderosa. Se houvesse feito menção de qualquer autoridade invisível e mais poderosa, muito bem. Mas tentara convencê-lo dando-lhe um cocorote, e isto lhe parecia absurdo. Achava as pancadas naturais quando as pessoas grandes se zangavam, pensava até que a zanga delas era a causa única dos cascudos e puxavantes de orelhas. Esta convicção tornava-o desconfiado, fazia-o observar os pais antes de se dirigir a eles.
Graciliano Ramos. Vidas secas. Rio de Janeiro: Record, 2013, p. 21-2.
Texto 11A3
O romance Vidas secas, de Graciliano Ramos, inovou o regionalismo literário com a abordagem psicológica dos personagens, como observado no terceiro e no quarto períodos do último parágrafo do texto 11A3. Acerca desse assunto, assinale a opção que apresenta corretamente os recursos empregados no terceiro e no quarto períodos do último parágrafo do texto 11A3.
AO narrador é o protagonista do episódio; por meio de sua voz, sabe-se dos fatos e das emoções vividas por ele.
BO narrador não faz parte da cena; assim, seu ponto de vista é distanciado, o que favorece a análise crítica dos fatos.
CO narrador onisciente emprega o discurso indireto livre para registrar as reflexões do menino.
DEnquanto o narrador faz uso do padrão formal da linguagem, as falas do personagem, que caracterizam nitidamente o pensamento de um sertanejo, são marcadas pela oralidade regional.
EO protagonista não tem voz; sabe-se dos seus pensamentos por meio do discurso indireto empregado pelo narrador
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GabaritoC — O narrador onisciente emprega o discurso indireto livre para registrar as reflexões do menino.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Discurso indireto livre em Vidas Secas
Gabarito: letra C. A alternativa correta é a que afirma que o narrador onisciente emprega o discurso indireto livre para registrar as reflexões do menino. Isso se prova no trecho final do texto, em que os pensamentos da criança se misturam à narração em 3ª pessoa, sem aspas, travessões ou verbos de elocução — marca típica do discurso indireto livre.
O comando pede que se identifiquem os recursos empregados no terceiro e no quarto períodos do último parágrafo. Esses períodos são: "Não acreditava que um nome tão bonito servisse para designar coisa ruim" e "E resolvera discutir com sinhá Vitória". A tarefa é de interpretação de texto com foco em tipos de discurso: é preciso reconhecer que, nesses trechos, o narrador não apenas relata os fatos, mas incorpora o pensamento da personagem à sua própria voz.
No último parágrafo, o narrador está em 3ª pessoa ("Não acreditava", "resolvera"), mas o conteúdo expresso é a visão do menino — sua incredulidade diante do nome "inferno" e sua decisão de confrontar a mãe. Não há nenhum verbo de elocução (como "pensou" ou "disse") nem sinal de pontuação separando a fala do personagem. É exatamente isso que caracteriza o discurso indireto livre: a fala/pensamento da personagem surge dentro do discurso do narrador, sem marcas formais de separação, e o narrador, sendo onisciente, conhece e transmite as reflexões íntimas da criança.
"Não acreditava que um nome tão bonito servisse para designar coisa ruim. E resolvera discutir com sinhá Vitória."
Aqui, o pronome "Não acreditava" e o verbo "resolvera" estão na 3ª pessoa (discurso do narrador), mas a opinião ("um nome tão bonito") e a intenção ("discutir com sinhá Vitória") são do menino. O narrador se funde à personagem, reproduzindo seu pensamento sem intermediação explícita — a essência do discurso indireto livre.
A técnica para resolver: identifique quem está falando/pensando e como isso é apresentado. Se o pensamento da personagem aparece na 3ª pessoa, sem verbos dicendi e sem pontuação de diálogo, dentro da narração, é discurso indireto livre. As demais alternativas falham porque descrevem outros tipos de discurso ou atribuem ao narrador características que o texto não sustenta.
Recurso
Discurso Indireto Livre (correto)
Discurso Indireto (incorreto)
Verbo de elocução (pensou/disse)
Ausente
Presente
Conjunção integrante (que/se)
Ausente
Presente
Aspas/travessão
Ausentes
Ausentes
Voz do personagem
Fundida à do narrador (3ª pessoa)
Subordinada ao narrador
Exemplo no texto
"Não acreditava que um nome tão bonito..."
"O menino pensou que..."
Discurso indireto livre: Características (3ª pessoa (voz do narrador), Sem verbos de elocução, Sem aspas ou travessão, Sem conjunção integrante); Efeito (Narrador incorpora o pensamento da personagem, Fusão entre narrador e personagem); Exemplo (Vidas Secas) ("Não acreditava que um nome tão bonito...", "E resolvera discutir com sinhá Vitória")
Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que "o narrador é o protagonista do episódio". O texto é narrado em 3ª pessoa ("O menino foi à sala", "Sinhá Vitória falou"), e o protagonista do episódio é o menino, não o narrador. O narrador é observador externo que conhece os pensamentos das personagens, mas não participa da cena. Erro: contradiz o texto — inverte o papel do narrador.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Diz que "o narrador não faz parte da cena; assim, seu ponto de vista é distanciado". Embora o narrador não participe da cena, ele não é distanciado no trecho em questão: ele penetra na mente do menino e revela suas reflexões íntimas ("Não acreditava que um nome tão bonito..."). O ponto de vista é onisciente e próximo, não distanciado. Erro: contradiz o texto — a premissa inicial é verdadeira, mas a conclusão é falsa.
Alternativa C — ✅ Correta
Como demonstrado, o narrador é onisciente (conhece os pensamentos do menino) e emprega o discurso indireto livre, pois as reflexões da criança aparecem na 3ª pessoa, sem marcas de separação, dentro da narração. Correta — é a única que descreve com precisão o recurso utilizado.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Menciona que "as falas do personagem... são marcadas pela oralidade regional". No trecho indicado (terceiro e quarto períodos do último parágrafo), não há fala do personagem — há apenas a narração de seus pensamentos. A oralidade regional aparece em outras partes do texto ("Bota o pé aqui", "Arreda"), mas não nos períodos citados. Erro: tangencia o tema — fala de algo que existe no texto, mas fora do recorte pedido.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Afirma que "o protagonista não tem voz; sabe-se dos seus pensamentos por meio do discurso indireto". No trecho, o menino tem voz — mas uma voz que se manifesta pelo discurso indireto livre, não pelo indireto. No discurso indireto, haveria um verbo de elocução e uma conjunção ("pensou que..."), o que não ocorre. Erro: troca de conceito — confunde discurso indireto com discurso indireto livre.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão clássica entre discurso indireto (com verbo dicendi + conjunção) e discurso indireto livre (sem marcas, fundido à narração). A alternativa E é a mais sedutora porque menciona "pensamentos" e "narrador", mas erra o tipo de discurso.
PEGA ESSA DICA!
Para identificar o discurso indireto livre, pergunte: "há verbo de elocução? há aspas/travessão? há conjunção integrante?" Se a resposta for não para todos, e o pensamento da personagem estiver na 3ª pessoa dentro da narração, é indireto livre.
Gabarito: letra C. A chave da questão está em reconhecer que o narrador onisciente de Vidas secas não apenas relata, mas incorpora as reflexões do menino à sua própria voz, sem qualquer marca formal de separação — a assinatura do discurso indireto livre.