Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2023
- Código
- ce396624
- Banca
- CESPE / CEBRASPE
- Órgão
- SESI SP
- Ano
- 2023
- Cargo
- PEB ( )
Deu-se aquilo porque sinhá Vitória não conversou um instante com o menino mais velho. Ele nunca tinha ouvido falar em inferno. Estranhando a linguagem de sinhá Terta, pediu informações. Sinhá Vitória, distraída, aludiu vagamente a certo lugar ruim demais, e como o filho exigisse uma descrição, encolheu os ombros.
O menino foi à sala interrogar o pai, encontrou-o sentado no chão, com as pernas abertas, desenrolando um meio de sola.
— Bota o pé aqui.
A ordem se cumpriu e Fabiano tomou medida da alpercata: deu um traço com a ponta da faca atrás do calcanhar, outro adiante do dedo grande. Riscou em seguida a forma do calçado e bateu palmas:
— Arreda.
O pequeno afastou-se um pouco, mas ficou por ali rondando e timidamente arriscou a pergunta. Não obteve resposta, voltou à cozinha, foi pendurar-se à saia da mãe:
— Como é?
Sinhá Vitória falou em espetos quentes e fogueiras.
— A senhora viu?
Aí sinhá Vitória se zangou, achou-o insolente e aplicou-lhe um cocorote. O menino saiu indignado com a injustiça, atravessou o terreiro, escondeu-se debaixo das catingueiras murchas, à beira da lagoa vazia. (...)
— Inferno, inferno.
Não acreditava que um nome tão bonito servisse para designar coisa ruim. E resolvera discutir com sinhá Vitória. Se ela houvesse dito que tinha ido ao inferno, bem. Sinhá Vitória impunha-se, autoridade visível e poderosa. Se houvesse feito menção de qualquer autoridade invisível e mais poderosa, muito bem. Mas tentara convencê-lo dando-lhe um cocorote, e isto lhe parecia absurdo. Achava as pancadas naturais quando as pessoas grandes se zangavam, pensava até que a zanga delas era a causa única dos cascudos e puxavantes de orelhas. Esta convicção tornava-o desconfiado, fazia-o observar os pais antes de se dirigir a eles.
Graciliano Ramos. Vidas secas. Rio de Janeiro: Record, 2013, p. 21-2.
Texto 11A3
Conforme o texto 11A3, diante de um signo desconhecido, a palavra “inferno”, o menino procura reunir significante e significado; sua curiosidade, porém, não encontra satisfação porque
- Aele não concorda com sinhá Vitória, prefere manter a sugestão de beleza do significante; mesmo porque, pelas informações da mãe, o signo ficou completo: significante – “inferno”; significado – lugar ruim demais.
- Bsinhá Vitória deixa a pergunta do filho sem resposta, limitando-se a encolher os ombros, porque não é religiosa e não sabe atribuir significado ao significante “inferno”.
- Csinhá Vitória não consegue perceber a relação convencional dos signos com a realidade ou entre as palavras e a realidade; e, por não conseguir explicá-la, irrita-se e dá um cocorote no menino.
- Do repertório de signos da mãe é muito complexo em relação ao do menino, e acontecem ruídos semióticos nas diversas explicações que a mulher adulta oferece à criança inexperiente.
- Eo repertório de signos da mãe é insuficiente para atender ao desejo do menino de ampliar o significado da palavra desconhecida.