Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2023
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce396625
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
SESI SP
Ano
2023
Cargo
PEB ( )
Gaetaninho saiu correndo. Antes de alcançar a bola um bonde o pegou. Pegou e matou.
No bonde vinha o pai de Gaetaninho.
A gurizada assustada espalhou a notícia na noite.
― Sabe o Gaetaninho?
― Que é que tem?
― Amassou o bonde!
A vizinhança limpou com benzina suas roupas domingueiras.
Antônio A Machado. Novelas paulistanas. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1971, p. 13.
Com relação às práticas de leitura em sala de aula, é correto afirmar que o texto precedente é propício para a abordagem da
Aestilística, uma vez que o autor emprega muitas figuras de linguagem para realçar os aspectos trágicos do acontecimento narrado.
Boralidade, porque o acontecimento é narrado em uma linguagem predominantemente informal e coloquial, com expressões da cultura popular.
Cambiguidade, pois faz uso de eufemismos para atenuar um acontecimento trágico por meio do humor.
Dpolifonia, considerando-se que o acontecimento é apresentado pela mistura de várias vozes narrativas.
Emultimodalidade, uma vez que o texto apresenta variantes linguísticas regionais e de época.
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GabaritoB — oralidade, porque o acontecimento é narrado em uma linguagem predominantemente informal e coloquial, com expressões da cultura popular.
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Oralidade e coloquialidade no texto de Antônio de Alcântara Machado
Gabarito: letra B. O texto é propício para a abordagem da oralidade porque a narrativa é construída em linguagem predominantemente informal e coloquial, com marcas típicas da fala popular, como se vê no diálogo entre os meninos e na expressão "Amassou o bonde!". As demais alternativas ou extrapolam o que o texto apresenta ou atribuem a ele características que não possui.
O comando da questão
O enunciado pergunta qual prática de leitura o texto é propício para abordar. Isso não é uma questão de "o que o texto diz", mas de qual aspecto linguístico o texto exemplifica de forma marcante para ser trabalhado em sala de aula. É uma questão de reconhecimento de traços linguísticos e de adequação entre o texto e o conceito teórico.
O texto: uma narrativa curta com forte marca de oralidade
O texto de Antônio de Alcântara Machado narra a morte de Gaetaninho, atropelado por um bonde. A narrativa é extremamente concisa, mas carrega marcas expressivas da linguagem coloquial e popular. O trecho decisivo é o diálogo:
"― Sabe o Gaetaninho? ― Que é que tem? ― Amassou o bonde!"
A expressão "Amassou o bonde" é uma gíria popular para dizer que o menino foi atropelado. Não há registro formal, não há eufemismo, não há construção rebuscada. É a fala direta de crianças da rua, reproduzida com fidelidade. Além disso, o uso de "a gurizada" (termo coloquial para "o grupo de crianças") e a estrutura frasal simples e direta reforçam o caráter informal e oral do texto.
A técnica: identificar a marca linguística dominante
Para resolver, é preciso identificar qual conceito teórico o texto melhor exemplifica. O texto é uma narrativa, mas a questão não pergunta o gênero; pergunta qual prática de leitura (estilística, oralidade, ambiguidade, polifonia, multimodalidade) ele permite abordar. A resposta correta é aquela que encontra sustentação direta em elementos do próprio texto.
Oralidade: o texto reproduz a fala popular, com gírias e construções coloquiais. ✅
Estilística: o texto é econômico em figuras de linguagem; a força está na concisão e na oralidade, não no ornamento estilístico. ❌
Ambiguidade: não há eufemismo nem humor; a morte é narrada de forma seca e direta. ❌
Polifonia: há apenas uma voz narrativa (narrador observador) e uma fala reproduzida; não há "mistura de várias vozes narrativas" no sentido teórico. ❌
Multimodalidade: o texto é exclusivamente verbal; não há imagens, gráficos ou outras linguagens. ❌
Análise das alternativas
Práticas de leitura: Oralidade ✅ (Linguagem informal e coloquial, Gírias ("Amassou o bonde"), Fala popular ("a gurizada")); Estilística ❌ (Texto enxuto, sem acúmulo de figuras); Ambiguidade ❌ (Sem eufemismo nem humor); Polifonia ❌ (Uma só voz narrativa); Multimodalidade ❌ (Texto exclusivamente verbal)
Alternativa A — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que o texto é propício para a abordagem da estilística porque o autor emprega "muitas figuras de linguagem". Isso não se sustenta: o texto é extremamente enxuto e não apresenta um acúmulo de figuras. A expressão "Amassou o bonde" é uma gíria, não uma figura de linguagem elaborada. A alternativa extrapola ao atribuir ao texto uma característica que ele não tem.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa está correta porque o texto é propício para a abordagem da oralidade. A linguagem é predominantemente informal e coloquial, com expressões da cultura popular, como "Amassou o bonde!" e "a gurizada". O diálogo reproduz a fala direta das crianças, e a narrativa é construída com marcas típicas da oralidade. É exatamente esse o traço mais saliente do texto.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que o texto faz uso de eufemismos para atenuar o trágico por meio do humor. Isso contradiz o texto: a morte é narrada de forma seca e direta ("Pegou e matou"), sem qualquer tentativa de suavização. A expressão "Amassou o bonde" é uma gíria, não um eufemismo, e não há humor na narrativa. A alternativa troca o conceito de gíria por eufemismo e inventa um humor inexistente.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa fala em polifonia, definida como a "mistura de várias vozes narrativas". No texto, há um narrador observador em terceira pessoa e a reprodução de uma fala em discurso direto. Não há múltiplas vozes narrativas que se alternem ou se confrontem. A alternativa extrapola ao aplicar um conceito teórico que não encontra correspondência no texto.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa menciona multimodalidade, que envolve a combinação de diferentes linguagens (verbal, visual, sonora etc.). O texto é exclusivamente verbal, sem imagens, gráficos ou qualquer outro recurso multimodal. A alternativa tangencia o tema ao falar de "variantes linguísticas regionais e de época", que não configuram multimodalidade.
Fechamento
A questão testa a capacidade de reconhecer o traço linguístico dominante de um texto. A alternativa correta é aquela que encontra sustentação direta no texto, sem exigir que o leitor acrescente informações externas. A oralidade é a marca mais evidente, expressa na gíria "Amassou o bonde" e no tom coloquial da narrativa.
PEGA ESSA DICA!
Ao identificar a "prática de leitura" que um texto permite abordar, procure o traço mais saliente do texto. Pergunte: "O que salta aos olhos?" Se é a fala popular, é oralidade; se são imagens, é multimodalidade; se são figuras, é estilística. A resposta mora no texto, não na teoria.