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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce396630
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
UnB
Ano
2023
Cargo
Vest ( )

A descoberta da surdez


A lembrança é clara, mesmo que tenham se passado 25 anos. No apartamento em que morávamos, havia um corredor em formato de “S”, pelo qual eu adorava correr. Numa tarde, lembro-me de encostar a cabeça na parede e chamar a minha mãe, gritando: “Mãe, tem um apito no meu ouvido”. É a memória mais antiga da minha surdez. Convivo com o tinnitus aureum desde criancinha — naquela época, jamais imaginávamos que era um sintoma de perda auditiva.


Não lembro minha idade exata quando comecei a frequentar otorrinolaringologistas. Tive muitas otites. Passei inúmeras tardes ensolaradas da minha infância deitada em cima da cama esperando que algum remédio fizesse efeito, com os ouvidos tampados com algodão. Toda ida à piscina acabava, invariavelmente, em dor de ouvido. Lembro-me de uma tia-avó que às vezes comentava com minha mãe e minha avó que desconfiava que eu não ouvia bem. As duas sempre retrucavam: “Imagina, que bobagem!”. Quando penso nessa tia, lembro-me do seu olhar intrigado toda vez que eu repetia a palavrinha mágica daqueles que não escutam direito: “Hã?”. Para ela, eu falava “Hã?” demais, mas, como eu tinha uma voz perfeita, ouvia muita coisa e conversava normalmente, era mais fácil pensar que eu era distraída.


Paula Pfeifer. Crônicas da surdez.
2.ª ed. São Paulo: Plexus Editora, 2020 (com adaptações).

Texto

   

Julgue o item seguinte, relativo às ideias e aos aspectos linguísticos do texto precedente.


De acordo com o texto, a distração da narradora-personagem foi a causa do surgimento das primeiras desconfianças na sua família acerca de uma possível surdez dela.

  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A distração como causa da desconfiança familiar

Gabarito: ERRADO. O item afirma que a distração da narradora foi a causa do surgimento das primeiras desconfianças na família sobre uma possível surdez. O texto, porém, mostra o contrário: a desconfiança nasceu da observação da tia-avó sobre os repetidos “Hã?” da menina, e a distração era apenas a explicação que a família dava para esse comportamento, não a causa da suspeita. Como se lê no segundo parágrafo: “Para ela, eu falava ‘Hã?’ demais, mas, como eu tinha uma voz perfeita, ouvia muita coisa e conversava normalmente, era mais fácil pensar que eu era distraída.”

O comando da questão

O enunciado pede um julgamento Certo/Errado sobre uma afirmação relativa às ideias do texto. Isso é uma questão de compreensão (recorrência): a resposta deve estar explícita ou ser uma paráfrase fiel do que está escrito. Não se trata de inferir algo além do texto, mas de verificar se a afirmação do item corresponde ao que o autor realmente disse. Aqui, o item distorce a relação de causa e consequência apresentada no texto.

O texto e a relação de causa e consequência

O texto narra a descoberta da surdez da autora. No segundo parágrafo, ela relata que a tia-avó desconfiava que ela não ouvia bem, pois ela repetia muito a palavra “Hã?”. A família, porém, rejeitava essa suspeita: “As duas sempre retrucavam: ‘Imagina, que bobagem!’”. A justificativa para não levar a sério a observação da tia era a aparência de normalidade da menina: “como eu tinha uma voz perfeita, ouvia muita coisa e conversava normalmente, era mais fácil pensar que eu era distraída”. Ou seja, a distração era a explicação que a família dava para o comportamento, não a causa da desconfiança. A desconfiança foi despertada pela repetição do “Hã?”, percebida pela tia-avó.

A técnica que decide

Em questões de compreensão, o candidato deve localizar no texto a informação e verificar se a alternativa a reproduz fielmente. Aqui, o item inverte a relação: transforma a explicação (distração) em causa (da desconfiança). Essa é uma armadilha clássica de troca de vocábulo (ou de relação lógica): o texto diz que a distração era a desculpa para não se considerar a surdez; o item diz que a distração foi o que gerou a desconfiança. A banca explora a confusão entre causa e consequência.

NÃO CAIA NESSA!

A banca inverte a relação de causa e consequência. O texto diz que a distração era a explicação dada pela família para o comportamento da menina, não a causa da desconfiança. A desconfiança surgiu da observação da tia-avó sobre os “Hã?” repetidos.

Análise do item

Item — ❌ ERRADO

A afirmação “a distração da narradora-personagem foi a causa do surgimento das primeiras desconfianças na sua família acerca de uma possível surdez dela” contradiz o texto. O texto afirma que a tia-avó desconfiava porque a menina falava “Hã?” demais, e que a família preferia acreditar que ela era apenas distraída. Veja o trecho decisivo:

“Para ela, eu falava ‘Hã?’ demais, mas, como eu tinha uma voz perfeita, ouvia muita coisa e conversava normalmente, era mais fácil pensar que eu era distraída.”

Aqui, a distração é apresentada como a justificativa para não se considerar a surdez, e não como a causa da desconfiança. A desconfiança foi despertada pela repetição do “Hã?”, percebida pela tia-avó. Portanto, o item inverte a relação de causa e consequência, cometendo o erro de contradizer o texto.

Conclusão

A questão exige atenção à relação de causa e consequência estabelecida no texto. O item erra ao transformar a explicação (distração) em causa (da desconfiança). A resposta correta é ERRADO, pois o texto não sustenta a afirmação.

Gabarito: ERRADO

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