Inferência textual: o olhar intrigado da tia-avó
Gabarito: CERTO. O item está correto porque o texto autoriza a inferência de que o “olhar intrigado” da tia-avó manifestava sua desconfiança quanto à capacidade auditiva da narradora. A passagem decisiva é: “Lembro-me de uma tia-avó que às vezes comentava com minha mãe e minha avó que desconfiava que eu não ouvia bem.” Essa frase estabelece, explicitamente, que a tia-avó desconfiava da audição da menina. Logo, o olhar intrigado — descrito logo em seguida — é a manifestação não verbal dessa mesma desconfiança. A inferência é legítima porque se ancora em uma pista textual clara, e não em suposição externa.
O comando: inferência, não recorrência
O enunciado usa o verbo “infere-se”, o que muda completamente a estratégia de resolução. Em questões de compreensão/recorrência, a resposta está literal ou parafraseada no texto; em questões de inferência, a resposta é uma dedução ancorada em pistas que o texto oferece. Aqui, a banca não pede que você localize uma frase pronta, mas que conclua algo a partir de indícios. A inferência só é válida se houver um pressuposto — uma marca linguística que sustente a dedução. Sem essa pista, a alternativa seria extrapolação.
O texto: a desconfiança da tia-avó
O texto é uma crônica narrativa em primeira pessoa, na qual a autora relembra a descoberta de sua surdez. No segundo parágrafo, ela relata que a tia-avó “às vezes comentava com minha mãe e minha avó que desconfiava que eu não ouvia bem”. Essa é a tese do trecho: a tia-avó suspeitava de um problema auditivo. Em seguida, a narradora descreve o olhar da tia: “lembro-me do seu olhar intrigado toda vez que eu repetia a palavrinha mágica daqueles que não escutam direito: ‘Hã?’”. O olhar intrigado é a reação não verbal à repetição do “Hã?”, que é justamente o sinal de que a menina não ouvia bem. A conexão entre o olhar e a desconfiança é direta: a tia já verbalizara sua suspeita, e o olhar é a expressão dessa suspeita diante de um comportamento que a confirmava.
A técnica: inferência com pista vs. extrapolação
A inferência legítima exige que a conclusão seja obrigatória a partir das pistas. No caso, a pista é dupla: (1) a tia-avó desconfiava da audição da menina; (2) o olhar intrigado ocorria toda vez que a menina dizia “Hã?” — a “palavrinha mágica daqueles que não escutam direito”. A expressão “palavrinha mágica” é irônica e reforça que o “Hã?” era um indício claro de dificuldade auditiva. Portanto, o olhar intrigado só pode ser a manifestação da desconfiança já declarada. Não há outra leitura plausível: o texto não sugere que o olhar expressasse curiosidade, admiração ou qualquer outro sentimento. A dedução é ancorada e, por isso, correta.
“Lembro-me de uma tia-avó que às vezes comentava com minha mãe e minha avó que desconfiava que eu não ouvia bem.”
Essa passagem é a âncora. Ela prova que a tia-avó já tinha a desconfiança. O olhar intrigado, descrito no mesmo parágrafo, é a expressão dessa desconfiança diante do comportamento da menina. A inferência não acrescenta nada de fora: apenas conecta dois elementos que o texto já apresenta.
Por que as distratoras falham
Nesta questão, não há alternativas A, B, D, E — apenas C (Certo) e E (Errado). O item é uma assertiva única. A distratora seria a opção Errado, que falharia por contradizer o texto: ela negaria uma inferência que o texto sustenta. Quem marcasse Errado estaria ignorando a pista explícita da desconfiança da tia-avó e tratando o olhar como mera expressão facial sem significado, o que contraria a sequência narrativa.
Conclusão
A assertiva está correta porque a inferência é obrigatória a partir das pistas textuais. A tia-avó desconfiava da audição da menina, e o olhar intrigado diante do “Hã?” é a manifestação dessa desconfiança. Não há extrapolação: a dedução está ancorada no texto. Gabarito: CERTO.