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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce396632
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
UnB
Ano
2023
Cargo
Vest ( )

A descoberta da surdez


A lembrança é clara, mesmo que tenham se passado 25 anos. No apartamento em que morávamos, havia um corredor em formato de “S”, pelo qual eu adorava correr. Numa tarde, lembro-me de encostar a cabeça na parede e chamar a minha mãe, gritando: “Mãe, tem um apito no meu ouvido”. É a memória mais antiga da minha surdez. Convivo com o tinnitus aureum desde criancinha — naquela época, jamais imaginávamos que era um sintoma de perda auditiva.


Não lembro minha idade exata quando comecei a frequentar otorrinolaringologistas. Tive muitas otites. Passei inúmeras tardes ensolaradas da minha infância deitada em cima da cama esperando que algum remédio fizesse efeito, com os ouvidos tampados com algodão. Toda ida à piscina acabava, invariavelmente, em dor de ouvido. Lembro-me de uma tia-avó que às vezes comentava com minha mãe e minha avó que desconfiava que eu não ouvia bem. As duas sempre retrucavam: “Imagina, que bobagem!”. Quando penso nessa tia, lembro-me do seu olhar intrigado toda vez que eu repetia a palavrinha mágica daqueles que não escutam direito: “Hã?”. Para ela, eu falava “Hã?” demais, mas, como eu tinha uma voz perfeita, ouvia muita coisa e conversava normalmente, era mais fácil pensar que eu era distraída.


Paula Pfeifer. Crônicas da surdez.
2.ª ed. São Paulo: Plexus Editora, 2020 (com adaptações).

Texto

   

Julgue o item seguinte, relativo às ideias e aos aspectos linguísticos do texto precedente.


Infere-se do texto que o “olhar intrigado” da tia-avó manifestava a sua desconfiança em relação à capacidade auditiva da sobrinha-neta, narradora do texto.

  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Certo

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Inferência textual: o olhar intrigado da tia-avó

Gabarito: CERTO. O item está correto porque o texto autoriza a inferência de que o “olhar intrigado” da tia-avó manifestava sua desconfiança quanto à capacidade auditiva da narradora. A passagem decisiva é: “Lembro-me de uma tia-avó que às vezes comentava com minha mãe e minha avó que desconfiava que eu não ouvia bem.” Essa frase estabelece, explicitamente, que a tia-avó desconfiava da audição da menina. Logo, o olhar intrigado — descrito logo em seguida — é a manifestação não verbal dessa mesma desconfiança. A inferência é legítima porque se ancora em uma pista textual clara, e não em suposição externa.

O comando: inferência, não recorrência

O enunciado usa o verbo “infere-se”, o que muda completamente a estratégia de resolução. Em questões de compreensão/recorrência, a resposta está literal ou parafraseada no texto; em questões de inferência, a resposta é uma dedução ancorada em pistas que o texto oferece. Aqui, a banca não pede que você localize uma frase pronta, mas que conclua algo a partir de indícios. A inferência só é válida se houver um pressuposto — uma marca linguística que sustente a dedução. Sem essa pista, a alternativa seria extrapolação.

O texto: a desconfiança da tia-avó

O texto é uma crônica narrativa em primeira pessoa, na qual a autora relembra a descoberta de sua surdez. No segundo parágrafo, ela relata que a tia-avó “às vezes comentava com minha mãe e minha avó que desconfiava que eu não ouvia bem”. Essa é a tese do trecho: a tia-avó suspeitava de um problema auditivo. Em seguida, a narradora descreve o olhar da tia: “lembro-me do seu olhar intrigado toda vez que eu repetia a palavrinha mágica daqueles que não escutam direito: ‘Hã?’”. O olhar intrigado é a reação não verbal à repetição do “Hã?”, que é justamente o sinal de que a menina não ouvia bem. A conexão entre o olhar e a desconfiança é direta: a tia já verbalizara sua suspeita, e o olhar é a expressão dessa suspeita diante de um comportamento que a confirmava.

A técnica: inferência com pista vs. extrapolação

A inferência legítima exige que a conclusão seja obrigatória a partir das pistas. No caso, a pista é dupla: (1) a tia-avó desconfiava da audição da menina; (2) o olhar intrigado ocorria toda vez que a menina dizia “Hã?” — a “palavrinha mágica daqueles que não escutam direito”. A expressão “palavrinha mágica” é irônica e reforça que o “Hã?” era um indício claro de dificuldade auditiva. Portanto, o olhar intrigado só pode ser a manifestação da desconfiança já declarada. Não há outra leitura plausível: o texto não sugere que o olhar expressasse curiosidade, admiração ou qualquer outro sentimento. A dedução é ancorada e, por isso, correta.

“Lembro-me de uma tia-avó que às vezes comentava com minha mãe e minha avó que desconfiava que eu não ouvia bem.”

Essa passagem é a âncora. Ela prova que a tia-avó já tinha a desconfiança. O olhar intrigado, descrito no mesmo parágrafo, é a expressão dessa desconfiança diante do comportamento da menina. A inferência não acrescenta nada de fora: apenas conecta dois elementos que o texto já apresenta.

Por que as distratoras falham

Nesta questão, não há alternativas A, B, D, E — apenas C (Certo) e E (Errado). O item é uma assertiva única. A distratora seria a opção Errado, que falharia por contradizer o texto: ela negaria uma inferência que o texto sustenta. Quem marcasse Errado estaria ignorando a pista explícita da desconfiança da tia-avó e tratando o olhar como mera expressão facial sem significado, o que contraria a sequência narrativa.

Conclusão

A assertiva está correta porque a inferência é obrigatória a partir das pistas textuais. A tia-avó desconfiava da audição da menina, e o olhar intrigado diante do “Hã?” é a manifestação dessa desconfiança. Não há extrapolação: a dedução está ancorada no texto. Gabarito: CERTO.

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