Questão de Português — Figuras de Linguagem — CESPE / CEBRASPE 2023
Português›Figuras de Linguagem
Código
ce396659
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
UnB
Ano
2023
Cargo
Vest ( )
Foto: Fabrice Monteiro. A máscara de folha-de-flandres.
Internet: <avozdaserra.com.br>.
A escravidão levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais. Não cito alguns aparelhos senão por se ligarem a certo ofício. Um deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha-de-flandres. A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca. Tinha só três buracos, dois para ver, um para respirar, e era fechada atrás da cabeça por um cadeado. Com o vício de beber, perdiam a tentação de furtar, porque geralmente era dos vinténs do senhor que eles tiravam com que matar a sede, e aí ficavam dois pecados extintos, e a sobriedade e a honestidade certas. Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, à venda, na porta das lojas. Mas não cuidemos de máscaras.
Machado de Assis. Pai contra mãe.
In: Machado de Assis: Obra completa em quatro volumes.
Vol. 2. São Paulo: Editora Nova Aguilar, 2015 (com adaptações).
Considerando o trecho precedente, do conto Pai contra mãe, escrito por Machado de Assis em 1906, julgue o item a seguir.
Figura de linguagem constante do trecho do texto precedente, a ironia confere à narrativa a ambiguidade garantidora do seu caráter realista, ao contrapor a crueldade à naturalização que configurava o instituto legal da escravidão no Brasil.
CCerto
EErrado
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GabaritoC — Certo
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Ironia e ambiguidade no trecho de "Pai contra mãe"
Gabarito: CERTO (letra C). A afirmação está correta: o trecho apresenta ironia, e essa ironia, ao contrapor a crueldade da escravidão à naturalização com que o narrador a descreve, confere à narrativa a ambiguidade que sustenta seu caráter realista. A passagem que ancora essa leitura é a que descreve a máscara como algo "grotesco", mas necessária à "ordem social e humana":
"Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel."
A ironia está exatamente aí: o narrador chama de "ordem social e humana" aquilo que é desumano e cruel, dizendo o contrário do que se quer significar. Essa contradição entre o que se diz e o que se quer dizer gera a ambiguidade — a dupla leitura — que o item corretamente atribui ao realismo machadiano.
O comando da questão
O item pede um julgamento (Certo/Errado) sobre uma interpretação do texto. Não se trata de localizar uma informação explícita, mas de depreender o efeito de sentido produzido pela figura de linguagem. A banca afirma que (1) há ironia no trecho, (2) essa ironia gera ambiguidade, (3) essa ambiguidade garante o caráter realista, (4) ao contrapor crueldade e naturalização. Para julgar, é preciso verificar cada um desses pontos no texto — e todos se sustentam.
A ironia e a ambiguidade no trecho
A ironia (ou antífrase) consiste em dizer o contrário do que se pretende. No trecho, o narrador descreve um instrumento de tortura — a máscara de folha-de-flandres que impedia o escravo de beber — e o faz com um tom de naturalidade e até de elogio à "ordem social e humana". O leitor percebe que essa "ordem" é, na verdade, a desumanização do escravo. Essa dissonância entre o que o narrador diz e o que o leitor entende é a ambiguidade: o texto permite duas leituras — a literal (a máscara é um instrumento que "corrige" vícios) e a irônica (a máscara é um instrumento de crueldade).
A naturalização está na forma como o narrador trata o assunto: "A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca". A crueldade está no próprio objeto e no que ele representa. A ironia une esses dois polos, criando a ambiguidade que o item descreve.
A técnica que decide
Para resolver, pergunte: o texto autoriza a afirmação de que há ironia e ambiguidade? Sim. A ironia é explícita no trecho "Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel" — o narrador chama de "ordem social e humana" algo que é desumano. A ambiguidade é consequência dessa ironia: o leitor oscila entre a leitura literal e a irônica. E o realismo, escola literária de Machado, caracteriza-se justamente por essa representação crítica e ambígua da realidade, sem idealizações.
NÃO CAIA NESSA!
A banca não pergunta se o trecho é irônico (isso é evidente), mas se a ironia gera ambiguidade e se essa ambiguidade é realista. O candidato que não percebe a relação entre ironia → ambiguidade → realismo pode marcar errado, achando que a afirmação é complexa demais. Mas tudo está no texto.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de figura de linguagem, identifique primeiro a figura (ironia = dizer o contrário) e depois o efeito que ela produz no texto (ambiguidade = dupla leitura). A resposta está sempre no efeito, não na definição decorada.
Conclusão
O item está correto porque o trecho apresenta ironia (o narrador chama de "ordem social e humana" o que é cruel), e essa ironia gera ambiguidade (dupla leitura), que é característica do realismo machadiano. A afirmação da banca é uma interpretação legítima e ancorada no texto.