Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2023
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce396660
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
UnB
Ano
2023
Cargo
Vest ( )
Foto: Fabrice Monteiro. A máscara de folha-de-flandres.
Internet: <avozdaserra.com.br>.
A escravidão levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais. Não cito alguns aparelhos senão por se ligarem a certo ofício. Um deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha-de-flandres. A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca. Tinha só três buracos, dois para ver, um para respirar, e era fechada atrás da cabeça por um cadeado. Com o vício de beber, perdiam a tentação de furtar, porque geralmente era dos vinténs do senhor que eles tiravam com que matar a sede, e aí ficavam dois pecados extintos, e a sobriedade e a honestidade certas. Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, à venda, na porta das lojas. Mas não cuidemos de máscaras.
Machado de Assis. Pai contra mãe.
In: Machado de Assis: Obra completa em quatro volumes.
Vol. 2. São Paulo: Editora Nova Aguilar, 2015 (com adaptações).
Considerando o trecho precedente, do conto Pai contra mãe, escrito por Machado de Assis em 1906, julgue o item a seguir.
Em “Mas não cuidemos de máscaras”, o autor expressa, de forma crítica, o desinteresse da literatura brasileira pela problematização da escravização, ausente tanto no Romantismo de Castro Alves ou de Bernardo Guimarães quanto no Realismo de Machado de Assis.
CCerto
EErrado
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GabaritoE — Errado
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A máscara de folha-de-flandres e a crítica à escravidão
Gabarito: ERRADO. A afirmação de que, em “Mas não cuidemos de máscaras”, o autor expressa o desinteresse da literatura brasileira pela problematização da escravização é incorreta porque o trecho faz exatamente o oposto: ele denuncia a crueldade da escravidão ao descrever o aparelho de tortura, e a frase final é uma ironia — o narrador diz que não vai tratar do assunto, mas acabou de tratá-lo de forma contundente. Além disso, a assertiva extrapola ao afirmar que a escravidão está ausente no Romantismo de Castro Alves e no Realismo de Machado de Assis, o que contradiz a própria obra do autor, que aborda o tema em diversos contos e romances.
O comando pede uma interpretação (inferência) a partir do trecho. Isso significa que a resposta não está literal, mas deve ser deduzida com base em pistas do texto — e nunca além delas. A banca, aqui, comete o erro clássico de extrapolar: ela parte de uma leitura superficial da frase final e acrescenta informações que não estão no texto, como a suposta ausência do tema na literatura brasileira.
O texto descreve a máscara de folha-de-flandres, um instrumento de tortura usado para impedir que os escravos bebessem. A descrição é objetiva e cruel: “Tinha só três buracos, dois para ver, um para respirar, e era fechada atrás da cabeça por um cadeado”. O narrador ainda ironiza: “Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel”. Essa ironia é a chave: o autor critica a escravidão, não a ignora.
A frase “Mas não cuidemos de máscaras” é uma quebra de expectativa — o narrador finge encerrar o assunto, mas o leitor percebe que ele acabou de expor a violência do sistema escravocrata. É uma ironia típica de Machado de Assis, que usa o subentendido para criticar. Portanto, a leitura correta é a contrária à da assertiva: o trecho problematiza a escravidão, não a omite.
A assertiva também comete um erro factual: afirma que a escravidão está ausente no Romantismo de Castro Alves e no Realismo de Machado de Assis. Ora, Castro Alves é conhecido como o “poeta dos escravos”, com obras como Navio Negreiro e Vozes d'África, que denunciam a escravidão. E o próprio Machado de Assis, no conto Pai contra mãe, do qual este trecho faz parte, aborda diretamente a escravidão e suas violências. A banca, portanto, contradiz o conhecimento histórico-literário mais elementar.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa C (Certo) é incorreta porque a afirmação que ela valida é falsa. O trecho não expressa desinteresse pela escravidão; ao contrário, ele a denuncia por meio da descrição do instrumento de tortura e da ironia. A frase “Mas não cuidemos de máscaras” é uma ironia — o narrador diz que não vai tratar do assunto, mas acabou de tratá-lo de forma contundente. Além disso, a assertiva extrapola ao afirmar que a escravidão está ausente na literatura brasileira, o que não é dito no texto e contradiz a própria obra de Machado.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa E (Errado) é a correta, pois a afirmação é falsa. O texto problematiza a escravidão, não a omite. A descrição da máscara e a ironia final são recursos de crítica social. A assertiva também extrapola ao generalizar sobre a literatura brasileira, o que não está no texto. Portanto, o item deve ser julgado ERRADO.
NÃO CAIA NESSA!
A banca extrapola ao atribuir ao trecho uma crítica à literatura brasileira que não está no texto, e ainda contradiz a própria obra de Machado ao afirmar que a escravidão está ausente no Realismo.
PEGA ESSA DICA!
Desconfie de afirmações que generalizam (“ausente tanto no Romantismo... quanto no Realismo”) — elas quase sempre extrapolam o que o texto diz. E lembre-se: ironia é uma figura de linguagem em que se diz o contrário do que se quer significar; aqui, “não cuidemos de máscaras” significa exatamente o oposto.