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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce396665
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
UnB
Ano
2023
Cargo
Vest ( )

Imagem associada para resolução da questão

 

Internet: <enfoquemultimedia.com/>.

 

Beethoven

 

Meu caro Luís, que vens fazer nesta hora
de antimúsica pelo mundo afora?

 

Patética, heroica, pastoral ou trágica,
tua voz é sempre um grito modulado,
um caminho lunar conduzindo à alegria.
Ao não-rumor tiraste a percepção mais íntima
do coração da Terra, que era o teu
Urso-maior uivando a solidão
aberta em cântico (...)

 

Nós, os surdos, não captamos
o amor doado em sinfonia, a paz
em allegro enérgico sobre o caos,
que nos ofertas do fundo
do teu mundo clausurado.
Nós, computadores, não programamos
a exaltação romântica filtrada
em sonatino adágio murmurante.

 

Nós, guerreiros nucleares, não isolamos
o núcleo de paixão de onde se espraia
pela praia infinita essa abstrata
superação do tempo e do destino
que é razão de viver, razão florente
e grave.

 

Tanto mais liberto quanto mais
em tua concha não acústica cerrado
livre da corte da contingência, do barroco,
erguendo o sentimento à culminância
da divina explosão, que purifica
o resíduo mortal, a angústia mísera,
que vens fazer, do longe de dois séculos,
escuro Luís, Luís luminoso
em nosso tempo de compromisso e omisso?

 

Do fogo em que te queimaste,
Uma faísca resta para incendiar
corações maconhados, sonolentos,
servos da alienação e da aparência?

 

Quem comporá a Apassionata do nosso tempo,
quem removerá as cinzas, despertará a brasa
quem reinventará o amor, as penas de amor,
quem sacudirá os homens do seu torpor?

 

Boto no pickup o teu mar de música,
Nele me afogo acima das estrelas.

 

Carlos Drummond de Andrade. Beethoven. In: Carlos Drummond de Andrade.
Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1983 (com adaptações).

 

Vocabulário:

 

Luís: tradução de Ludwig, primeiro nome de Beethoven, para o português. Patética, heroica, pastoral: referência aos títulos de três composições Beethoven: “Sonata N.º 8” ou “Sonata Patética”, de 1799; “Sinfonia N.º 3” ou “Heroica”, de 1803; “Sinfonia N.º 6” ou “Pastoral”, de 1808.

 

caminho lunar: referência à célebre “Sonata ao Luar” ou “Sonata N.º 14”, composta por Beethoven em 1801.

 

não-rumor: sem ruído; silêncio.

 

Urso-maior: grande e famosa constelação do hemisfério celestial norte.


allegro: significa alegre, em italiano, e dá nome a um andamento musical leve e ligeiro nas composições clássicas.


clausurado: fechado; encerrado; isolado; distante da convivência social.


sonatino: sonata breve e ligeira.


adágio: trecho musical de andamento vagaroso no interior de uma composição clássica com vários movimentos, de caráter e andamento diversos, mas relacionados tonalmente.


espraia: estende-se pelas praias ou margens; derrama-se; espalha-se, irradia-se.


florente: florescente; brilhante; favorável; exitosa.


grave: séria; nobre; solene.


cerrado: fechado.


livre da corte da contingência: livre da sedução das circunstâncias.


Apassionata: em português, “Apaixonada”; título da “Sonata N.º 23”, composição musical de Beethoven para piano, composta em 1806.


pickup: vitrola ou radiola antiga em que se tocavam discos.

A partir do poema precedente, escrito por Carlos Drummond de Andrade, em 1973, para o compositor Ludwig van Beethoven (1770-1827), que, mesmo tendo se tornado surdo em função de uma enfermidade degenerativa aos 26 anos de idade, continuou compondo peças musicais até a sua morte, julgue o item seguinte.   Depreende-se da pergunta dirigida ao compositor pelo poeta, nos versos “Uma faísca resta para incendiar/corações maconhados, sonolentos,/servos da alienação e da aparência?”, constantes da sexta estrofe, que, para o eu lírico, a função essencial da arte é despertar a consciência humana para a essência real da vida.
  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoC — Certo

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Inferência sobre a função da arte no poema "Beethoven"

Gabarito: Certo (C). A pergunta do eu lírico na sexta estrofe — "Uma faísca resta para incendiar / corações maconhados, sonolentos, / servos da alienação e da aparência?" — implica que a arte (a música de Beethoven) tem a função de despertar a consciência humana, tirando as pessoas do estado de alienação e torpor. Essa inferência é autorizada pelo próprio texto, que contrapõe a "faísca" da arte ao estado de "corações maconhados, sonolentos, servos da alienação e da aparência".

O comando pede que se depreenda (inferência) algo da pergunta dirigida ao compositor. Não se trata de localizar uma informação explícita, mas de extrair uma conclusão a partir das pistas textuais. A inferência é legítima porque o texto obriga a essa leitura: a pergunta retórica não é neutra — ela carrega uma crítica à alienação e uma valorização da arte como força transformadora.

No poema, o eu lírico se dirige a Beethoven, que mesmo surdo compôs obras que expressam "a exaltação romântica", "o núcleo de paixão" e a "superação do tempo e do destino". A arte de Beethoven é apresentada como algo que "purifica o resíduo mortal, a angústia mísera" e que pode "incendiar corações" adormecidos. A pergunta da sexta estrofe, portanto, sugere que a função essencial da arte é despertar a consciência para a essência real da vida, em oposição à "alienação e da aparência".

A alternativa está correta porque a inferência é diretamente sustentada pelo texto. A expressão "corações maconhados, sonolentos" metaforiza pessoas entorpecidas, e "servos da alienação e da aparência" indica submissão a uma vida superficial. A "faísca" que resta do fogo em que Beethoven se queimou (sua música) é o que pode incendiar esses corações, ou seja, despertá-los. Não há extrapolação: o texto não diz que a arte é a única função, mas a pergunta retórica deixa claro que essa é uma função essencial.

"Uma faísca resta para incendiar / corações maconhados, sonolentos, / servos da alienação e da aparência?"

Aqui, "incendiar" é metáfora de despertar, e "corações maconhados, sonolentos" são pessoas alienadas. A pergunta retórica implica que a arte pode (e deve) despertar essas pessoas. O eu lírico não pergunta se a arte serve para entreter, mas se ela ainda tem o poder de transformar a consciência. Isso autoriza a inferência de que a função essencial da arte é despertar a consciência humana para a essência real da vida.

A alternativa Errado seria uma distração para quem não percebe a carga semântica das expressões. Quem marca Errado provavelmente entende a pergunta como mera retórica sem conteúdo propositivo, ou acha que o texto não afirma explicitamente essa função. Mas a inferência é válida porque o texto fornece pistas suficientes: a oposição entre "faísca" (arte) e "corações maconhados" (alienação) e a referência à "alienação e da aparência" como algo negativo.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de inferência, pergunte-se: "o texto me obriga a concluir isso?" Se a conclusão é a única leitura plausível das pistas, está correta. Desconfie de alternativas que acrescentam ideias de fora do texto.

Conclusão: A inferência é legítima e ancorada no texto. A pergunta retórica do eu lírico, ao contrapor a "faísca" da arte aos "corações maconhados, sonolentos, servos da alienação e da aparência", implica que a função essencial da arte é despertar a consciência humana. Portanto, o item está Certo.

Gabarito: C (Certo).

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