Questão de Português — Tipologia e Gênero Textual — CESPE / CEBRASPE 2023
Português›Tipologia e Gênero Textual
Código
ce396669
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
UnB
Ano
2023
Cargo
Vest ( )
Não se deveria dizer “consumir cultura”. Em vez de “consumir música” ou “consumir teatro”, deveríamos voltar a dizer “ouvir música”, “assistir ao teatro”, e assim por diante.
Na Roma antiga, “consumir” tinha o sentido exclusivo de gastar e destruir. Com o tempo, passou-se a empregar o termo referindo-se ao consumo de alimentos, o que não deixa de ser uma destruição: destruímos os alimentos ao comê-los, para nos mantermos vivos e saudáveis. Já que, para comê-los, é preciso primeiro comprá-los, consumir tornou-se sinônimo de comprar, adquirir. E, na sociedade em que vivemos, em que tudo, inclusive a cultura, virou produto, não é estranho pensar em consumir música, teatro, dança, livros etc.
Em tempos em que o consumismo domina as relações sociais e em que há uma forte reação contra ele por parte de setores mais esclarecidos da sociedade, falar em consumir cultura pode soar mercantilista. Quem consome não frui, e a cultura deveria ser, antes de tudo, fruição.
Aldo Bizzocchi. Cultura é artigo de consumo? Internet: <www.diariodeumlinguista.com> (com adaptações).
No que se refere aos sentidos e aos aspectos linguísticos do texto precedente, julgue o item e faça o que se pede no item, que é do tipo C.
Em relação à tipologia textual, o parágrafo do texto é predominantemente
AA argumentativo.
Bdescritivo.
Cinformativo.
Dnarrativo.
Revelar gabarito e comentário▾
GabaritoC — informativo.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Tipologia textual: o parágrafo é argumentativo ou informativo?
Gabarito: letra C (informativo). O parágrafo do texto é predominantemente informativo porque o autor expõe e explica a evolução do sentido da palavra "consumir" — da Roma antiga até a sociedade atual — sem defender uma tese nem tentar convencer o leitor. A passagem que ancora essa leitura é o trecho em que se narra a mudança semântica:
"Na Roma antiga, 'consumir' tinha o sentido exclusivo de gastar e destruir. Com o tempo, passou-se a empregar o termo referindo-se ao consumo de alimentos... consumir tornou-se sinônimo de comprar, adquirir."
O autor informa como o sentido mudou e por que hoje se fala em "consumir cultura", mas não argumenta — não há tese, opinião ou tentativa de persuasão nesse parágrafo específico. A alternativa A (argumentativo) é a grande pegadinha: ela confunde o tema (cultura como produto) com a intenção do parágrafo, que é meramente expositiva.
O comando da questão
A questão pede para julgar a tipologia textual predominante do parágrafo. Isso é uma questão de classificação de texto pela intenção comunicativa, não de interpretação de conteúdo. O comando "julgue o item" indica que devemos analisar a estrutura e o propósito do parágrafo, não o que ele diz sobre cultura.
O texto: tema, tese e movimento argumentativo
O texto de Aldo Bizzocchi discute o uso da expressão "consumir cultura". No primeiro parágrafo, o autor apresenta sua opinião: não se deveria dizer "consumir cultura". No segundo parágrafo (o foco da questão), ele explica a origem e a evolução do sentido da palavra "consumir":
"Na Roma antiga, 'consumir' tinha o sentido exclusivo de gastar e destruir. Com o tempo, passou-se a empregar o termo referindo-se ao consumo de alimentos... consumir tornou-se sinônimo de comprar, adquirir."
Esse parágrafo é expositivo/informativo: o autor informa como o sentido mudou, sem defender uma posição. Ele não diz "isso é bom" ou "isso é ruim" — apenas constata e explica o fenômeno linguístico. O terceiro parágrafo, sim, é argumentativo, pois o autor opina que "falar em consumir cultura pode soar mercantilista" e que "a cultura deveria ser, antes de tudo, fruição".
A técnica que decide: intenção × forma
A tipologia textual se define pela intenção do autor, não pela forma. O conteúdo predomina sobre a forma. Veja a diferença:
Tipo
Intenção
Exemplo no texto
Informativo/Expositivo
Informar, explicar, expor
"Na Roma antiga, 'consumir' tinha o sentido exclusivo de gastar e destruir."
Argumentativo
Convencer, persuadir, defender tese
"a cultura deveria ser, antes de tudo, fruição" (3º parágrafo)
Descritivo
Caracterizar, detalhar
Não há no parágrafo
Narrativo
Contar uma história com personagens e enredo
Não há no parágrafo
O segundo parágrafo não tenta convencer o leitor de nada. Ele apenas explica a etimologia e a evolução do termo. A presença de verbos no presente do indicativo ("tinha", "passou-se", "tornou-se") reforça o caráter expositivo, pois o autor apresenta fatos constatáveis, não opiniões.
Análise das alternativas
Tipologia textual: Informativo/Expositivo (informa, explica, expõe, sem tese nem persuasão); Argumentativo (defende opinião, tenta convencer); Descritivo (caracteriza pessoas/objetos); Narrativo (conta história com enredo)
Alternativa A — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação (confunde tema com intenção). O parágrafo não defende uma tese. Ele apenas informa a evolução do sentido da palavra. A opinião do autor aparece apenas no 3º parágrafo ("falar em consumir cultura pode soar mercantilista"). A banca tenta fazer o candidato achar que, por o texto tratar de um tema polêmico (cultura como produto), o parágrafo é argumentativo. Mas a intenção do 2º parágrafo é expositiva.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto (fuga ao tema). O texto não descreve pessoas, objetos ou ambientes. Não há adjetivação, caracterização estática ou verbos de estado. O parágrafo explica um processo de mudança de sentido, não descreve algo.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Correta. O parágrafo é informativo/expositivo porque o autor expõe a evolução do sentido da palavra "consumir", apresentando fatos e explicações, sem defender uma opinião. A passagem que prova isso é:
"Na Roma antiga, 'consumir' tinha o sentido exclusivo de gastar e destruir. Com o tempo, passou-se a empregar o termo referindo-se ao consumo de alimentos... consumir tornou-se sinônimo de comprar, adquirir."
O autor informa como o sentido mudou, sem tentar convencer o leitor. A intenção é explicar, não persuadir.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto (fuga ao tema). O texto não narra uma história com personagens, enredo, tempo e espaço. Não há verbos no pretérito contando ações sequenciais. O parágrafo explica um fenômeno linguístico, não conta uma história.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre tema polêmico e texto argumentativo. O fato de o texto discutir se "cultura é artigo de consumo" não torna o 2º parágrafo argumentativo — ele é apenas informativo. A argumentação fica para o 3º parágrafo.
PEGA ESSA DICA!
Para identificar a tipologia, pergunte: qual é a intenção do autor neste parágrafo? Informar, convencer, descrever ou narrar? Se ele apenas explica algo, é informativo. Se ele defende uma opinião, é argumentativo.
Conclusão: o parágrafo é informativo porque o autor expõe a evolução do sentido da palavra "consumir", sem defender tese. A alternativa C é a única que corresponde à intenção do texto.