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Questão de Português — Tipos de Discurso (Direto, Indireto e Indireto Livre) — CESPE / CEBRASPE 2023

PortuguêsTipos de Discurso (Direto, Indireto e Indireto Livre)
Código
ce396684
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
UnB
Ano
2023
Cargo
Vest ( )

No princípio, antes de ir para bordo, foi-lhe difícil esquecer o passado, a “mãe Sabina”, os costumes que aprendera nos cafezais... Muita vez chegava a sentir um vago desejo de abraçar os seus antigos companheiros do eito, mas logo essa lembrança esvaía-se como a fumaça longínqua e tênue das queimadas, e ele voltava à realidade, abrindo os olhos, num gozo infinito para o mar crivado de embarcações...

 

A disciplina militar, com todos os seus excessos, não se comparava ao penoso trabalho da fazenda, ao regímen terrível do tronco e do chicote. Havia muita diferença... Ali ao menos, na fortaleza, ele tinha sua maca, seu travesseiro, sua roupa limpa, e comia bem, a fartar, como qualquer pessoa, hoje boa carne cozida, amanhã suculenta feijoada, e, às sextas-feiras, um bacalhauzinho com pimenta e “sangue de Cristo”...

 

Para que vida melhor? Depois, a liberdade, minha gente, só a liberdade valia por tudo! Ali não se olhava a cor ou a raça do marinheiro: todos eram iguais, tinham as mesmas regalias — o mesmo serviço, a mesma folga. — “E quando a gente se faz estimar pelos superiores, quando não se tem inimigos, então é um viver abençoado esse: ninguém pensa no dia d’amanhã!”

 

Adolfo Caminha. O bom-crioulo.

Considerando os sentidos e aspectos linguísticos e textuais do fragmento precedente, extraído da obra O Bom-Crioulo, de Adolfo Caminha, julgue o item a seguir.   No último período do texto, o narrador utiliza o discurso direto para dar voz ao personagem retratado na narrativa e, assim, intensificar sua insatisfação com a vida militar.
  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Discurso direto no último período: a fala do personagem e a insatisfação com a vida militar

Gabarito: letra E (ERRADO). O item está errado porque o último período do texto não é discurso direto, mas sim discurso indireto livre — a fala do personagem surge inserida na narração, sem verbos de elocução, aspas ou travessão. Além disso, o conteúdo dessa fala não expressa insatisfação com a vida militar; pelo contrário, o personagem a elogia, como se vê no trecho: "E quando a gente se faz estimar pelos superiores, quando não se tem inimigos, então é um viver abençoado esse: ninguém pensa no dia d'amanhã!".

O comando pede que se julgue uma afirmação sobre o texto — tarefa de compreensão/recorrência, pois a resposta está explícita na superfície textual. Para resolvê-la, é preciso, primeiro, identificar o tipo de discurso presente no último período e, segundo, verificar se o sentido atribuído ("insatisfação com a vida militar") corresponde ao que o texto realmente diz. O item falha nos dois pontos.

O texto narra a experiência de um ex-escravo que, na fortaleza (vida militar), compara sua condição com o trabalho na fazenda. No segundo parágrafo, lê-se: "A disciplina militar, com todos os seus excessos, não se comparava ao penoso trabalho da fazenda, ao regímen terrível do tronco e do chicote". O personagem valoriza a vida militar, pois ela lhe oferece comida farta, roupa limpa e, principalmente, liberdade e igualdade"Ali não se olhava a cor ou a raça do marinheiro: todos eram iguais". O último período é a culminância desse elogio, não uma queixa.

A técnica para identificar o discurso é observar as marcas linguísticas. No discurso direto, há verbo de elocução (dizer, perguntar, exclamar), dois-pontos, aspas ou travessão, e a fala é transcrita literalmente. No último período, não há nenhum desses elementos: não há verbo dicendi, nem aspas, nem travessão. A fala do personagem — "E quando a gente se faz estimar..." — aparece mesclada à narração, sem qualquer marca de separação, o que caracteriza o discurso indireto livre. Note que o trecho está na 1ª pessoa do plural ("a gente", "ninguém pensa"), mas o narrador conduz o texto na 3ª pessoa ("ele", "tinha"), típico do discurso indireto livre, em que o pensamento do personagem emerge espontaneamente no fluxo narrativo.

O gancho para resolver a questão é testar cada afirmação com a pergunta: o texto autoriza isto? O item afirma que há discurso direto — o texto não mostra isso (não há marcas). Afirma que há insatisfação com a vida militar — o texto mostra o oposto (há satisfação e elogio). A alternativa erra por contradizer o texto e por classificar incorretamente o discurso.

Alternativa E — ❌ Incorreta ⟵ GABARITO

O item está errado por dois motivos independentes, cada um suficiente para invalidá-lo.

1. Não há discurso direto no último período. O discurso direto exige marcas formais: verbo de elocução (ex.: "disse", "perguntou"), dois-pontos, aspas ou travessão. No trecho final — "E quando a gente se faz estimar pelos superiores, quando não se tem inimigos, então é um viver abençoado esse: ninguém pensa no dia d'amanhã!"não há nenhuma dessas marcas. A fala do personagem está inserida na narração, sem introdução, o que configura discurso indireto livre. O narrador, onisciente, transmite o pensamento do personagem sem delimitá-lo, e a 1ª pessoa ("a gente") emerge dentro do discurso em 3ª pessoa ("ele tinha sua maca").

2. O conteúdo não expressa insatisfação com a vida militar; expressa satisfação. O personagem elogia a vida na fortaleza. O trecho "então é um viver abençoado esse" é um juízo positivo. A expressão "viver abençoado" indica contentamento, não queixa. Além disso, o parágrafo anterior já estabelecia a comparação favorável: "A disciplina militar, com todos os seus excessos, não se comparava ao penoso trabalho da fazenda". O personagem trocou o trabalho escravo pela vida militar e a considera melhor. A palavra "insatisfação" contradiz o texto, que mostra o oposto: satisfação e gratidão pela liberdade e igualdade.

NÃO CAIA NESSA!

A banca arma uma dupla armadilha: (1) classifica o discurso como direto quando é indireto livre, e (2) inverte o sentimento do personagem, trocando "satisfação" por "insatisfação". O candidato que não conhece as marcas do discurso indireto livre e não lê o trecho com atenção cai na primeira; o que não percebe o elogio à vida militar cai na segunda.

PEGA ESSA DICA!

Para identificar o tipo de discurso, procure as marcas: verbo de elocução + dois-pontos + aspas/travessão = direto; verbo de elocução + conjunção "que" = indireto; ausência de marcas, com a fala do personagem mesclada à narração = indireto livre. E, para questões de sentido, desconfie de palavras absolutas como "insatisfação" quando o texto mostra o contrário.

Conclusão: o item erra ao classificar o discurso e ao atribuir um sentimento que o texto não sustenta. A resposta correta é letra E (ERRADO).

Gabarito: letra E

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