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Questão de Português — Tipos de Discurso (Direto, Indireto e Indireto Livre) — CESPE / CEBRASPE 2023

PortuguêsTipos de Discurso (Direto, Indireto e Indireto Livre)
Código
ce396685
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
UnB
Ano
2023
Cargo
Vest ( )

No princípio, antes de ir para bordo, foi-lhe difícil esquecer o passado, a “mãe Sabina”, os costumes que aprendera nos cafezais... Muita vez chegava a sentir um vago desejo de abraçar os seus antigos companheiros do eito, mas logo essa lembrança esvaía-se como a fumaça longínqua e tênue das queimadas, e ele voltava à realidade, abrindo os olhos, num gozo infinito para o mar crivado de embarcações...

 

A disciplina militar, com todos os seus excessos, não se comparava ao penoso trabalho da fazenda, ao regímen terrível do tronco e do chicote. Havia muita diferença... Ali ao menos, na fortaleza, ele tinha sua maca, seu travesseiro, sua roupa limpa, e comia bem, a fartar, como qualquer pessoa, hoje boa carne cozida, amanhã suculenta feijoada, e, às sextas-feiras, um bacalhauzinho com pimenta e “sangue de Cristo”...

 

Para que vida melhor? Depois, a liberdade, minha gente, só a liberdade valia por tudo! Ali não se olhava a cor ou a raça do marinheiro: todos eram iguais, tinham as mesmas regalias — o mesmo serviço, a mesma folga. — “E quando a gente se faz estimar pelos superiores, quando não se tem inimigos, então é um viver abençoado esse: ninguém pensa no dia d’amanhã!”

 

Adolfo Caminha. O bom-crioulo.

Considerando os sentidos e aspectos linguísticos e textuais do fragmento precedente, extraído da obra O Bom-Crioulo, de Adolfo Caminha, julgue o item a seguir.   A pergunta que inicia o último parágrafo do texto poderia ser apresentada sob a forma de discurso direto, pois retrata um pensamento que poderia ser expresso pelo personagem central do trecho.
  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Certo

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A pergunta retórica em discurso indireto livre e sua conversão para o discurso direto

Gabarito: CERTO (C). A pergunta “Para que vida melhor?”, que abre o último parágrafo, é um pensamento do personagem central (o marinheiro, ex-escravo) inserido no discurso do narrador — típico do discurso indireto livre. Como tal, ela poderia ser convertida em discurso direto, pois o discurso indireto livre preserva a subjetividade da personagem e admite a transposição para a fala literal, com os devidos ajustes de pontuação e de pessoa verbal. A passagem que autoriza essa leitura é o próprio trecho, em que a interrogação surge sem verbo de elocução, mas claramente expressa a voz interior do personagem.

O comando: o que a banca pede

A questão é de interpretação textual com foco em tipos de discurso. O enunciado afirma que a pergunta do último parágrafo poderia ser apresentada sob a forma de discurso direto, pois retrata um pensamento que poderia ser expresso pelo personagem central. Não se pede para identificar o tipo de discurso usado no texto — isso é dado —, mas para reconhecer a possibilidade de conversão entre discurso indireto livre e discurso direto. É uma questão de compreensão (o que o texto permite) e de conhecimento teórico sobre os mecanismos de transposição.

O texto: onde mora a resposta

No fragmento de O Bom-Crioulo, o narrador descreve a vida do marinheiro na fortaleza, contrastando-a com o trabalho escravo na fazenda. No último parágrafo, lê-se:

“Para que vida melhor? Depois, a liberdade, minha gente, só a liberdade valia por tudo!”

A pergunta “Para que vida melhor?” não é do narrador, mas do personagem — é a sua voz interior, sua reflexão sobre a própria condição. O uso da interrogação e da exclamação, sem verbos como “pensou” ou “disse”, é a marca clássica do discurso indireto livre: o narrador cede a palavra ao personagem, mas sem as marcas formais do discurso direto (travessão, aspas, verbo dicendi).

A técnica: por que a conversão é possível

O discurso indireto livre é uma mescla: o narrador fala na 3ª pessoa, mas insere, sem aviso, os pensamentos ou falas do personagem, frequentemente na 1ª pessoa e com marcas de subjetividade (interrogações, exclamações, vocativos). Como o conteúdo é do personagem, é perfeitamente possível transpô-lo para o discurso direto, ou seja, apresentá-lo como uma fala literal, entre aspas ou após travessão, com verbo de elocução. Exemplo de conversão:

  • Indireto livre: Para que vida melhor?

  • Direto: “Para que vida melhor?” — pensou ele.

A conversão é legítima porque a pergunta pertence ao personagem, não ao narrador. O discurso direto é a transcrição exata da fala ou do pensamento, e nada impede que um pensamento seja apresentado dessa forma. A banca, portanto, não pede que se identifique o discurso indireto livre — isso é evidente —, mas que se reconheça a equivalência semântica entre as duas formas.

A pegadinha: confundir “é” com “poderia ser”

A armadilha da banca está em o candidato achar que, por o trecho estar em discurso indireto livre, ele não poderia ser convertido em discurso direto. Isso é um erro conceitual: os tipos de discurso são formas de apresentação, e o mesmo conteúdo pode ser veiculado por mais de uma forma. O que muda são as marcas linguísticas (pontuação, pessoa verbal, verbos dicendi), não o sentido. A pergunta retórica, por ser um pensamento do personagem, é perfeitamente compatível com o discurso direto.

Discurso indireto livre
  • 1Voz do personagem
    • Sem verbo dicendi
    • Sem travessão/aspas
    • Marcas de subjetividade (interrogação, exclamação)
  • 2Conversão para discurso direto
    • Possível quando o conteúdo é do personagem
    • Ajustes: pontuação, pessoa verbal, verbo dicendi
  • 3Limite da conversão
    • Não cabe quando a voz é do narrador
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NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre “o texto está em discurso indireto livre” e “o trecho não pode ser convertido”. A conversão é sempre possível quando o conteúdo é do personagem — e aqui é.

Conclusão

A afirmativa está correta: a pergunta “Para que vida melhor?” é um pensamento do personagem central, expresso em discurso indireto livre, e poderia ser apresentada em discurso direto, pois a conversão entre os tipos de discurso é um recurso legítimo da língua. Portanto, Gabarito: CERTO (C).

PEGA ESSA DICA!

Em questões sobre tipos de discurso, pergunte-se sempre: de quem é a voz? Se for do personagem, a conversão para discurso direto é possível; se for do narrador, não. A presença de interrogação/exclamação sem verbo dicendi é a assinatura do indireto livre.

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