Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2023
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce396687
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
UnB
Ano
2023
Cargo
Vest ( )
Lá — estava o Morro da Garça: solitário, escaleno e escuro, feito uma pirâmide. O Gorgulho mais olhava-o, de arrevirar bogalhos; parecia que aqueles olhos seus dele iam sair, se esticar para fora, com pedúnculos, como tentáculos.
— “Possível ter havido alguma coisa?” — frei Sinfrão perguntava. — “Essas serras gemem, roncam, às vezes, com retumbo de longe trovão, o chão treme, se sacode. Serão descarregamentos subterrâneos, o desabar profundo de camadas calcáreas, como nos terremotos de Bom-Sucesso… Dizem que isso acontece mais é por volta da lua-cheia…”
Mas, não, ali ilapso nenhum não ocorrera, os morros continuavam tranquilos, que é a maneira de como entre si eles conversam, se conversa alguma se transmitem. O Gorgulho padeceria de qualquer alucinação; ele que até era meio surdo. E Pedro Orósio, que semelhava ainda mais alteado, ao lado assim daquele criaturo ananho, mostrava grande vontade de rir. O Gorgulho ainda afirmava a vista, enquanto engulia em seco, seu gogó sobe-descia.
João Guimarães Rosa. O recado do morro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2007.
Tendo como referência inicial o fragmento precedente da novela O recado do morro, de João Guimarães Rosa, publicado em Corpo de baile (1956), julgue o item e assinale a opção correta. No fragmento apresentado, a mensagem dada a Gorgulho causa espanto em frei Sinfrão e em Pedro Orósio pela clareza com que é enunciada, sem deixar ao protagonista dúvidas sobre o seu destino.
CCerto
EErrado
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GabaritoE — Errado
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O recado do morro: mensagem clara ou alucinação?
Gabarito: ERRADO (E). A afirmação de que a mensagem dada a Gorgulho causa espanto em frei Sinfrão e Pedro Orósio pela clareza com que é enunciada, sem deixar dúvidas sobre o destinocontradiz diretamente o texto. O narrador afirma que "ali ilapso nenhum não ocorrera" e que "O Gorgulho padeceria de qualquer alucinação" — ou seja, não houve mensagem alguma, muito menos clara; o que houve foi uma possível alucinação do personagem, e os outros personagens reagem com ceticismo e vontade de rir, não com espanto pela clareza.
O comando pede uma avaliação de compreensão: a alternativa deve ser confrontada com o que o texto efetivamente afirma. Não se trata de inferir algo nas entrelinhas, mas de verificar se a proposição é fiel ao conteúdo explícito. A banca monta a pegadinha exatamente aqui: ela inverte o sentido do texto, transformando uma negação (não houve ilapso) em uma afirmação (houve mensagem clara).
No fragmento, o narrador descreve a reação de Gorgulho ao olhar o Morro da Garça: ele fica tão impressionado que parece que seus olhos vão "sair, se esticar para fora, com pedúnculos, como tentáculos". Frei Sinfrão, então, pergunta se "possível ter havido alguma coisa", especulando sobre fenômenos naturais ("serras gemem, roncam", "descarregamentos subterrâneos"). Mas o narrador imediatamente refuta essa possibilidade:
"Mas, não, ali ilapso nenhum não ocorrera, os morros continuavam tranquilos, que é a maneira de como entre si eles conversam, se conversa alguma se transmitem. O Gorgulho padeceria de qualquer alucinação; ele que até era meio surdo."
A palavra "ilapso" (desmoronamento, desabamento) é a chave: o texto nega que tenha havido qualquer fenômeno real. A reação de Pedro Orósio, que "semelhava ainda mais alteado, ao lado assim daquele criaturo ananho, mostrava grande vontade de rir", confirma que os outros personagens não levaram a sério a visão de Gorgulho — riem dele, não se espantam com uma mensagem clara.
A alternativa errada comete o erro clássico de contradizer o texto: ela afirma exatamente o oposto do que está escrito. O texto diz "não ocorreu nada", a alternativa diz "houve uma mensagem clara". Não há como sustentar essa leitura.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa C afirma que "a mensagem dada a Gorgulho causa espanto em frei Sinfrão e em Pedro Orósio pela clareza com que é enunciada, sem deixar ao protagonista dúvidas sobre o seu destino". Isso é falso por três motivos:
Não houve mensagem: o texto nega explicitamente qualquer fenômeno: "ali ilapso nenhum não ocorrera".
Não houve clareza: o narrador atribui a visão a uma possível alucinação: "O Gorgulho padeceria de qualquer alucinação".
Não houve espanto pela clareza: frei Sinfrão apenas especula sobre causas naturais, e Pedro Orósio "mostrava grande vontade de rir" — reação de deboche, não de espanto.
A alternativa inverte o sentido do texto, trocando a negação por afirmação. É o erro de contradizer o texto.
NÃO CAIA NESSA!
A banca pega uma expressão figurada ("os morros conversam") e a interpreta literalmente, como se houvesse uma mensagem real. Mas o texto é claro: não houve nada, foi alucinação.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de compreensão, desconfie de alternativas que afirmam o que o texto nega. Grife as negações ("não", "nenhum", "nunca") e os modalizadores ("padeceria", "qualquer") — eles mudam tudo.
Gabarito: letra E (Errado). A alternativa C é incorreta porque contradiz o texto, que nega a ocorrência de qualquer fenômeno e atribui a visão a uma alucinação de Gorgulho.