Questão de Português — Outras Questões de Português e Questões Mescladas (Interpretação de Textos ou Gramática) — CESPE / CEBRASPE 2023
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Código
ce396909
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
UnB
Ano
2023
Cargo
Vest ( )
Torno a ver-vos, ó montes; o destino
Torno a ver-vos, ó montes; o destino
Aqui me torna a pôr nestes outeiros,
Onde um tempo os gabões deixei grosseiros
Pelo traje da Corte, rico e fino.
Aqui estou entre Almendro, entre Corino,
Os meus fiéis, meus doces companheiros,
Vendo correr os míseros vaqueiros
Atrás de seu cansado desatino.
Se o bem desta choupana pode tanto,
Que chega a ter mais preço, e mais valia,
Que da cidade o lisonjeiro encanto;
Aqui descanse a louca fantasia,
E o que até agora se tornava em pranto
Se converta em afetos de alegria.
Cláudio Manoel da Costa
Leia o texto abaixo. Considerando o poema precedente e os múltiplos aspectos a ele relacionados, julgue o item abaixo. O poema se organiza com base na expressão poética objetivista, sem expressividade lírica em primeira pessoa.
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Expressão lírica em primeira pessoa no poema de Cláudio Manoel da Costa
Gabarito: ERRADO (letra E). A afirmação de que o poema se organiza com base na expressão poética objetivista, sem expressividade lírica em primeira pessoa, é incorreta. O texto é marcadamente subjetivo e centrado no eu lírico, que se expressa em primeira pessoa do singular e do plural, como se vê nos versos "Torno a ver-vos, ó montes" e "Aqui me torna a pôr nestes outeiros". A subjetividade é a própria essência do gênero lírico, e o poema a manifesta de forma explícita.
O comando pede um julgamento sobre a natureza da expressão poética do texto. A banca afirma que ela seria "objetivista" e "sem expressividade lírica em primeira pessoa". Para resolver, é preciso verificar se o poema apresenta marcas de subjetividade e se o eu lírico se manifesta em primeira pessoa. A resposta está na leitura atenta dos pronomes e das formas verbais.
O poema é um soneto de Cláudio Manoel da Costa, poeta árcade. O eu lírico retorna aos montes da sua terra natal, deixando a Corte, e reencontra os companheiros pastoris. O movimento é de fuga da artificialidade da cidade em direção à simplicidade do campo. A tese central é a valorização da vida bucólica, que traz mais "preço, e mais valia" do que o "lisonjeiro encanto" da cidade.
A técnica para resolver a questão é identificar as marcas de subjetividade e de primeira pessoa. O poema está repleto delas:
Primeira pessoa do singular: "Torno a ver-vos", "Aqui me torna a pôr", "deixei", "Aqui estou", "Se o bem desta choupana pode tanto".
Primeira pessoa do plural: "os meus fiéis, meus doces companheiros" (possessivo de 1ª pessoa).
Vocativo: "ó montes" — o eu lírico se dirige diretamente aos montes, estabelecendo uma relação subjetiva.
Emoções e juízos de valor: "míseros vaqueiros", "cansado desatino", "lisonjeiro encanto", "louca fantasia", "afetos de alegria".
A expressão "objetivista" seria aquela que busca retratar a realidade de forma impessoal, sem a mediação de um eu que sente e opina. O poema faz exatamente o oposto: o eu lírico é o centro organizador de tudo, e suas emoções (saudade, alegria, desencanto com a Corte) são o tema central. A subjetividade é a marca do gênero lírico, e este soneto é um exemplo clássico.
A pegadinha da banca está em tentar rotular o poema como "objetivista", o que contraria frontalmente o que está escrito. O candidato que não se atenta às marcas de primeira pessoa e à carga emocional do texto pode ser levado a aceitar a afirmação, mas a leitura atenta a refuta.
Expressão poética do soneto
1Subjetiva (eu lírico)
1ª pessoa do singular ("Torno a ver-vos")
1ª pessoa do plural ("meus doces companheiros")
Vocativo ("ó montes")
Juízos de valor ("lisonjeiro encanto")
2Objetivista
Impessoal, sem eu que sente
Contradiz o texto
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Item — ❌ ERRADO ⟵ GABARITO
A afirmação de que o poema se organiza com base na expressão poética objetivista, sem expressividade lírica em primeira pessoa, é falsa. O texto é um exemplo de lirismo subjetivo, centrado no eu lírico.
Prova no texto:
"Torno a ver-vos, ó montes; o destino / Aqui me torna a pôr nestes outeiros"
O verbo "Torno" está na primeira pessoa do singular, e o pronome "me" reforça a subjetividade. O eu lírico é o sujeito da ação e o centro das emoções.
"Aqui estou entre Almendro, entre Corino, / Os meus fiéis, meus doces companheiros"
O possessivo "meus" (repetido) marca a posse e a relação pessoal do eu lírico com os companheiros. A expressão "doces companheiros" é um juízo de valor afetivo, não uma descrição objetiva.
"Se o bem desta choupana pode tanto, / Que chega a ter mais preço, e mais valia, / Que da cidade o lisonjeiro encanto"
O eu lírico compara a choupana (campo) com a cidade, atribuindo à primeira mais valor. A palavra "lisonjeiro" é uma avaliação negativa da cidade, carregada de subjetividade.
"Aqui descanse a louca fantasia, / E o que até agora se tornava em pranto / Se converta em afetos de alegria."
O eu lírico expressa o desejo de que sua "louca fantasia" descanse e que o pranto se converta em alegria. São emoções pessoais, íntimas, que não cabem em uma expressão "objetivista".
Erro da alternativa: a afirmação contradiz o texto. Ela diz que não há expressividade lírica em primeira pessoa, mas o poema é construído inteiramente a partir dela. A banca tenta impor um rótulo ("objetivista") que não se sustenta diante das evidências textuais.
Conclusão: o poema é subjetivo, lírico e centrado no eu. A alternativa erra ao negar o óbvio. A resposta correta é ERRADO.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de julgamento sobre o texto, grife as marcas de subjetividade (pronomes de 1ª pessoa, verbos em 1ª pessoa, vocativos, adjetivos avaliativos). Se o texto estiver cheio delas, a afirmação de que ele é "objetivista" ou "impessoal" estará errada.