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Questão de Biologia — Geral — CESPE / CEBRASPE 2024

BiologiaGeral
Código
ce398893
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
UnB
Ano
2024
Cargo
Vest ( )

Na África subsaariana encontram-se duas doenças endêmicas: a anemia falciforme e a malária. A primeira tem origem genética (ocasionada por um único alelo recessivo) e caracteriza-se pela produção de uma forma mutante de hemoglobina e hemácias em forma de foice, o que faz os indivíduos afetados apresentarem sintomas como fadiga e anemia, pelo carreamento inadequado de oxigênio pelo sangue, e insuficiência renal em longo prazo. Já a malária é uma doença parasitária, ocasionada por Plasmodium spp (falciparum, vivax, entre outras espécies): uma das fases de seu ciclo de vida ocorre dentro das hemácias, que são quebradas pelo parasita, o que ocasiona febres, calafrios, cansaço, entre outros sintomas. 

 

A respeito desse assunto, assinale a opção correta. 

  1. AEmbora parte de população brasileira seja afro-descedente, o gene recessivo para a anemia falciforme é raro (<0,5%) na nossa população, uma vez as pessoas escravizadas trazidas para o Brasil foram inicialmente alocadas em regiões onde a malária não é endêmica, como no sudeste do País e regiões costeiras.
  2. BA malária, que pode ser fatal em alguns indivíduos, exerceu pressão seletiva sobre as populações subsaarianas, o que fez com que o gene recessivo da anemia falciforme se fixasse nessa população, uma vez que hemácias falciformes não permitem o desenvolvimento do Plasmodium.
  3. CO transplante de medula óssea de um doador plenamente saudável poderia curar um paciente que tivesse anemia falciforme ou malária, mas não evitaria que o receptor contraísse malária no futuro.
  4. DComo uma fase do ciclo do parasita Plasmodium ocorre no mosquito Anopheles e a principal forma de transmissão da malária é pela picada do mosquito, se os insetos pudessem ser completamente eliminados, a malária seria erradicada e não haveria novas pessoas infectadas.
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GabaritoB — A malária, que pode ser fatal em alguns indivíduos, exerceu pressão seletiva sobre as populações subsaarianas, o que fez com que o gene recessivo da anemia falciforme se fixasse nessa população, uma vez que hemácias falciformes não permitem o desenvolvimento do Plasmodium.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Anemia falciforme e malária: seleção natural e vantagem do heterozigoto

Gabarito: letra B. A malária exerceu pressão seletiva sobre as populações da África subsaariana, favorecendo a permanência do alelo recessivo da anemia falciforme (HbS) porque os heterozigotos (AS) são mais resistentes ao Plasmodium — as hemácias falciformes dificultam o desenvolvimento do parasita. Essa é a explicação clássica da seleção balanceadora (ou vantagem do heterozigoto), que mantém o alelo em frequências elevadas justamente onde a malária é endêmica.

A questão articula dois temas centrais da Biologia: a genética de populações e a evolução por seleção natural. A anemia falciforme é uma doença autossômica recessiva causada por uma mutação no gene da hemoglobina (alelo HbS). Indivíduos homozigotos (SS) produzem hemoglobina anormal, que deforma as hemácias em formato de foice, causando anemia grave e, frequentemente, morte precoce. Indivíduos heterozigotos (AS) produzem hemoglobina suficiente para evitar a anemia, mas suas hemácias apresentam uma leve tendência a falcizar sob baixa oxigenação — e é exatamente essa característica que confere proteção contra a malária.

O Plasmodium, ao invadir as hemácias, encontra um ambiente hostil nas células falciformes ou parcialmente falciformes: o parasita tem dificuldade de se desenvolver e se reproduzir. Assim, em regiões onde a malária é endêmica, os heterozigotos AS têm maior sobrevivência e reprodução do que os homozigotos AA (que morrem de malária) e do que os homozigotos SS (que morrem de anemia). Esse fenômeno é conhecido como vantagem do heterozigoto ou seleção balanceadora: a seleção natural mantém o alelo recessivo na população porque, em heterozigose, ele confere uma vantagem seletiva.

O contexto histórico é ilustrativo: populações africanas levadas como escravas para regiões sem malária (como a América do Norte) tiveram a frequência do alelo HbS progressivamente reduzida, pois, sem a pressão seletiva da malária, o alelo passou a ser eliminado pela morte dos homozigotos SS. No Brasil, a frequência do alelo varia conforme a região, mas não é correto afirmar que seja rara (<0,5%) em toda a população, especialmente considerando a ancestralidade africana e a ocorrência histórica de malária em algumas áreas.

A alternativa B é a única que captura corretamente essa relação evolutiva. As demais apresentam erros conceituais ou factuais: a A erra ao afirmar que o gene é raro no Brasil e ao justificar com base na alocação dos escravizados; a C confunde o transplante de medula óssea como cura para malária; e a D ignora que a eliminação completa dos mosquitos não erradicaria a malária, pois existem outras formas de transmissão e reservatórios.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre o papel do heterozigoto e do homozigoto. Muitos candidatos marcam a alternativa A, achando que o gene é raro no Brasil, ou a D, por considerar a eliminação do mosquito como solução definitiva. A chave é lembrar que a vantagem seletiva está no heterozigoto AS, não no homozigoto SS — é isso que mantém o alelo na população.

Anemia falciforme × malária
  • 1Anemia falciforme
    • Genética (alelo recessivo HbS)
    • Homozigoto SS → anemia grave
    • Heterozigoto AS → [+] resistente à malária
  • 2Malária
    • Parasitária (Plasmodium spp)
    • Ciclo nas hemácias
    • Transmissão: mosquito Anopheles
  • 3Seleção balanceadora
    • Pressão seletiva da malária
    • Mantém alelo HbS na população
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Alternativa A — ❌ Incorreta

Afirma que o gene recessivo para anemia falciforme é raro (<0,5%) na população brasileira, justificando com a alocação dos escravizados em regiões sem malária. O erro é duplo: (1) a frequência do alelo HbS no Brasil não é uniformemente rara — há variação regional, e em algumas populações de ancestralidade africana a frequência é maior; (2) a justificativa histórica é simplista e incorreta, pois a malária já foi endêmica em várias regiões do Brasil, incluindo áreas costeiras e o sudeste, e a dinâmica populacional é complexa. O que se observa é que, em populações sem pressão seletiva da malária, a frequência do alelo tende a diminuir, mas não a ponto de ser desprezível em todo o país.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa descreve corretamente o mecanismo evolutivo: a malária, sendo fatal em muitos casos, exerceu pressão seletiva sobre as populações subsaarianas. Os heterozigotos AS, por terem hemácias que dificultam o desenvolvimento do Plasmodium, tiveram maior sobrevivência e reprodução, o que manteve o alelo HbS em frequências elevadas. As hemácias falciformes ou parcialmente falciformes criam um ambiente desfavorável ao parasita, que não consegue completar seu ciclo de vida normalmente. Esse é o exemplo clássico de seleção balanceadora ou vantagem do heterozigoto, amplamente documentado em estudos de genética de populações.

Alternativa C — ❌ Incorreta

O transplante de medula óssea pode curar a anemia falciforme, pois substitui a medula doente por uma saudável, capaz de produzir hemácias normais. No entanto, não tem efeito sobre a malária, que é uma doença parasitária: o transplante não elimina o Plasmodium do organismo. Além disso, a afirmação de que o transplante "não evitaria que o receptor contraísse malária no futuro" é verdadeira, mas a primeira parte — de que curaria a malária — é falsa. O transplante de medula não é tratamento para malária, que é combatida com medicamentos antimaláricos.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A eliminação completa dos mosquitos Anopheles reduziria drasticamente a transmissão da malária, mas não a erradicaria. Isso porque: (1) a malária pode ser transmitida por outras vias, como transfusão sanguínea, uso de agulhas contaminadas e transmissão congênita (da mãe para o feto); (2) existem reservatórios animais do parasita em algumas regiões, embora o ciclo humano seja o principal; (3) a erradicação total do mosquito é praticamente impossível na prática. Portanto, a afirmação de que "se os insetos pudessem ser completamente eliminados, a malária seria erradicada" é incorreta, pois ignora outras formas de transmissão e a complexidade do controle da doença.

Gabarito: letra B

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