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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2024

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce401869
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
CBM PA
Ano
2024
Cargo
Sold BM ( )

Texto 1A1

 

Nos anos 70, quando eu estudava na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), um dos poemas mais lidos e comentados por estudantes e professores era Fábula de um arquiteto, de João Cabral de Melo Neto: “O arquiteto: o que abre para o homem / (tudo se sanearia desde casas abertas) / portas por-onde, jamais portas-contra; / por onde, livres: ar luz razão certa.”.

 

Esses versos pareciam nortear a concepção e a organização do espaço, trabalho do arquiteto. A utopia possível de vários estudantes era transformar habitações precárias (eufemismo para favelas) em moradias dignas. O exemplo mais famoso naquele tempo era o Conjunto Habitacional Zezinho Magalhães Prado (Parque Cecap) em Guarulhos. Esse projeto de Vilanova Artigas era um dos poucos exemplos de habitação social decente, mas seus moradores não eram ex-favelados.

 

Em geral, a política de habitação popular no Brasil consiste em construir pequenos e opressivos apartamentos ou casas de baixo padrão tecnológico, sem senso estético, sem relação orgânica com a cidade, às vezes sem infraestrutura e longe de áreas comerciais e serviços públicos. Vários desses conjuntos são construídos em áreas ermas, cuja paisagem desoladora lembra antes uma colônia penal.

 

Mas há mudanças e avanços significativos na concepção de projetos de habitação social, infraestrutura, lazer e paisagismo, projetos que, afinal, dizem respeito à democracia e ao fim da exclusão social. Um desses avanços é o trabalho da Usina. Fundada em 1990 por profissionais paulistas, a Usina tem feito projetos de arquitetura e planos urbanísticos criteriosos e notáveis. Trata-se de uma experiência de autogestão na construção, cujos projetos, soluções técnicas e o próprio processo construtivo são discutidos coletivamente, envolvendo os futuros moradores e uma equipe de arquitetos, engenheiros e outros profissionais.

 

Acompanhei jornalistas do Estadão em visitas a conjuntos habitacionais em Heliópolis e na Billings, onde está sendo implantado o Programa Mananciais. Em Heliópolis, Ruy Ohtake projetou edifícios em forma cilíndrica, daí o apelido de redondinhos. A planta dos apartamentos de 50 m² é bem resolvida, os materiais de construção e o acabamento são apropriados, todos os ambientes recebem luz natural. Esse projeto de Ohtake e o de Hector Vigliecca (ainda em construção) revelam avanço notável na concepção da moradia para camadas populares.

 

Um dos projetos do Programa Mananciais é uma ousada e bem-sucedida intervenção urbana numa das áreas mais pobres e também mais belas da metrópole. Situado às margens da Represa Billings, o Parque Linear é, em última instância, um projeto de cidadania que contempla milhares de famílias. Não por acaso esse projeto da equipe do arquiteto Marcos Boldarini recebeu prêmios no Brasil e no exterior.

 

Além do enorme alcance social, o projeto foi pensado para preservar a Billings e suas espécies nativas. Sem ser monumental, o Parque Linear é uma obra grandiosa e extremamente necessária, concebida com sensibilidade estética e funcional que dá dignidade a brasileiros que sempre foram desprezados pelo poder público. É também um exemplo de como os governos federal, estadual e municipal podem atuar em conjunto, deixando de lado as disputas e mesquinharias político-partidárias.

 

Além de arquitetos e engenheiros competentes, o Brasil possui recursos para financiar projetos de habitação popular em larga escala. Mas é preciso aliar vontade política a uma concepção de moradia que privilegie a vida dos moradores e sua relação com o ambiente e o espaço urbano. Porque morar é muito mais que sobreviver em estado precário e provisório.

 

Milton Hatoum. Moradia e (in)dignidade. In: O Estado de S. Paulo, 28/8/2011, p. C8 (com adaptações).

O texto 1A1 estabelece entre o ideal dos estudantes de arquitetura dos anos 1970, representado pelo poema de João Cabral, e a realidade dos conjuntos habitacionais populares da época uma relação de
  1. Acomplementaridade.
  2. Bcontradição.
  3. Ccontinuidade.
  4. Dintercâmbio.
  5. Ereiteração.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — contradição.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Relação entre o ideal dos estudantes de arquitetura e a realidade dos conjuntos habitacionais

Gabarito: letra B. O texto estabelece uma relação de contradição entre o ideal dos estudantes de arquitetura dos anos 1970, representado pelo poema de João Cabral, e a realidade dos conjuntos habitacionais populares da época. O poema fala em "portas por-onde, jamais portas-contra" e "casas abertas", enquanto o texto descreve a política de habitação popular como "pequenos e opressivos apartamentos", "sem relação orgânica com a cidade" e "cuja paisagem desoladora lembra antes uma colônia penal". Essa oposição entre o ideal de abertura e a realidade opressiva é a chave da questão.

O comando da questão

O enunciado pede que se identifique a relação entre duas ideias apresentadas no texto: o ideal dos estudantes (representado pelo poema) e a realidade dos conjuntos habitacionais da época. Isso é uma questão de compreensão — a resposta está explícita na contraposição que o autor constrói entre esses dois elementos. Não se trata de inferir algo além do texto, mas de perceber como o autor articula essas duas ideias.

O texto e o movimento argumentativo

O autor começa apresentando o poema de João Cabral, que expressa um ideal de arquitetura: "portas por-onde, jamais portas-contra; / por onde, livres: ar luz razão certa". Esse ideal é o que "parecia nortear a concepção e a organização do espaço" para os estudantes. Em seguida, o autor descreve a realidade da política de habitação popular:

"Em geral, a política de habitação popular no Brasil consiste em construir pequenos e opressivos apartamentos ou casas de baixo padrão tecnológico, sem senso estético, sem relação orgânica com a cidade, às vezes sem infraestrutura e longe de áreas comerciais e serviços públicos. Vários desses conjuntos são construídos em áreas ermas, cuja paisagem desoladora lembra antes uma colônia penal."

A contraposição é clara: o ideal é de abertura ("casas abertas", "portas por-onde"), enquanto a realidade é de opressão ("pequenos e opressivos apartamentos", "paisagem desoladora", "colônia penal"). O autor também menciona que o exemplo mais famoso da época, o Conjunto Zezinho Magalhães Prado, era "um dos poucos exemplos de habitação social decente, mas seus moradores não eram ex-favelados" — ou seja, mesmo o bom exemplo não atendia àqueles que mais precisavam. Essa oposição entre o que se idealizava e o que se praticava é uma contradição.

A técnica que decide

A questão testa a capacidade de reconhecer a relação semântica entre duas partes do texto. O autor não diz que a realidade complementa o ideal, nem que o ideal continua na realidade, nem que há um intercâmbio entre eles. Ele mostra que o ideal dos estudantes (abertura, liberdade) é o oposto da realidade dos conjuntos (opressão, enclausuramento). A palavra "contradição" captura exatamente essa oposição.

NÃO CAIA NESSA!

A banca oferece alternativas que sugerem relações de harmonia (complementaridade, continuidade, intercâmbio, reiteração) para confundir o candidato que não percebe a contraposição explícita entre o ideal do poema e a realidade descrita. A chave é notar os adjetivos opostos: "abertas" vs. "opressivos".

Análise das alternativas

1Ideal (poema de João Cabral)
Casas abertas
Portas por-onde
Liberdade
2Realidade (conjuntos habitacionais)
Pequenos e opressivos
Sem relação com a cidade
Paisagem de colônia penal
3Relação estabelecida
Contradição (oposição explícita)
Relação ideal × realidade
LEVELsoulevel.com.br
Relação ideal × realidade: Ideal (poema de João Cabral) (Casas abertas, Portas por-onde, Liberdade); Realidade (conjuntos habitacionais) (Pequenos e opressivos, Sem relação com a cidade, Paisagem de colônia penal); Relação estabelecida (Contradição (oposição explícita))

Alternativa A — ❌ Incorreta

Complementaridade sugere que o ideal e a realidade se completam, formando um todo. O texto, porém, mostra que a realidade nega o ideal: enquanto o poema fala em "casas abertas", a realidade é de "pequenos e opressivos apartamentos". Não há complemento, há oposição.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Contradição é a relação correta. O ideal dos estudantes ("portas por-onde, jamais portas-contra") é o oposto da realidade dos conjuntos ("pequenos e opressivos", "paisagem desoladora", "colônia penal"). O texto constrói essa oposição de forma explícita, mostrando que a prática contradiz o ideal.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Continuidade sugere que o ideal se prolonga na realidade, que um dá sequência ao outro. O texto, no entanto, mostra uma ruptura: a realidade dos conjuntos não dá continuidade ao ideal de abertura, mas o contradiz. A continuidade implicaria que os conjuntos refletissem o ideal, o que não ocorre.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Intercâmbio sugere uma troca ou influência mútua entre o ideal e a realidade. O texto não apresenta essa troca; ele apresenta uma contraposição. O ideal dos estudantes não influencia a realidade dos conjuntos, que segue uma lógica oposta.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Reiteração sugere que a realidade repete ou reforça o ideal. O texto mostra exatamente o contrário: a realidade dos conjuntos é a negação do ideal expresso no poema. Reiterar seria repetir o ideal na prática, o que não acontece.

Conclusão

A questão se resolve percebendo a oposição explícita entre o ideal de abertura do poema e a realidade opressiva dos conjuntos habitacionais. Ao testar cada alternativa, pergunte: o texto mostra que a realidade complementa, continua, troca ou repete o ideal? Não — o texto mostra que a realidade contradiz o ideal. Essa é a relação que o autor estabelece.

Gabarito: letra B.

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