Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Vozes (Voz Passiva e Voz Ativa) — CESPE / CEBRASPE 2024

PortuguêsVozes (Voz Passiva e Voz Ativa)
Código
ce401877
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
CBM PA
Ano
2024
Cargo
Sold BM ( )

Texto 1A1

 

Nos anos 70, quando eu estudava na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), um dos poemas mais lidos e comentados por estudantes e professores era Fábula de um arquiteto, de João Cabral de Melo Neto: “O arquiteto: o que abre para o homem / (tudo se sanearia desde casas abertas) / portas por-onde, jamais portas-contra; / por onde, livres: ar luz razão certa.”.

 

Esses versos pareciam nortear a concepção e a organização do espaço, trabalho do arquiteto. A utopia possível de vários estudantes era transformar habitações precárias (eufemismo para favelas) em moradias dignas. O exemplo mais famoso naquele tempo era o Conjunto Habitacional Zezinho Magalhães Prado (Parque Cecap) em Guarulhos. Esse projeto de Vilanova Artigas era um dos poucos exemplos de habitação social decente, mas seus moradores não eram ex-favelados.

 

Em geral, a política de habitação popular no Brasil consiste em construir pequenos e opressivos apartamentos ou casas de baixo padrão tecnológico, sem senso estético, sem relação orgânica com a cidade, às vezes sem infraestrutura e longe de áreas comerciais e serviços públicos. Vários desses conjuntos são construídos em áreas ermas, cuja paisagem desoladora lembra antes uma colônia penal.

 

Mas há mudanças e avanços significativos na concepção de projetos de habitação social, infraestrutura, lazer e paisagismo, projetos que, afinal, dizem respeito à democracia e ao fim da exclusão social. Um desses avanços é o trabalho da Usina. Fundada em 1990 por profissionais paulistas, a Usina tem feito projetos de arquitetura e planos urbanísticos criteriosos e notáveis. Trata-se de uma experiência de autogestão na construção, cujos projetos, soluções técnicas e o próprio processo construtivo são discutidos coletivamente, envolvendo os futuros moradores e uma equipe de arquitetos, engenheiros e outros profissionais.

 

Acompanhei jornalistas do Estadão em visitas a conjuntos habitacionais em Heliópolis e na Billings, onde está sendo implantado o Programa Mananciais. Em Heliópolis, Ruy Ohtake projetou edifícios em forma cilíndrica, daí o apelido de redondinhos. A planta dos apartamentos de 50 m² é bem resolvida, os materiais de construção e o acabamento são apropriados, todos os ambientes recebem luz natural. Esse projeto de Ohtake e o de Hector Vigliecca (ainda em construção) revelam avanço notável na concepção da moradia para camadas populares.

 

Um dos projetos do Programa Mananciais é uma ousada e bem-sucedida intervenção urbana numa das áreas mais pobres e também mais belas da metrópole. Situado às margens da Represa Billings, o Parque Linear é, em última instância, um projeto de cidadania que contempla milhares de famílias. Não por acaso esse projeto da equipe do arquiteto Marcos Boldarini recebeu prêmios no Brasil e no exterior.

 

Além do enorme alcance social, o projeto foi pensado para preservar a Billings e suas espécies nativas. Sem ser monumental, o Parque Linear é uma obra grandiosa e extremamente necessária, concebida com sensibilidade estética e funcional que dá dignidade a brasileiros que sempre foram desprezados pelo poder público. É também um exemplo de como os governos federal, estadual e municipal podem atuar em conjunto, deixando de lado as disputas e mesquinharias político-partidárias.

 

Além de arquitetos e engenheiros competentes, o Brasil possui recursos para financiar projetos de habitação popular em larga escala. Mas é preciso aliar vontade política a uma concepção de moradia que privilegie a vida dos moradores e sua relação com o ambiente e o espaço urbano. Porque morar é muito mais que sobreviver em estado precário e provisório.

 

Milton Hatoum. Moradia e (in)dignidade. In: O Estado de S. Paulo, 28/8/2011, p. C8 (com adaptações).

No trecho “o Parque Linear é uma obra grandiosa e extremamente necessária, concebida com sensibilidade estética e funcional que dá dignidade a brasileiros que sempre foram desprezados pelo poder público”, (segundo período do penúltimo parágrafo do texto 1A1), as formas verbais “concebida” e “dá”
  1. Apossuem o mesmo referente.
  2. Bpossuem referentes diferentes e são apresentadas em vozes verbais diferentes.
  3. Cestão apresentadas na mesma voz verbal.
  4. Dtêm referentes diferentes e são apresentadas na mesma voz verbal.
  5. Epossuem o mesmo referente e são apresentadas em vozes verbais diferentes.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — possuem referentes diferentes e são apresentadas em vozes verbais diferentes.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Vozes verbais e referentes de "concebida" e "dá"

Gabarito: letra B. As formas "concebida" e "dá" possuem referentes diferentes e estão em vozes verbais diferentes: "concebida" é particípio de verbo na voz passiva (o Parque Linear foi concebido), enquanto "dá" está na voz ativa (a sensibilidade estética e funcional dá dignidade). A passagem que prova isso está no penúltimo parágrafo do texto 1A1.

"o Parque Linear é uma obra grandiosa e extremamente necessária, concebida com sensibilidade estética e funcional que dá dignidade a brasileiros que sempre foram desprezados pelo poder público"

A questão exige dois movimentos: identificar a que termo cada forma verbal se refere e classificar a voz verbal de cada uma. Vamos ao método.

O comando: análise morfossintática no texto

O enunciado pede que você compare duas formas verbais quanto a dois critérios: o referente (a que palavra cada uma se liga) e a voz verbal (ativa ou passiva). Não é uma questão de interpretação de sentido, mas de gramática aplicada ao texto: você precisa localizar o trecho, identificar os termos e aplicar a teoria das vozes verbais.

O texto: onde mora a resposta

No trecho citado, temos a seguinte estrutura:

  • "o Parque Linear é uma obra grandiosa e extremamente necessária" — o núcleo é "obra".

  • "concebida com sensibilidade estética e funcional" — "concebida" é um particípio que se refere a "obra" (a obra foi concebida).

  • "que dá dignidade a brasileiros" — o pronome relativo "que" retoma "sensibilidade estética e funcional", e o verbo "dá" concorda com esse antecedente (a sensibilidade dá dignidade).

Portanto, os referentes são diferentes: "concebida" refere-se a "obra"; "dá" refere-se a "sensibilidade estética e funcional".

A técnica: identificando a voz verbal

Voz ativa: o sujeito pratica a ação. Voz passiva: o sujeito recebe a ação, formada por verbo ser/estar + particípio.

  • "concebida" — está implícita a locução "foi concebida" (voz passiva analítica). O particípio sozinho, em construção absoluta, mantém o valor passivo: a obra foi concebida por alguém. O sujeito "obra" é paciente.

  • "dá" — verbo "dar" na voz ativa: a sensibilidade pratica a ação de dar dignidade. O sujeito "sensibilidade estética e funcional" é agente.

Assim, a alternativa B está correta: referentes diferentes + vozes verbais diferentes.

Referente: obra
Referente: sensibilidade
Voz passiva
—
dá
Voz ativa
concebida
—
LEVEL · soulevel.com.br

Alternativa A — ❌ Incorreta

Afirma que "concebida" e "dá" possuem o mesmo referente. Falso: "concebida" refere-se a "obra"; "dá" refere-se a "sensibilidade estética e funcional". A alternativa confunde os referentes, ignorando que o pronome relativo "que" retoma o termo imediatamente anterior.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Como demonstrado: referentes diferentes ("obra" × "sensibilidade estética e funcional") e vozes diferentes (passiva × ativa). É a única alternativa que descreve com precisão o que ocorre no trecho.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Afirma que ambas estão na mesma voz verbal. Falso: "concebida" está na voz passiva (particípio com valor passivo), enquanto "dá" está na voz ativa. A alternativa erra na classificação da voz de pelo menos uma das formas.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Diz que têm referentes diferentes (correto) mas estão na mesma voz verbal (errado). O erro está na segunda parte: as vozes são diferentes, não iguais.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Afirma que possuem o mesmo referente (errado) e estão em vozes diferentes (correto). O erro está na primeira parte: os referentes são distintos.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre o referente de "concebida" (que se liga a "obra") e o de "dá" (que se liga a "sensibilidade"). Muitos candidatos acham que ambos se referem a "obra", mas o pronome relativo "que" muda o jogo: ele retoma o termo mais próximo.

PEGA ESSA DICA!

Ao identificar o referente de um pronome relativo, pergunte: "quem dá dignidade?" — a resposta é "a sensibilidade estética e funcional", não "a obra". Esse teste simples resolve a questão.

Gabarito: letra B.

Link permanente: /questoes/ce401877