Hoje, a crise hídrica é política — o que significa dizer não inevitável ou necessária, nem além da nossa capacidade de consertá-la — e, logo, opcional, na prática. Esse é um dos motivos para ser, não obstante, terrível como parábola climática: um recurso abundante torna-se escasso pela falta de infraestrutura, pela poluição e pela urbanização e desenvolvimento descuidados. A crise de abastecimento de água não é inevitável, mas presenciamos uma, de um modo ou de outro, e não estamos fazendo muita coisa para resolvê-la.
Algumas cidades perdem mais água por vazamentos do que a que é entregue nas casas: mesmo nos Estados Unidos da América (EUA), vazamentos e roubos respondem por uma perda estimada de 16% da água doce; no Brasil, a estimativa é de 40%. Em ambos os casos, assim como por toda parte, a escassez se desenrola tão patentemente sobre o pano de fundo das desigualdades entre pobres e ricos que o drama resultante da competição pelo recurso dificilmente pode ser chamado, de fato, de competição; o jogo está tão arranjado que a escassez de água mais parece um instrumento para aprofundar a desigualdade. O resultado global é que pelo menos 2,1 bilhões de pessoas no mundo não têm acesso a água potável segura, e 4,5 bilhões não dispõem de saneamento.
David Wallace-Wells. A terra inabitável: uma história do futuro.
São Paulo: Cia das Letras, 2019. (com adaptações).
Texto CB1A1
Em relação a aspectos linguísticos do texto CB1A1, julgue o próximo item.
A inserção de uma vírgula após “respondem” prejudicaria a correção gramatical do texto.
CCerto
EErrado
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GabaritoC — Certo
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Vírgula entre verbo e complemento: a regra que decide o item
Gabarito: C (Certo). A inserção de uma vírgula após “respondem” prejudicaria a correção gramatical do texto, pois separaria o verbo transitivo indireto de seu complemento, o que é proibido pela norma padrão. No trecho, “respondem” exige a preposição “por” para introduzir o objeto indireto “uma perda estimada de 16% da água doce”; a vírgula nesse ponto quebraria a relação sintática obrigatória entre verbo e complemento.
“vazamentos e roubos respondem por uma perda estimada de 16% da água doce”
A regra é clara: não se separa o verbo de seu complemento (objeto direto ou indireto). A vírgula, nesse contexto, criaria uma pausa indevida que desestruturaria a oração, tornando o período gramaticalmente incorreto.
O comando da questão
O enunciado pede um julgamento (Certo/Errado) sobre um aspecto linguístico — especificamente, sobre o efeito da inserção de uma vírgula em um ponto do texto. Não se trata de interpretação de sentido, mas de correção gramatical (norma padrão). A tarefa é verificar se a vírgula proposta é admissível ou se viola uma regra sintática.
A estrutura do trecho analisado
No segundo parágrafo, o autor escreve:
“mesmo nos Estados Unidos da América (EUA), vazamentos e roubos respondem por uma perda estimada de 16% da água doce”
Aqui, o sujeito é “vazamentos e roubos”; o verbo é “respondem”; e o complemento é “por uma perda estimada de 16% da água doce”. O verbo “responder”, nesse contexto, é transitivo indireto — exige a preposição “por” (responder por algo = ser responsável por algo). O complemento é, portanto, um objeto indireto.
A regra da pontuação é categórica: é proibido separar o verbo de seu complemento (seja objeto direto, seja objeto indireto). A vírgula entre “respondem” e “por uma perda...” criaria uma pausa que desmembra a unidade sintática verbo + complemento, o que é inaceitável na norma culta.
A técnica que decide
Para resolver questões desse tipo, o caminho é:
Identificar a função sintática do termo que viria após a vírgula (no caso, complemento verbal).
Verificar se a vírgula separaria termos que a norma proíbe separar (sujeito de verbo, verbo de complemento, nome de adjunto adnominal, etc.).
Concluir se a inserção é gramaticalmente válida ou não.
Aqui, a vírgula separaria verbo de complemento — um dos casos de proibição do uso da vírgula. Portanto, a inserção prejudicaria a correção gramatical.
Por que as alternativas
C) Certo — ✅ Correto. A vírgula após “respondem” separaria o verbo de seu complemento (“por uma perda estimada de 16% da água doce”), o que é proibido pela norma padrão. O trecho ficaria incorreto: “vazamentos e roubos respondem, por uma perda...”. A regra é absoluta: não se separa verbo de complemento.
E) Errado — ❌ Incorreto. Esta alternativa afirma que a inserção não prejudicaria a correção, o que é falso. A vírgula, nesse ponto, viola a regra de proibição, tornando o período gramaticalmente incorreto.
Casos proibidos de vírgula
1Entre sujeito e verbo
2Entre verbo e complemento
3Entre nome e adjunto adnominal
4Entre oração principal e subordinada substantiva
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NÃO CAIA NESSA!
A banca testa se o candidato conhece os casos de proibição da vírgula. Muitos alunos, ao verem uma pausa natural na leitura, acham que a vírgula é aceitável — mas a vírgula não é pausa para respirar; é marcador sintático. Separar verbo de complemento é erro, independentemente da entonação.
PEGA ESSA DICA!
Memorize os casos proibidos da vírgula: (1) entre sujeito e verbo; (2) entre verbo e complemento; (3) entre nome e adjunto adnominal; (4) entre oração principal e subordinada substantiva (com raras exceções). Se a vírgula separar qualquer um desses pares, está errada.
Conclusão: a inserção de vírgula após “respondem” prejudica a correção gramatical porque separa o verbo transitivo indireto de seu complemento. A alternativa correta é a C (Certo).