Questão de Português — Conjunção — CESPE / CEBRASPE 2024
Português›Conjunção
Código
ce401913
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
MMA
Ano
2024
Cargo
Ana Amb ( )
Hoje, a crise hídrica é política — o que significa dizer não inevitável ou necessária, nem além da nossa capacidade de consertá-la — e, logo, opcional, na prática. Esse é um dos motivos para ser, não obstante, terrível como parábola climática: um recurso abundante torna-se escasso pela falta de infraestrutura, pela poluição e pela urbanização e desenvolvimento descuidados. A crise de abastecimento de água não é inevitável, mas presenciamos uma, de um modo ou de outro, e não estamos fazendo muita coisa para resolvê-la.
Algumas cidades perdem mais água por vazamentos do que a que é entregue nas casas: mesmo nos Estados Unidos da América (EUA), vazamentos e roubos respondem por uma perda estimada de 16% da água doce; no Brasil, a estimativa é de 40%. Em ambos os casos, assim como por toda parte, a escassez se desenrola tão patentemente sobre o pano de fundo das desigualdades entre pobres e ricos que o drama resultante da competição pelo recurso dificilmente pode ser chamado, de fato, de competição; o jogo está tão arranjado que a escassez de água mais parece um instrumento para aprofundar a desigualdade. O resultado global é que pelo menos 2,1 bilhões de pessoas no mundo não têm acesso a água potável segura, e 4,5 bilhões não dispõem de saneamento.
David Wallace-Wells. A terra inabitável: uma história do futuro.
São Paulo: Cia das Letras, 2019. (com adaptações).
Texto CB1A1
Em relação a aspectos linguísticos do texto CB1A1, julgue o próximo item.
A expressão “não obstante” evidencia o contraste estabelecido pelo autor do texto entre o fato de a crise hídrica ser “opcional” e “terrível como parábola climática”.
CCerto
EErrado
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GabaritoC — Certo
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A função contrastiva de “não obstante”
Gabarito: CERTO. A expressão “não obstante” é uma locução conjuntiva adversativa e, no trecho, estabelece exatamente o contraste que o item descreve: entre o fato de a crise hídrica ser “opcional” e o fato de ela ser “terrível como parábola climática”. A passagem que ancora essa leitura é:
“Esse é um dos motivos para ser, não obstante, terrível como parábola climática: um recurso abundante torna-se escasso pela falta de infraestrutura, pela poluição e pela urbanização e desenvolvimento descuidados.”
O item está correto porque “não obstante” introduz uma quebra de expectativa: o autor acabara de dizer que a crise é “opcional, na prática” (algo que se poderia evitar), e logo em seguida afirma que ela é, apesar disso, “terrível como parábola climática”. É precisamente essa oposição entre “opcional” e “terrível” que a conjunção sinaliza.
O comando
A questão pede um julgamento Certo/Errado sobre um aspecto linguístico: o valor semântico da expressão “não obstante” no contexto. Isso é uma questão de coesão sequencial — mais especificamente, de conectivo/operador argumentativo. O que se testa não é o sentido isolado da palavra, mas a relação que ela instaura entre as ideias no texto. Para resolver, é preciso: (1) saber que “não obstante” é uma conjunção adversativa; (2) identificar, no trecho, quais são os dois termos que ela opõe.
O texto e o movimento argumentativo
No primeiro parágrafo, o autor constrói uma tese: a crise hídrica é política, portanto não inevitável, não necessária e opcional na prática. Em seguida, há uma virada: “Esse é um dos motivos para ser, não obstante, terrível como parábola climática”. A conjunção marca exatamente essa virada — o autor reconhece que, mesmo sendo opcional, a crise é terrível como exemplo do que o aquecimento global pode fazer. O contraste não é entre “opcional” e “terrível” como antônimos diretos, mas entre a possibilidade de evitar (opcional) e a gravidade do fenômeno (terrível). É uma oposição lógico-argumentativa, e é isso que o item afirma.
A técnica que decide
A palavra-chave é “não obstante”. No português, essa locução pertence ao grupo das conjunções coordenativas adversativas, ao lado de “mas”, “porém”, “contudo”, “todavia”, “entretanto”, “no entanto”, “ainda assim”. Todas indicam oposição, quebra de expectativa ou contradição entre duas ideias. No trecho, a estrutura é:
Ideia 1: a crise é opcional (não inevitável, consertável).
Conectivo: “não obstante” (apesar disso).
Ideia 2: ela é terrível como parábola climática.
A conjunção não poderia ter outro valor ali: se fosse aditiva (“e”), o autor estaria somando duas qualidades compatíveis; se fosse conclusiva (“portanto”), estaria tirando uma consequência. O sentido de contraste é o único que faz o período funcionar, porque “opcional” e “terrível” apontam em direções opostas — o que é opcional não deveria ser terrível, mas é.
NÃO CAIA NESSA!
A banca não pergunta o que “não obstante” significa isoladamente, mas entre quais ideias ela estabelece contraste. Quem sabe apenas que é adversativa, mas não localiza os dois termos no texto, pode achar que o contraste é entre “crise hídrica” e “política” — e errar. A resposta está na relação que a conjunção cria, não na palavra solta.
Análise do item
Item — ✅ CERTO
O item afirma que “não obstante” evidencia o contraste entre “opcional” e “terrível como parábola climática”. Isso é exatamente o que o texto mostra:
“Esse é um dos motivos para ser, não obstante, terrível como parábola climática”
A locução está entre a ideia de que a crise é “opcional” (frase anterior) e a ideia de que ela é “terrível” (oração seguinte). Ela funciona como uma costura argumentativa: “apesar de ser opcional, é terrível”. O contraste é real, está marcado linguisticamente e o item o descreve com precisão. Não há qualquer extrapolação ou acréscimo de informação — o item apenas nomeia a relação que o conectivo instaura.
PEGA ESSA DICA!
Para questões de conectivo, faça o teste da substituição: troque “não obstante” por “apesar disso” ou “no entanto”. Se o período continuar com o mesmo sentido, o valor é adversativo. Depois, pergunte: entre quais ideias o conectivo está? A resposta é o contraste que a banca quer.
Conclusão: a questão ensina que conectivo não se decora — se aplica ao texto. “Não obstante” é adversativa, e o contraste que ela marca é precisamente entre a opcionalidade da crise e sua gravidade como parábola climática. O item está CERTO.