Acho que foi em 1995 que o então presidente de Portugal me deu uma condecoração que muito me orgulha: a da Ordem do Infante Dom Henrique. No momento em que lhe agradeci a honraria, Mário Soares me convidou a ir a Portugal. Respondi que, não gostando de viajar, nunca saíra do Brasil, mas, que, se, um dia, isso viesse a acontecer, minha preferência seria por Portugal, por ser, entre os países da Europa, “o único onde o povo tem o bom senso de falar português”.
Pode-se imaginar, então, como fico preocupado ao ver a língua portuguesa desfigurada, como está acontecendo. Sei perfeitamente que um idioma é uma coisa viva e pulsante. Não queremos isolar o português, que, como acontece com qualquer outra língua, se enriquece com as palavras e expressões das outras. Todavia, elas devem ser adaptadas à forma e ao espírito do idioma que as acolhe. Somente assim é que deixam de ser mostrengos que nos desfiguram e se transformam em incorporações que nos enriquecem.
Cito um caso, para exemplificar: no país onde se joga o melhor futebol do mundo, traduziram, e bem, a palavra inglesa goal por gol, mas estão escrevendo seu plural de maneira errada, gols (e não gois, como é exigido, ao mesmo tempo, pelo bom gosto, pelo espírito e pela forma da nossa língua). E isso em um setor em que, para substituir os vocábulos estrangeiros, foram adotadas palavras tão boas quanto zaga, escanteio e impedimento, entre outras.
Ariano Suassuna. Folha de S. Paulo, 5/4/2000 (com adaptações).
Texto 10A1
Tendo o texto 10A1 como referência, assinale a opção correta no que diz respeito à classificação da oração “que um idioma é uma coisa viva e pulsante”.
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Classificação da oração “que um idioma é uma coisa viva e pulsante”
Gabarito: letra D. A oração destacada é uma subordinada substantiva objetiva direta, pois exerce a função de objeto direto do verbo saber (“Sei perfeitamente que um idioma é uma coisa viva e pulsante”). A prova está no próprio texto: o verbo saber é transitivo direto — quem sabe, sabe algo — e a oração introduzida pela conjunção integrante que preenche exatamente esse “algo”.
O comando
A questão pede a classificação sintática de uma oração específica. Isso é diferente de pedir o sentido ou a função textual: aqui, o foco é a relação de subordinação entre a oração e o verbo da oração principal. Para resolver, você precisa identificar o verbo da principal, verificar sua transitividade e, então, determinar qual função sintática a oração subordinada exerce.
O texto
No segundo parágrafo, o autor escreve:
“Sei perfeitamente que um idioma é uma coisa viva e pulsante.”
A oração principal é “Sei perfeitamente”. O verbo sei (saber) é transitivo direto: quem sabe, sabe algo. Esse “algo” é exatamente a oração “que um idioma é uma coisa viva e pulsante”. Portanto, ela funciona como objeto direto do verbo. A conjunção que que a introduz é uma conjunção integrante, marca típica das orações subordinadas substantivas.
A técnica
Para classificar uma oração subordinada substantiva, o método é:
Identifique o verbo da oração principal e sua transitividade.
Substitua a oração por “isso” (ou “isto”). Se a frase continuar fazendo sentido, é uma substantiva.
Verifique a função sintática que a oração exerce em relação ao verbo: sujeito, objeto direto, objeto indireto, predicativo, complemento nominal ou aposto.
Aplicando ao caso: “Sei isso” — a oração é o objeto direto de sei. Logo, objetiva direta.
Análise das alternativas
Oração subordinada substantiva
1Função sintática
Sujeito
Objeto direto
Objeto indireto
Predicativo
Complemento nominal
Aposto
2Marca típica
Conjunção integrante (que, se)
3Teste de identificação
Substituir por "isso"
Verificar transitividade do verbo
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Subordinada adverbial final — errada. Orações adverbiais finais indicam finalidade e são introduzidas por conjunções como para que, a fim de que. No trecho, não há ideia de finalidade; a oração é complemento do verbo, não uma circunstância.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Coordenada sindética explicativa — errada. Orações coordenadas são independentes entre si, ligadas por conjunção coordenativa (ex.: pois, porque). Aqui, a oração é subordinada, pois depende do verbo sei para ter sentido completo. Não há coordenação.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Subordinada adjetiva restritiva — errada. Orações adjetivas são introduzidas por pronome relativo (que, o qual, cujo) e exercem função de adjunto adnominal, modificando um substantivo. No trecho, o que é conjunção integrante, não pronome relativo, e a oração não modifica substantivo algum — ela completa o verbo.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Subordinada substantiva objetiva direta — correta. Como demonstrado, a oração exerce a função de objeto direto do verbo saber (transitivo direto). A conjunção que é integrante, e a oração pode ser substituída por “isso”: “Sei isso”.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Subordinada substantiva predicativa — errada. A oração predicativa exerce função de predicativo do sujeito e ocorre com verbo de ligação (ser, estar, parecer). No trecho, o verbo é saber (transitivo direto), não de ligação. Não há predicativo.
NÃO CAIA NESSA!
A banca mistura os tipos de oração subordinada. A chave é sempre verificar o verbo da principal e a função sintática da oração. Não se deixe levar pelo “que” — ele pode ser conjunção integrante (substantiva) ou pronome relativo (adjetiva).
PEGA ESSA DICA!
Substitua a oração por “isso”. Se a frase continuar coerente, é substantiva. Depois, pergunte: “quem sabe, sabe o quê?” — a resposta é o objeto direto.
Conclusão: a oração “que um idioma é uma coisa viva e pulsante” é subordinada substantiva objetiva direta, pois completa o sentido do verbo transitivo direto saber. As demais alternativas ou confundem o tipo de subordinação ou a função sintática.