Eu vi Olívia. Ela estava na última mesa, depois de
algumas outras mesas ocupadas, sozinha, escrevendo. Em volta,
um silêncio que as mesas barulhentas, os carros que passavam, as
pessoas que corriam não podiam interromper. Ela escrevia sem
fazer a menor ideia de que aquele era o meu lugar. Era onde eu
me sentia melhor, era meu por obrigação de me sentir melhor.
Onde eu me esquecia menos. Lembrar se tornou prioridade
absoluta. Pensei: vou pedir que ela me devolva, ou que me ceda,
para não ser agressiva, o lugar onde me sinto melhor. Tenho uma
recomendação expressa de meu médico de me sentir melhor
sempre que possível. E seria possível se ela saísse de lá e me
deixasse sentar e folhear os livros do sebo, que tão bem me
fazem quando me lembram de que sempre haverá outra realidade
para onde me retirar. Pensei em ir até ela e pedir gentilmente que
saísse, mas vi que se entregava consumida a uma escrita sem
pausas.
Eu vi Olívia. Meu Deus, como eu vi Olívia! Cabelo ruivo,
olhos verdes, linda, linda, desconcertantemente linda e atenta a
alguma coisa que borbulhava dentro dela. Talvez linda porque
imersa em borbulhas. Não, definitivamente não apenas. Linda
pelos olhos verdes, o cabelo ruivo e os dentes sem sombras.
Linda pela larga atmosfera triste que emoldurava seus gestos.
Vestia verde-oliva. Olívia e oliva combinavam. Ela sabia.
Respirava como quem sabia. Ocorreu-me que ela seria capaz de
coisas improváveis se eu interrompesse a frase que escrevia
obstinada, fazendo com suas ideias o que alfinetes fazem com
balões. Acho. Foi bom não ter certeza. Só avancei porque minhas
certezas se evaporaram; eu não as tenho desde que envelheci.
Continuei indo em sua direção, no meu passo de velha senhora.
Eu já estava quase chegando, quase atravessando o silêncio de
Olívia, quando ela parou e chorou. Fez com que eu parasse
também, não podia pedir a alguém chorando que saísse de onde
estava para que eu me sentisse melhor. Ela enxugou com o punho
as lágrimas, que voltavam a escorrer desobedientes. Punhos oliva
secando lágrimas transparentes, tudo enchia meus olhos ávidos
de literatura. Ela relia o que havia escrito, chorava, e eu
suspeitava que, por um segundo, um miserável segundo, também
ria. Olívia chorava e ria. E eu fiquei ali, na fronteira entre o
barulho e o silêncio, vendo aquela menina, seguramente uma
menina se comparada a mim, suspender meu próprio caos como
se fosse mágica.
Carla Madeira. A natureza da mordida. 1.a
ed. Rio de Janeiro: Record, 2022 (com adaptações).
O uso da próclise no trecho “sempre haverá outra realidade para onde me retirar” é justificado pela seguinte regra: usa-se a próclise quando o pronome oblíquo é precedido por
Aum advérbio.
Bum pronome relativo.
Cum pronome substantivo.
Duma conjunção subordinativa.
Euma preposição seguida de gerúndio.
Revelar gabarito e comentário▾
GabaritoB — um pronome relativo.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Colocação Pronominal: Próclise por Pronome Relativo
Gabarito: letra B. A próclise em “para onde me retirar” é justificada porque o pronome oblíquo “me” é precedido pelo pronome relativo “onde”, que funciona como palavra atrativa. No trecho, “onde” retoma o substantivo “realidade” e introduz a oração subordinada adjetiva “onde me retirar”, atraindo o pronome para antes do verbo.
O Comando
A questão pede que você identifique a regra que justifica o uso da próclise em um trecho específico. Isso é diferente de pedir para você apenas reconhecer se a próclise está correta ou não. Aqui, o foco é a causa da próclise: qual classe de palavra, presente antes do pronome, exige que ele fique em posição proclítica. Você precisa, portanto, analisar a estrutura sintática do trecho e identificar o termo que antecede o pronome oblíquo átono.
O Texto e a Técnica
No trecho “sempre haverá outra realidade para onde me retirar”, a oração principal é “sempre haverá outra realidade”. A ela se liga a oração “para onde me retirar”, que exerce a função de oração subordinada adjetiva restritiva, pois caracteriza e restringe o sentido de “realidade”. Essa oração é introduzida pelo pronome relativo “onde”, que retoma o antecedente “realidade”.
A regra da colocação pronominal é clara: palavras atrativas puxam o pronome oblíquo átono para antes do verbo, gerando a próclise. Entre essas palavras atrativas estão os pronomes relativos (que, quem, onde, cujo, o qual, etc.). No trecho, o pronome relativo “onde” é o termo que antecede imediatamente o pronome “me”, funcionando como o gatilho da próclise.
“sempre haverá outra realidade para onde me retirar”
A presença do pronome relativo “onde” é o fator decisivo. Ele é o termo atrativo que obriga o pronome “me” a vir antes do verbo “retirar”.
Análise das Alternativas
Alternativa A — ❌ Incorreta
Erro: troca de conceito. A alternativa afirma que a próclise é justificada por um advérbio. No trecho, a palavra “sempre” é, de fato, um advérbio, mas ela não está imediatamente antes do pronome “me”. O advérbio “sempre” está antes do verbo “haverá”, na oração principal, e não exerce influência direta sobre a colocação do pronome na oração subordinada. O termo que antecede o pronome é o relativo “onde”.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa correta. O pronome relativo “onde” é uma palavra atrativa que, por estar antes do pronome oblíquo “me”, exige a próclise. A regra é: usa-se a próclise quando o pronome oblíquo é precedido por pronome relativo. No trecho, “onde” é o pronome relativo que introduz a oração adjetiva e atrai o pronome.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Erro: troca de conceito. A alternativa menciona “pronome substantivo”, que não é uma classificação relevante para a colocação pronominal. Os pronomes relativos, indefinidos, interrogativos e demonstrativos são as classes que atraem a próclise. O termo “onde” no trecho é um pronome relativo, não um pronome substantivo.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Erro: troca de conceito. A alternativa afirma que a próclise é justificada por uma conjunção subordinativa. Embora as conjunções subordinativas sejam palavras atrativas, no trecho “para onde me retirar”, a palavra “onde” não é uma conjunção, mas sim um pronome relativo. A preposição “para” que a antecede faz parte da locução, mas o termo que atrai o pronome é o relativo.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Erro: troca de conceito. A alternativa menciona “preposição seguida de gerúndio”. No trecho, não há gerúndio; o verbo “retirar” está no infinitivo. Além disso, a regra que envolve gerúndio é específica para a forma “em + gerúndio” (ex.: “em se tratando”), que não se aplica ao caso.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre o advérbio “sempre”, que está presente no trecho, e o pronome relativo “onde”, que é o termo que realmente antecede o pronome oblíquo. A alternativa A é a mais sedutora, pois o advérbio existe, mas não é ele que justifica a próclise.
PEGA ESSA DICA!
Ao resolver questões de colocação pronominal, identifique exatamente a palavra que antecede o pronome oblíquo. Pergunte-se: “qual termo vem imediatamente antes do pronome?”. A resposta será a palavra atrativa que justifica a próclise.