Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2024
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce401953
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
Pref Joinville
Ano
2024
Cargo
Prof ( )
Na escola, sem Bibiana ao meu lado para me ajudar, minha vida se tornou um tormento. Desde o início, minha mãe avisou à dona Lourdes, a nova professora, da minha mudez. Ela foi cuidadosa, no começo, e bastante generosa para me ensinar as tarefas. Àquela altura eu já sabia ler, graças muito mais aos esforços de minha irmã mais velha e minha mãe do que da professora sem paciência que dava aula na casa de dona Firmina. Para mim era o suficiente. Diferente de Bibiana, que falava em ser professora, eu gostava mesmo era da roça, da cozinha, de fazer azeite e de despolpar o buriti. Não me atraía a matemática, muito menos as letras de dona Lourdes. Não me interessava por suas aulas em que contava a história do Brasil, em que falava da mistura entre índios, negros e brancos, de como éramos felizes, de como nosso país era abençoado. Não aprendi uma linha do hino nacional, não me serviria, porque eu mesma não posso cantar. Muitas crianças também não aprenderam, pude perceber, estavam com a cabeça na comida ou na diversão que estavam perdendo na beira do rio, para ouvir aquelas histórias fantasiosas e enfadonhas sobre os heróis bandeirantes, depois os militares, as heranças dos portugueses e outros assuntos que não nos diziam muita coisa.
Meu desinteresse só fazia crescer. Tinha a sensação de que perdia meu tempo naquela sala quente, ouvindo aquela senhora de mãos finas e sem calos, com um perfume forte que parecia incensar a escola nos dias de calor. Olhava para o quadro verde, as letras embaralhadas, bonitas, mas que formavam palavras e frases difíceis que não entravam em minha cabeça, e pensava em meu pai na várzea encontrando coisa nova na terra para a qual se dedicar, ou minha mãe cuidando do quintal, dos bichos, costurando.
Itamar Vieira Jr. Torto arado. São Paulo: Todavia, 2019, p. 97-8 (com adaptações).
Texto 10A3-I
Entende-se do texto 10A3-I que o desinteresse da narradora pelos estudos deveu-se, sobretudo,
Aà sua deficiência: ela era muda e, por isso, tinha muita dificuldade para aprender a ler.
Bà falta de paciência da professora, agravada pela falta de ajuda dos colegas no desempenho das tarefas.
Càs suas necessidades especiais, além de sua mudez, que impediram o aprendizado tradicional dos conteúdos escritos.
Dao distanciamento entre os assuntos estudados na escola e à sua vivência de menina do meio rural.
Eàs condições precárias do ambiente escolar, agravadas pelo abafamento do calor constante e dos odores fortes das pessoas.
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GabaritoD — ao distanciamento entre os assuntos estudados na escola e à sua vivência de menina do meio rural.
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O desinteresse da narradora pelos estudos
Gabarito: letra D. O desinteresse da narradora pelos estudos deveu-se, sobretudo, ao distanciamento entre os assuntos estudados na escola e sua vivência de menina do meio rural. O texto sustenta essa leitura ao contrapor, de um lado, o que a escola ensinava — "histórias fantasiosas e enfadonhas sobre os heróis bandeirantes, depois os militares, as heranças dos portugueses e outros assuntos que não nos diziam muita coisa" — e, de outro, o que realmente atraía a narradora: "eu gostava mesmo era da roça, da cozinha, de fazer azeite e de despolpar o buriti". A alternativa D é a única que capta essa oposição central entre o conteúdo escolar e a vida rural da personagem.
O comando pede uma compreensão do texto: "Entende-se do texto... que o desinteresse... deveu-se, sobretudo". Isso significa que a resposta deve ser uma paráfrase fiel de uma ideia que o texto explicita — não uma inferência ousada, nem uma opinião pessoal. A palavra "sobretudo" indica que devemos identificar a causa principal apontada pelo autor, e não qualquer motivo secundário. Portanto, a técnica é: localizar no texto a passagem que explica o desinteresse e verificar qual alternativa a reescreve com precisão, sem acrescentar ou restringir nada.
O texto é um trecho de Torto Arado, de Itamar Vieira Jr., narrado em primeira pessoa por uma menina muda que vive no meio rural. O primeiro parágrafo estabelece o contraste: ela já sabia ler, mas não se interessava pelas aulas de dona Lourdes, que contavam "a história do Brasil, em que falava da mistura entre índios, negros e brancos, de como éramos felizes, de como nosso país era abençoado". A narradora rejeita essas narrativas porque não se identificam com sua realidade: "outros assuntos que não nos diziam muita coisa". O segundo parágrafo reforça o distanciamento: ela pensa no pai "na várzea encontrando coisa nova na terra" e na mãe "cuidando do quintal, dos bichos, costurando", enquanto as letras no quadro "formavam palavras e frases difíceis que não entravam em minha cabeça". A causa do desinteresse, portanto, não é a mudez (ela já sabia ler), nem a falta de paciência da professora (que foi "cuidadosa, no começo"), mas a incompatibilidade entre o conteúdo escolar e a vida concreta da menina.
A armadilha central desta questão é a extrapolação com um fato verdadeiro: a narradora é muda, e isso é um dado real do texto. As alternativas A, B, C e E pegam esse dado (ou outros elementos periféricos) e o transformam na causa principal do desinteresse, quando o texto aponta outra direção. A banca conta com o candidato que, ao ver "muda" no texto, escolhe uma alternativa que destaca a deficiência — mas o texto diz explicitamente que ela "já sabia ler" e que o problema era o conteúdo das aulas. A alternativa D, por sua vez, não menciona a mudez, mas capta a essência do conflito: o distanciamento entre o que a escola ensina e a vivência rural da narradora.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a extrapolação com um fato verdadeiro. A mudez da narradora é real, mas o texto não a apresenta como causa do desinteresse — pelo contrário, afirma que ela "já sabia ler". As alternativas A, B, C e E usam esse dado (ou outros elementos periféricos) para desviar a atenção da causa principal, que é o distanciamento entre o conteúdo escolar e a vida rural.
Alternativa A — ❌ Incorreta
"Àquela altura eu já sabia ler, graças muito mais aos esforços de minha irmã mais velha e minha mãe do que da professora sem paciência que dava aula na casa de dona Firmina."
O texto afirma que a narradora já sabia ler antes mesmo das aulas com dona Lourdes. Portanto, a mudez não a impedia de aprender a ler — ela já tinha essa habilidade. A alternativa contradiz o texto ao afirmar que ela "tinha muita dificuldade para aprender a ler" por causa da mudez. O desinteresse não está ligado à deficiência em si, mas ao conteúdo das aulas.
Alternativa B — ❌ Incorreta
"Ela foi cuidadosa, no começo, e bastante generosa para me ensinar as tarefas."
O texto diz que a professora foi "cuidadosa" e "generosa" no início. A alternativa extrapola ao afirmar que a "falta de paciência" da professora foi a causa do desinteresse, agravada pela falta de ajuda dos colegas. O texto menciona a "professora sem paciência" apenas em referência à escola anterior ("a professora sem paciência que dava aula na casa de dona Firmina"), não à atual. Além disso, a falta de ajuda dos colegas não é mencionada como causa do desinteresse — Bibiana, que ajudava, não está mais presente, mas o texto não diz que isso foi decisivo.
Alternativa C — ❌ Incorreta
"Não me atraía a matemática, muito menos as letras de dona Lourdes."
A alternativa extrapola ao afirmar que a narradora tinha "necessidades especiais, além de sua mudez, que impediram o aprendizado tradicional dos conteúdos escritos". O texto não menciona nenhuma outra necessidade especial além da mudez, e mesmo esta não é apresentada como impedimento — ela já sabia ler. A causa do desinteresse não é uma incapacidade, mas a falta de identificação com o conteúdo.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"Não me interessava por suas aulas em que contava a história do Brasil, em que falava da mistura entre índios, negros e brancos, de como éramos felizes, de como nosso país era abençoado."
"...outros assuntos que não nos diziam muita coisa."
"Diferente de Bibiana, que falava em ser professora, eu gostava mesmo era da roça, da cozinha, de fazer azeite e de despolpar o buriti."
A alternativa D é uma paráfrase fiel da causa principal do desinteresse. O texto contrapõe o conteúdo escolar ("histórias fantasiosas e enfadonhas sobre os heróis bandeirantes") à vivência rural da narradora ("eu gostava mesmo era da roça, da cozinha"). O distanciamento entre esses dois mundos é o que explica o desinteresse: os assuntos estudados "não nos diziam muita coisa". A alternativa capta exatamente essa oposição.
Alternativa E — ❌ Incorreta
"Tinha a sensação de que perdia meu tempo naquela sala quente, ouvindo aquela senhora de mãos finas e sem calos, com um perfume forte que parecia incensar a escola nos dias de calor."
A alternativa extrapola ao afirmar que as "condições precárias do ambiente escolar" foram a causa principal do desinteresse. O texto menciona a sala quente e o perfume forte, mas esses são elementos descritivos que reforçam o desconforto, não a causa central. A causa principal é o distanciamento entre o conteúdo e a vida da narradora, como provam as passagens citadas na alternativa D.
Conclusão: a questão testa a capacidade de identificar a causa principal de um comportamento descrito no texto. A alternativa D é a única que se ancora diretamente na oposição entre o conteúdo escolar e a vivência rural da narradora, sem extrapolar ou contradizer o texto. As demais alternativas ou contradizem o texto (A), ou extrapolam elementos periféricos (B, C, E).
PEGA ESSA DICA!
Ao responder questões de compreensão, grife no texto a passagem que explica o fenômeno pedido no enunciado. Depois, teste cada alternativa perguntando: "o texto autoriza esta afirmação, ou exige acrescentar algo de fora?". A correta será sempre a que reescreve fielmente o que está escrito.