Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2024

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce401989
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
PC PE
Ano
2024
Cargo
Ag Pol ( )

De modo geral, os dados sobre crime e segurança pública divulgados na edição de 2022 do Anuário Brasileiro de Segurança Pública são reveladores de um quadro que, em uma primeira leitura, rende boas notícias para governos e sociedade. A violência letal, aquela que envolve, sob diferentes tipos jurídicos possíveis, situações em que uma pessoa mata a outra, manteve a tendência nacional de queda iniciada em 2018, mesmo que os números de 2022 indiquem uma curva de desaceleração. Porém, em uma segunda e mais panorâmica leitura do cenário sobre crime e violência no Brasil, há movimentos preocupantes e tendências que começam a ganhar corpo e merecem maior atenção dos profissionais da segurança pública, dos tomadores de decisão política e dos pesquisadores. Esse é o caso dos crimes patrimoniais, cujos movimentos sinalizam uma forte reconfiguração de como tais crimes são cometidos, sobretudo a partir da pandemia de covid-19, incluindo-se a migração dos roubos para modalidades como furtos, estelionatos e golpes virtuais.

 

Vale ressaltar, no entanto, que essa não é uma tendência exclusivamente brasileira. As oportunidades para o cometimento de ilícitos variam de acordo com as modalidades criminais. Roubos e furtos, por exemplo, dependem em grande medida do fluxo de pessoas que circulam pelas cidades, o que foi severamente restringido pelas medidas de isolamento social em todo o mundo. Já crimes que envolvem roubo e invasão de residências tornaram-se mais complexos para os criminosos, já que as famílias passaram mais tempo dentro de suas casas.

 

Um estudo que analisou dados criminais de 27 cidades em 23 países, para compreender o impacto da pandemia e das medidas de isolamento social nas dinâmicas criminais, constatou redução de 37% nos crimes globalmente. Agressões tiveram queda de 35% em decorrência das restrições de circulação e os homicídios tiveram, em média, queda de 14%, com apenas três cidades com crescimento. As violações de domicílio caíram cerca de 28% após a implementação das restrições e os roubos de veículos apresentaram redução de 39%.

 

No Brasil, o mesmo contexto foi observado, com queda generalizada dos indicadores de crimes patrimoniais nos anos de 2020 e 2021. A partir de 2022, no entanto, algumas modalidades criminais retomaram tendências pré-pandemia, com crescimento dos roubos e furtos de celulares e de veículos. Outras, entretanto, seguem em queda, como é o caso de roubos a instituições financeiras (-21,9%), de carga (-4,4%), a estabelecimentos comerciais (-15,6%) e a residências (-13,3%).

 

Renato Sérgio de Lima e Samira Bueno. As novas configurações dos crimes patrimoniais no Brasil. In: Anuário Brasileiro de Segurança Pública / Fórum Brasileiro de Segurança Pública. São Paulo: FBSP, 2023, pp. 90-91 (com adaptações).

Texto

   

A partir das ideias veiculadas no texto, é correto inferir que

  1. Aos crimes que envolvem roubo e invasão de residências diminuíram durante a pandemia de covid-19, pois as famílias passavam mais tempo dentro de suas casas, o que dificultava o acesso dos criminosos a estas.
  2. Bum estudo que analisou dados criminais de cidades no Brasil para compreender o impacto da pandemia e das medidas de isolamento social nas dinâmicas criminais constatou redução de 37% nos crimes patrimoniais.
  3. Cos crimes patrimoniais diminuíram no Brasil, por isso eles não requerem mais tanta preocupação das autoridades policiais do país.
  4. Das oportunidades para o cometimento de ilícitos variam de acordo com o país e sua população.
  5. Ea partir de 2022, algumas modalidades criminais passaram a indicar uma curva de desaceleração, como é o caso dos roubos e furtos de celular e de veículos.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — os crimes que envolvem roubo e invasão de residências diminuíram durante a pandemia de covid-19, pois as famílias passavam mais tempo dentro de suas casas, o que dificultava o acesso dos criminosos a estas.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Inferência sobre os crimes patrimoniais na pandemia

Gabarito: letra A. A alternativa correta é a única que se apoia em uma inferência legítima — uma dedução ancorada em pistas explícitas do texto —, enquanto as demais ou extrapolam o que foi dito, ou contradizem dados apresentados, ou restringem indevidamente o alcance das afirmações. A passagem que sustenta a letra A está no segundo parágrafo, quando o autor explica por que crimes de roubo e invasão de residências tornaram-se mais complexos durante a pandemia.

O comando: inferir, não localizar

O enunciado pede que se infira algo a partir das ideias do texto. Isso muda tudo: não basta achar uma frase que diga exatamente o mesmo que a alternativa (isso seria compreensão/recorrência); é preciso deduzir uma conclusão que o texto não afirma literalmente, mas que obrigatoriamente decorre de suas pistas. A inferência legítima se apoia em pressupostos — informações implícitas que o próprio texto deixa escapar. Deduzir além dessas pistas é extrapolar, e extrapolar é errar, ainda que a alternativa soe verdadeira no mundo real.

O texto: a reconfiguração dos crimes patrimoniais

O texto tem uma tese central: os crimes patrimoniais no Brasil passaram por uma forte reconfiguração a partir da pandemia, com migração de modalidades (roubos virando furtos, estelionatos e golpes virtuais). No segundo parágrafo, o autor explica que as oportunidades para o crime variam conforme a modalidade: roubos e furtos dependem do fluxo de pessoas nas ruas (restringido pelo isolamento), e os crimes de roubo e invasão de residências tornaram-se mais complexos porque as famílias passaram mais tempo em casa. É exatamente essa relação de causa e consequência que a alternativa A captura.

A técnica que decide: causa e consequência explícitas

A alternativa A não inventa nada: ela parafraseia a relação causal que o texto estabelece. Veja o trecho decisivo:

"Já crimes que envolvem roubo e invasão de residências tornaram-se mais complexos para os criminosos, já que as famílias passaram mais tempo dentro de suas casas."

O conectivo "já que" é uma conjunção causal: introduz a razão pela qual os crimes ficaram mais complexos. A alternativa A diz exatamente isso: os crimes diminuíram (o texto diz que "tornaram-se mais complexos", o que implica maior dificuldade e, portanto, menor ocorrência) porque as famílias passavam mais tempo em casa, o que dificultava o acesso dos criminosos. A palavra "diminuíram" é uma inferência — o texto não diz literalmente "diminuíram", mas diz que ficaram "mais complexos", e complexidade maior para o criminoso implica, logicamente, tendência de queda. Essa é a inferência ancorada em pista.

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa A é uma inferência legítima porque se apoia em dois elementos do texto: (1) a relação causal explícita pelo "já que" — as famílias em casa dificultam o crime; (2) a consequência lógica — dificuldade maior para o criminoso implica redução da prática. O texto ainda reforça isso no terceiro parágrafo, ao citar o estudo internacional que constatou queda de 28% nas violações de domicílio após as restrições. A alternativa não acrescenta informação de fora; ela apenas explicita o que o texto pressupõe.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto (troca de escopo). A alternativa diz que o estudo analisou "dados criminais de cidades no Brasil" e constatou redução de 37% nos "crimes patrimoniais". O texto, porém, afirma:

"Um estudo que analisou dados criminais de 27 cidades em 23 países... constatou redução de 37% nos crimes globalmente."

O estudo é internacional, não brasileiro, e a redução de 37% é global (todos os crimes), não especificamente patrimonial. A alternativa restringe o alcance geográfico (Brasil em vez de 23 países) e restringe o tipo de crime (patrimoniais em vez de todos). É uma dupla restrição indevida.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erro: extrapola e acrescenta opinião. O texto diz que os crimes patrimoniais tiveram queda em 2020 e 2021, mas não diz que eles "não requerem mais tanta preocupação". Pelo contrário, o primeiro parágrafo afirma que há "movimentos preocupantes" e que os crimes patrimoniais "merecem maior atenção dos profissionais da segurança pública, dos tomadores de decisão política e dos pesquisadores". A alternativa contradiz a tese central do texto e ainda embute um juízo de valor (a ideia de que queda = menos preocupação) que o autor não externou.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: extrapola (generalização indevida). O texto diz que "as oportunidades para o cometimento de ilícitos variam de acordo com as modalidades criminais" — ou seja, variam conforme o tipo de crime, não conforme o país e sua população. A alternativa troca o critério: o texto fala em modalidade, a alternativa fala em país/população. É uma troca de conceito que desloca o sentido da afirmação original.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto (inversão de sentido). A alternativa diz que, a partir de 2022, algumas modalidades "passaram a indicar uma curva de desaceleração". O texto, porém, afirma o oposto:

"A partir de 2022... algumas modalidades criminais retomaram tendências pré-pandemia, com crescimento dos roubos e furtos de celulares e de veículos."

A curva de desaceleração é mencionada no primeiro parágrafo em relação à violência letal (homicídios), não aos crimes patrimoniais. A alternativa mistura informações de parágrafos diferentes e inverte o sentido: o que o texto diz é que houve crescimento, não desaceleração.

NÃO CAIA NESSA!

A banca adora extrapolar com um fato verdadeiro (como a queda de crimes na pandemia) e trocar o escopo (Brasil × mundo, patrimoniais × todos os crimes). Teste cada alternativa perguntando: o texto autoriza isto, ou exige acrescentar algo de fora?

PEGA ESSA DICA!

Grife o comando — "é correto inferir" pede dedução com pista, não localização literal. E desconfie de palavras absolutas como "não requerem mais" (letra C) e de trocas de escopo geográfico (letra B).

Gabarito: letra A. A única alternativa inteiramente sustentada pelo texto — nem mais, nem menos do que ele diz.

Link permanente: /questoes/ce401989