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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2024

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce402016
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
MPE TO
Ano
2024
Cargo
Ana Min ( )

Trabalho e educação são atividades especificamente humanas. Isso significa que, rigorosamente falando, apenas o ser humano trabalha e educa. Assim, a pergunta sobre os fundamentos ontológicos da relação trabalho -educação traz imediatamente à mente a questão: quais são as características do ser humano que lhe permitem realizar as ações de trabalhar e de educar? Ou: o que é que está inscrito no ser do humano que lhe possibilita trabalhar e educar?


Perguntas desse tipo pressupõem que o ser humano esteja previamente constituído como ser que possui propriedades que lhe permitem trabalhar e educar. Pressupõe-se, portanto, uma definição de ser humano que indique em que ele consiste, isto é, sua característica essencial a partir da qual se possa explicar o trabalho e a educação como atributos desse ser. E, nesse caso, fica aberta a possibilidade de que trabalho e educação sejam considerados atributos essenciais do ser humano, ou acidentais.


Na definição de ser humano mais difundida (animal racional), o atributo essencial é dado pela racionalidade, consoante o significado clássico de definição estabelecido por Aristóteles: uma definição dá-se pelo gênero próximo e pela diferença específica. Pelo gênero próximo, indica-se aquilo que o objeto definido tem em comum com outros seres de espécies diferentes (no caso em tela, o gênero animal); pela diferença específica, indica-se a espécie, isto é, o que distingue determinado ser dos demais que pertencem ao mesmo gênero (no caso do ser humano, a racionalidade). Consequentemente, sendo o ser humano definido pela racionalidade, é esta que assume o caráter de atributo essencial desse ser.


Ora, assim entendido o ser humano, vê-se que, embora trabalhar e educar possam ser reconhecidos como atributos humanos, eles o são em caráter acidental, e não substancial. Com efeito, o mesmo Aristóteles, considerando como próprio do ser humano o pensar, o contemplar, reputa o ato produtivo, o trabalho, como uma atividade não digna de seres humanos livres.


Diversamente, Bergson, ao analisar o desenvolvimento do impulso vital na obra Evolução criadora, observa que “torpor vegetativo, instinto e inteligência” são os elementos comuns às plantas e aos animais. E, definindo a inteligência pela fabricação de objetos, fenômeno identificado como comum aos animais, encontra no ser humano a particularidade da fabricação de objetos artificiais, o que lhe permite avançar à seguinte conclusão: “Se pudéssemos nos despir de todo orgulho, se, para definir nossa espécie, nos ativéssemos estritamente ao que a história e a pré-história nos apresentam como a característica constante do ser humano e da inteligência, talvez não disséssemos Homo sapiens, mas Homo faber. Em conclusão, a inteligência, encarada no que parece ser o seu empenho original, é a faculdade de fabricar objetos artificiais, sobretudo ferramentas para fazer ferramentas, e de diversificar ao infinito a fabricação delas.”.


Demerval Saviani. Trabalho e educação:

fundamentos ontológicos e históricos. Internet: <www.scielo.br> (com adaptações).

Texto 11A1

 

Em relação às ideias apresentadas no texto 11A1 e às relações de coerência nele presentes, julgue o item que se segue.

 

As perguntas apresentadas no parágrafo introdutório sugerem ao leitor uma possível linha de raciocínio que será percorrida no desenvolvimento do texto, ainda que, no contexto analisado, essas perguntas sejam desconsideradas e não se busque respondê-las.

  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Função das perguntas na estruturação do texto

Gabarito: ERRADO. A afirmação de que as perguntas do parágrafo introdutório são "desconsideradas e não se busque respondê-las" contradiz o texto, que as utiliza como fio condutor do desenvolvimento. O autor as apresenta e, ao longo do texto, responde a elas, mostrando como diferentes concepções de ser humano (racional, faber) explicam o trabalho e a educação.

O comando pede uma avaliação de coerência: verificar se a relação entre as partes do texto é lógica e se a afirmação sobre o papel das perguntas é verdadeira. A banca não pede uma inferência, mas uma compreensão do que está explícito: as perguntas são o ponto de partida da argumentação.

O texto inicia com uma pergunta central: "quais são as características do ser humano que lhe permitem realizar as ações de trabalhar e de educar?". Essa pergunta não é abandonada; ela estrutura o texto. O autor a retoma ao discutir a definição de ser humano como "animal racional" e, depois, ao apresentar a visão de Bergson, que propõe o "Homo faber". Ou seja, o texto busca responder à pergunta, apresentando duas respostas possíveis.

A técnica para resolver é: verificar se a afirmação da assertiva corresponde ao que o texto faz. O texto não desconsidera as perguntas; ele as desenvolve. A palavra "desconsideradas" é a chave da pegadinha: ela inverte o papel das perguntas, que são, na verdade, o motor da argumentação.

  1. 1Apresenta pergunta central
  2. 2Retoma ao longo do texto
  3. 3Responde com duas visões
  4. 4Estrutura a argumentação
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Item — ❌ ERRADO

A assertiva afirma que as perguntas "sejam desconsideradas e não se busque respondê-las". Isso é falso. O texto as utiliza como estratégia de organização: a pergunta inicial "quais são as características do ser humano..." é respondida ao longo do texto, primeiro com a definição de "animal racional" (parágrafo 3) e depois com a de "Homo faber" (parágrafo 5). O autor não as abandona; ele as retoma e as responde.

"Perguntas desse tipo pressupõem que o ser humano esteja previamente constituído como ser que possui propriedades que lhe permitem trabalhar e educar."

Esse trecho mostra que as perguntas são o ponto de partida da reflexão, não algo descartável. O texto desenvolve a partir delas, explorando as implicações. Portanto, a assertiva contradiz o texto ao afirmar que elas são desconsideradas.

Conclusão: A assertiva está errada porque inverte o papel das perguntas: elas são o fio condutor do texto, não um elemento descartado. A banca explora a troca de sentido da palavra "desconsideradas", que não corresponde ao que o texto faz.

Gabarito: ERRADO.

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