Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2024

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce402017
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
MPE TO
Ano
2024
Cargo
Ana Min ( )

Trabalho e educação são atividades especificamente humanas. Isso significa que, rigorosamente falando, apenas o ser humano trabalha e educa. Assim, a pergunta sobre os fundamentos ontológicos da relação trabalho -educação traz imediatamente à mente a questão: quais são as características do ser humano que lhe permitem realizar as ações de trabalhar e de educar? Ou: o que é que está inscrito no ser do humano que lhe possibilita trabalhar e educar?


Perguntas desse tipo pressupõem que o ser humano esteja previamente constituído como ser que possui propriedades que lhe permitem trabalhar e educar. Pressupõe-se, portanto, uma definição de ser humano que indique em que ele consiste, isto é, sua característica essencial a partir da qual se possa explicar o trabalho e a educação como atributos desse ser. E, nesse caso, fica aberta a possibilidade de que trabalho e educação sejam considerados atributos essenciais do ser humano, ou acidentais.


Na definição de ser humano mais difundida (animal racional), o atributo essencial é dado pela racionalidade, consoante o significado clássico de definição estabelecido por Aristóteles: uma definição dá-se pelo gênero próximo e pela diferença específica. Pelo gênero próximo, indica-se aquilo que o objeto definido tem em comum com outros seres de espécies diferentes (no caso em tela, o gênero animal); pela diferença específica, indica-se a espécie, isto é, o que distingue determinado ser dos demais que pertencem ao mesmo gênero (no caso do ser humano, a racionalidade). Consequentemente, sendo o ser humano definido pela racionalidade, é esta que assume o caráter de atributo essencial desse ser.


Ora, assim entendido o ser humano, vê-se que, embora trabalhar e educar possam ser reconhecidos como atributos humanos, eles o são em caráter acidental, e não substancial. Com efeito, o mesmo Aristóteles, considerando como próprio do ser humano o pensar, o contemplar, reputa o ato produtivo, o trabalho, como uma atividade não digna de seres humanos livres.


Diversamente, Bergson, ao analisar o desenvolvimento do impulso vital na obra Evolução criadora, observa que “torpor vegetativo, instinto e inteligência” são os elementos comuns às plantas e aos animais. E, definindo a inteligência pela fabricação de objetos, fenômeno identificado como comum aos animais, encontra no ser humano a particularidade da fabricação de objetos artificiais, o que lhe permite avançar à seguinte conclusão: “Se pudéssemos nos despir de todo orgulho, se, para definir nossa espécie, nos ativéssemos estritamente ao que a história e a pré-história nos apresentam como a característica constante do ser humano e da inteligência, talvez não disséssemos Homo sapiens, mas Homo faber. Em conclusão, a inteligência, encarada no que parece ser o seu empenho original, é a faculdade de fabricar objetos artificiais, sobretudo ferramentas para fazer ferramentas, e de diversificar ao infinito a fabricação delas.”.


Demerval Saviani. Trabalho e educação:

fundamentos ontológicos e históricos. Internet: <www.scielo.br> (com adaptações).

Texto 11A1

 

Em relação às ideias apresentadas no texto 11A1 e às relações de coerência nele presentes, julgue o item que se segue.

 

No primeiro parágrafo, fica clara a intenção do autor de levar o leitor à reflexão sobre o tema a partir do contraste de ideias, dadas as respostas possivelmente opostas às perguntas formuladas.

  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Coerência e intenção do autor no primeiro parágrafo

Gabarito: ERRADO. A afirmativa está incorreta porque o primeiro parágrafo do texto não apresenta contraste de ideias nem respostas opostas às perguntas formuladas; ele apenas introduz o tema e levanta questionamentos, sem oferecer respostas. A intenção do autor é expor o problema e convidar à reflexão, não contrapor ideias.

O comando pede que se julgue a afirmação sobre as ideias apresentadas e as relações de coerência do texto. Trata-se de uma questão de compreensão (o que está explícito) e de coerência (a lógica interna). A banca afirma que, no primeiro parágrafo, há uma intenção de levar o leitor à reflexão "a partir do contraste de ideias, dadas as respostas possivelmente opostas às perguntas formuladas". Para julgar, é preciso verificar se o texto realmente apresenta esse contraste.

O primeiro parágrafo do texto é:

"Trabalho e educação são atividades especificamente humanas. Isso significa que, rigorosamente falando, apenas o ser humano trabalha e educa. Assim, a pergunta sobre os fundamentos ontológicos da relação trabalho-educação traz imediatamente à mente a questão: quais são as características do ser humano que lhe permitem realizar as ações de trabalhar e de educar? Ou: o que é que está inscrito no ser do humano que lhe possibilita trabalhar e educar?"

Observe que o parágrafo não apresenta respostas, muito menos respostas opostas. Ele apenas formula perguntas e indica que elas são equivalentes ("Ou:"). Não há contraste, oposição ou dualidade de ideias. O autor não diz que há duas respostas possíveis e opostas; ele apenas reformula a pergunta de outra maneira. Portanto, a afirmação de que há "respostas possivelmente opostas" é uma extrapolação — a banca acrescenta uma informação que não está no texto.

A coerência do parágrafo é construída por progressão temática (do geral para o específico) e por retomada (a pergunta é reformulada), não por contraste. O conectivo "Ou:" estabelece uma alternância de formulação, não uma oposição. Se houvesse contraste, esperaríamos conectivos como "mas", "porém", "contudo", ou a apresentação de duas teses distintas. Nada disso ocorre.

A banca tenta confundir o candidato ao sugerir que a natureza interrogativa do parágrafo implica um contraste. No entanto, perguntar não é contrapor. A intenção do autor é introduzir o tema e provocar reflexão, mas isso não se dá por contraste de ideias, e sim por questionamento direto.

Análise da afirmativa

A afirmativa diz: "No primeiro parágrafo, fica clara a intenção do autor de levar o leitor à reflexão sobre o tema a partir do contraste de ideias, dadas as respostas possivelmente opostas às perguntas formuladas."

  • Parte 1: "fica clara a intenção do autor de levar o leitor à reflexão sobre o tema" — isso é verdadeiro, pois as perguntas retóricas convidam à reflexão.

  • Parte 2: "a partir do contraste de ideias" — isso é falso, pois não há contraste.

  • Parte 3: "dadas as respostas possivelmente opostas às perguntas formuladas" — isso é falso, pois não há respostas apresentadas, muito menos opostas.

Como a afirmativa contém elementos falsos, ela é incorreta como um todo. Em questões de certo/errado, basta um fragmento incompatível para tornar o item errado.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a generalização indevida: o candidato pode associar "perguntas" a "respostas opostas" e "reflexão" a "contraste", mas o texto não autoriza essa leitura. O primeiro parágrafo é expositivo-introdutório, não argumentativo-contrastivo.

PEGA ESSA DICA!

Ao julgar itens sobre "intenção do autor" e "relações de coerência", procure marcadores textuais de contraste (mas, porém, contudo, todavia, entretanto) ou a presença de duas teses antagônicas. A ausência desses elementos indica que não há contraste.

Conclusão: A afirmativa está errada porque atribui ao primeiro parágrafo um contraste de ideias que não existe. O parágrafo apenas introduz o tema e formula perguntas, sem apresentar respostas opostas. Portanto, o item é ERRADO.

Gabarito: ERRADO.

Link permanente: /questoes/ce402017